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Poética que floresce no Cerrado

Trabalho da UFG investiga composição em dança e elabora performance baseada em saberes e fazeres tradicionais

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Marlini De Lima

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Dona Flor é uma das interlocutoras da pesquisa em dança

"Todos os meninos aqui me chamam de mãe, peguei quase tudo, até os meus fui eu sozinha, só Deus e eu e mais ninguém. Eu fazia os chás de cravo com folha de laranja, raiz de gervão, fazia o copo e deixava feito [...] bebia de noite, aí eu bebia, bebia [...] aí ia aumentando, aumentando quando dava a dor mesmo aumentada, eu Pá (som) [...] fechava a porta e ficava lá dentro sozinha. Deus e eu até o menino nascer. Eu nem gritava, não, eu tinha a criança às vezes custava despachar a placenta, aí eu chamava alguém, eu mesma cortava o imbigo. Quando eu sentava para ganhar os meninos já botava a tesoura, o novelo de linha tudo encostado [...] (ela dá um sorriso), é minha fia, só foi mais derradeiro, os primeiros tinha quem oiava pra mim também”.

O depoimento acima é de Dona Ramira, 79 anos, mãe de 13 filhos, viúva, habitante do povoado de São Domingos, localizado no município de Cavalcante (GO). Em sua fala, ela comenta sobre o manejo com ervas no momento do partejar, ofício que a fez “pegar” não somente seus próprios filhos, mas incontáveis crianças de sua comunidade. Em julho de 2013, ela recebeu em sua casa um grupo de andarilhos do qual fazia parte a professora Marlini Dorneles de Lima, da Faculdade de Educação Física e Dança (FEFD). Na ocasião, Marlini iniciava sua pesquisa de doutorado no Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB) e caminhava na Chapada dos Veadeiros com o objetivo de observar, reconhecer e viver a corporeidades do Cerrado, forjadas na cultura e no ambiente, no modo de ser das pessoas, na diversidade do bioma. Nesse encontro, Dona Ramira falou sobre sua vida, suas experiências, suas práticas. Marlini voltou no outro dia, conversou mais um pouco, estabeleceu convivência e teve ali a possibilidade de tecer uma investigação que, em 2016, se transformou na tese intitulada Entre raízes, corpos e fé: trajetórias de um processo de criação em busca de uma poética da alteridade.

Em suas andanças, Marlini também acompanhou o cotidiano de Dona Flor, moradora do povoado de Moinhos, em Alto Paraíso de Goiás (GO); Dona Sinésia, da localidade Kalunga de Ribeirão dos Bois, em Cavalcante (GO); e de Mydjideru, Uanaru e Dorewaru, indígenas Karajá da Aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal (TO). Com elas, a professora trocou vivências e confidências, ouviu histórias de parto, fez tratamento com raízes, aprendeu sobre ervas e artesanato, se embrenhou no Cerrado. Dessa oportunidade, foram extraídos elementos para a composição de uma performance que se desdobrou, para além da tese, em um ensaio-ritual e na videodança Elas Florescem. "O corpo precisa de motivo para dançar e eu parti de um campo vivido, me entregando à experiência, para poetizar a existência dessas mulheres", afirmou Marlini.

Os elementos encontrados na pesquisa foram transformados em matrizes estéticas: a posição do parto, o cheiro da flor, o preparo do chá, a sussa (dança Kalunga), a fogueira etc. A professora também se deixou levar pelos modos de andar, parar, mover as mãos, falar, lidar com as plantas, rezar, parir e conduzir o parto de suas interlocutoras. Com isso, percebeu que havia uma mudança de postura entre elas, sobretudo, no momento em que eram chamadas a agir. “Elas vivem entre o cotidiano e o ritual”, acrescentou.

Essa noção passou a dar sentido ao trabalho artístico que foi apresentado nas localidades pesquisadas ainda quando passava por elaboração. “As contrações que fiz foram tão intensas que as mulheres que são parteiras ou já pariram se reconheceram”, relatou. Não se trata, contudo, de representar ações, tampouco de uma composição em dança com “passos” determinados. Conforme explicou Marlini, é algo que vai além: “o ator produz uma energia para sentir o movimento e a performance sai desse lugar do espetáculo”.

Os resultados da imersão na vida das mulheres do Cerrado fez que Marlini passasse a defender uma “poética da alteridade e da diversidade”, ou seja, um momento de criação artística feito em comunhão, partilhando sensações e considerando os saberes e fazeres tradicionais. “Encarei como uma vivência que atravessou o lado artístico e o lado pessoal. Isso é alteridade, é saber que o que aprendi pode estar na minha vida e me fazer bem”, complementou Marlini.

Entre raízes, corpos e fé é uma realização do Núcleo Coletivo 22, companhia que trabalha a dança, a música e o teatro em diálogo com a cultura popular. Em setembro, a performance será apresentada em Goiânia, no âmbito do evento Corpo, Cultura e Cidade: Coletivo 22 em Circulação. Na oportunidade, o público também poderá conferir o espetáculo Por cima do mar eu vim, que estreou no Centro Cultural UFG em 2015.

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Fonte : Ascom UFG

Categorias : Cultura parteiras benzedeiras Edição 90

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