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preservação da água

Entre o deserto verde e a preservação da água

Em uma região impactada pela monocultura, Universidade desenvolve trabalho de conscientização para a preservação das nascentes

Texto: Carolina Melo/ Fotos: arquivo pessoal

preservação da água

Nascentes do assentamento Três Pontes foram recuperadas pela comunidade

A  partir de 2009, o assentamento Três Pontes, localizado no município  de Perolândia, a 420 km de Goiânia, começou a mudar sua paisagem. As plantações de mandioca, banana e hortaliças, bem como a produção de leite, ovos e aves foram gradativamente substituídas pelo cultivo de soja e milho, com o auxílio de empresas privadas. Os impactos ambientais e humanos já são perceptíveis. E foi na localidade que um projeto de pesquisa da UFG conseguiu recuperar 12 nascentes do Ribeirão Invernadinha. A experiência sensibilizou os pequenos produtores para a necessidade de conservação e proteção dos cursos d’água. Os pesquisadores  da  Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ) avaliaram a região com o objetivo de entender o uso da mata e do campo, promoveram ações de conscientização e, em parceria com os assentados, cercaram as nascentes, a mata ciliar e plantaram duas mil mudas de espécies nativas.

O local, afetado pela monocultura, é composto por 43 lotes de famílias há 16 anos assentadas. “O cenário inicialmente encontrado foi de degradação  da mata no entorno das nascentes, que consequentemente impacta o volume dos recursos hídricos”, conta a coordenadora do projeto, professora da EVZ, Raquel Maria de Oliveira. Atualmente, os pequenos produtores acompanham o crescimento das espécies árboreas do Cerrado e o adensamento da mata que protege as nascentes.

Durante o trabalho iniciado em 2013, os pesquisadores tiveram a oportunidade de aprender com os pequenos produtores que, por sua vez, tiveram acesso aos estudos que contribuíram para a conscientização da conservação da água. “A experiência permitiu a vivência no campo e o compartilhamento de conhecimentos sobre as atividades produtivas, vegetação, animais e manejo da terra”, afirmou o professor Paulo Hellmeister, um dos pesquisadores do projeto.

A recuperação das nascentes do Ribeirão contribui para a manutenção da vazão do Rio Claro, que vem diminuindo ao longo dos anos. “De 2012 a 2016 houve uma diminuição considerável da vazão do rio”, afirma a professora, que alerta para a necessidade de outras ações de conservação e recuperação  do Cerrado para garantir a recarga dos cursos d’água na região. “A localidade está ilhada e suprimida em meio aos mosaicos de monoculturas”.

Monocultura

Atualmente, em torno de 75% dos 43 lotes do assentamento Três Pontes aderiram à monocultura. As famílias arrendaram as terras para a  empresa Caramuru e, mais recentemente, a Plantar, ambas fornecedoras de sementes, adubos, inseticidas, herbicidas e responsáveis pelo recebimento e armazenamento dos grãos. A assistência técnica também é fornecida pelas empresas, que fazem desde a medição da área a ser cultivada ao cálculo final da renda de cada lote. “Em muitas propriedades as empresas produzem e colhem, fazem todo o sistema produtivo. Em outras, os assentados têm os maquinários e só vendem o resultado da produção. Em todas, o pequeno produtor é o responsável por combater as pragas com agrotóxicos”, afirma a professora Raquel Oliveira.

Os impactos culturais, ambientais, humanos estão entre os identificados com a transição do cultivo da terra. O pequeno produtor, antes agricultor familiar, agora se vê no limbo, de acordo com professora Raquel. “A monocultura  impacta  a  soberania alimentar. O produtor deixa de ser agricultor familiar e também não é um sojicultor, pois apenas arrenda a terra. Não mais se define como trabalhador do campo e esse desenraizamento gera angústia aos assentados”, afirma. Na atual conjuntura, para o consumo próprio de alimentos, os assentados ficam de- pendentes dos produtos da cidade. “Há aí uma incongruência, a monocultura vem substituindo a produção de alimentos”, observa a professora Raquel.

Mesmo as propriedades que não aderiram à monocultura são afetadas pela forma de cultivo da terra, afinal, as propriedades da agricultura familiar ficam em meio às matrizes de soja. “Ao usarem agrotóxicos, as propriedades vizinhas acabam infectando a produção dos assentados”, afirma o professor Paulo Hellmeister.

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Monocultura avança e chega a emendar com o pomar das casas

Agrotóxicos e danos à saúde

A monocultura tem a necessidade de aumento da área de plantio e, no caso de Três Pontes, chega a emendar com o pomar das casas dos pequenos produtores, além de se aproximar de nascentes e ribeirões. A aplicação de agrotóxicos para o combate das pragas acaba gerando danos à saúde das famílias e ao ambiente.

“Em muitos casos, a aplicação dos produtos químicos é o único trabalho dos assentados”. A grande totalidade, segundo professora Raquel Oliveira, não utiliza os procedimentos básicos de segurança para evitar danos à saúde. “Além de não utilizarem equipamentos de produção individual, não ficam fora da propriedade após a aplicação e, muitas vezes, não fazem o correto descarte das embalagens, reutilizando-as”, afirma.

De acordo com o professor Paulo Hellmeister, os agrotóxicos contaminam o pomar e as frutas, consumidas diretamente do pé. “Sem falar que cada vez mais as lavouras vêm utilizando venenos mais fortes e muitas vezes proibidos, como o Benzoato, pois alguns agrotóxicos não estão sendo eficazes no combate às pragas”, complementa professora Raquel.

Por outro lado, as embalagens dos produtos químicos, quando não são devolvidas aos locais apropriados de recolhimento, em muitos casos são queimadas ou enterradas, em outras, descartadas como lixo comum nas propriedades, abandonadas no campo ou, pior, reutilizadas pelas donas de casa. “E mesmo quando descartam adequadamente, fazem a tríplice lavagem dos recipientes de agrotóxicos nas nascentes e ribeirões, contaminando a água”, conta Paulo Hellmeister.

Incentivo político

A falta de prioridade da agricultura familiar pelo poder público acaba empurrando os pequenos produtores a formas de trabalho aparentemente mais rentáveis. Os pesquisadores relatam que, de acordo com a percepção do proprietário da terra, antes da soja, “tudo era muito difícil, eles tinham dificuldade em vender o que produziam e havia menos incentivos do governo”.

Com a adesão à monocultura, segundo professora Raquel Oliveira, a produção realmente aumenta e o ganho chega mais rápido, mas o solo acaba sendo empobrecido, há impacto ambiental, dano à saúde, além do agricultor perder sua herança cultural. “Os assentados têm um rendimento ilusório, danoso ao ambiente e com período de exploração menor. A longo prazo essa forma de cultivo não traz benefícios, perde-se a soberania alimentar, gera o empobrecimento da terra e consequentemente a migração”, afirma.

Quer saber mais?

O resultado do projeto de pesquisa “Conservando a árvore na mata, a água no rio e o homem na terra” foi divulgado em dois livros pela editora CRV, no primeiro semestre de 2017. O primeiro, com o mesmo nome do projeto, o segundo, intitulado “A utilização de agrotóxicos na microrregião do sudoeste de Goiás: Embasamento legal e impactos na Saúde Pública”, ambos dos autores Raquel Maria de Oliveira, Paulo Hellmeister Filho e Celeni Miranda.

 

 

 

Categorias : pesquisa edição 88

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