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Cooperativas impulsionam agricultura familiar

Organização coletiva é alternativa para superar desafios diários dos pequenos produtores

Texto: Carolina Melo/ Fotos: Tamires Kopp - Sead/ Carlos Siqueira e Adriana Silva

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Responsável por mais de 70% dos alimentos, agricultura familiar representa o segundo maior grupo em extrema pobreza no Brasil rural

Em um cenário onde quem exerce influência política são os grandes proprietários de terra, agricultores familiares encontram nas cooperativas uma for- ma de se fazerem ouvir. Falta de informação, assessoria técnica e valorização são alguns dos enfrentamentos diários dos pequenos produtores. É na organização coletiva que muitos vêm conseguindo escoar a produção e conquistar espaços de mercado, evitando atravessadores e buscando formas de superar os índices negativos da agricultura familiar.

Os dados não são muito animadores. Apesar de ser responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, a agricultura familiar representa o segundo maior grupo em extrema pobreza no Brasil rural, com 756 mil famílias extremamente pobres. Nesse sentido, enquanto cerca de 80% dos agricultores revelam ter ativos disponíveis para a  produção agropecuária, apenas 20% têm boas condições de comercialização e acesso às políticas agrícolas.

Na contracorrente, a Cooperativa de Agropecuária dos Produtores Rurais de Itaberaí (Coapri), no território do Vale do Rio Vermelho, vem modificando a realidade dos seus associados. De  2013  para  cá, a organização conseguiu gerar um rendimento dez vezes maior. O faturamento anual, que era de cerca de R$ 100 mil, foi para R$ 1 milhão em três anos. A gestão realizada pelos próprios agricultores familiares, parcerias com a Universidade Federal  de  Goiás (UFG) e com a prefeitura de Itaberaí, acesso ao mercado institucional e a participação dos movimentos sociais foram as peças chave para essa transformação.

Identificar o que emperra o desenvolvimento no campo é fácil. Não são poucos os produtores e pesquisadores que reclamam da falta de prioridade política, identificam políticas públicas atravancadas na burocracia e nas exigências operacionais, relatam o isolamento e falta de informação dos agricultores familiares, o pouco acesso às tecnologias e assistências técnicas. Difícil é, em um cenário não muito favorável, encontrar o caminho de superação, que garanta qualidade de vida dos agricultores familiares e distribuição de renda no meio rural.

Para a Coapri, a mudança na estrutura da instituição foi o primeiro passo para o fortalecimento coletivo. Antes, a gestão era mista, entre pequenos, grandes proprietários e atores sociais do município. “Quando os próprios agricultores familiares assumiram a entidade, a cooperativa conseguiu gerar motivação e credibilidade para a entrada de novos associados”, afirma Ricardo de Siqueira Camargo, agricultor do assentamento Dom Fernando Gomes, em Itaberaí. O quadro de associados a partir de então ampliou de 22 para cerca de 70, pertencentes aos assentamentos da reforma agrária Dom Fernando Gomes dos Santos, Carlos Marighela, Chê, Dom Hélder Câmara e algumas comunidades de agricultores tradicionais. “Os associados possuem tradição no campo, produzem hortaliças, frutas, carnes e produtos processados”.

A função da cooperativa foi intermediar as pontas de interesse no mercado e o acesso aos créditos, quando necessário. As produções dos agricultores familiares foram mapeadas e incentivadas para atender as demandas do mercado institucional, via o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e, especialmente, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). “Antes, a maioria dos agricultores produzia para atender o mercado tradicional. A entrada no  merca-  do institucional promoveu a diversidade  produtiva  e  incentivou a venda dos excedentes nas feiras locais e regionais”. Com isso, o mercado foi ampliado e a produção dos agricultores familiares atende atualmente 14 municípios do Estado. “Com a introdução dos novos produtos e acesso a novos contratos houve aumento de renda das famílias”, observa o agricultor familiar Ricardo de Siqueira.

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Acesso  à informação

A falta de informação do trabalhador rural impede o acesso às políticas públicas e, nesse sentido, a organização coletiva contribui para sanar em parte o isolamento das famílias que vivem no campo. “Muitos agricultores familiares não têm sequer informações sobre a existência dessas políticas e programas”, afirma a professora da Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ), Raquel Maria Oliveira.

Para se ter ideia, apenas 13% das famílias têm acesso ao crédito rural do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e quase 50% do total dos  recursos do crédito está concentrado no Sul do País, com baixa adoção em Goiás e concentrado em projetos de leite. Os dados foram levantados pelos professores da UFG, Graciella Concioli e Gabriel Medina. “O interessante é que o coletivo tem sido uma forma deles se fazerem ouvir, trocarem informações para melhorar as estratégias. Afinal, sozinho o agricultor rural não consegue ter muita voz”, observa Wilson Mozena Leandro, professor da Escola de Agronomia da UFG.

No caso da Coapri, a união conseguiu fortalecer inclusive a rede de apoios e parceiros. A prefeitura de Itaberaí  disponibilizou  a assessoria de pessoas  qualificadas  para dar andamento aos processos administrativos, como emissão de notas fiscais. A participação dos movimentos sociais ligados à agricultura familiar teve importante função política nas tomadas de decisão da cooperativa. “Os movimentos faziam uma espécie de amparo e intermediação com o poder público para atender às necessidades dos pequenos  produtores”,  afirma o agricultor  Ricardo de Siqueira.  E a universidade possibilitou a inserção de tecnologias no processo produtivo, assim como a assessoria técnica de especialistas. “A rede de apoio é muito importante no meio rural, pois ela supre a carência das organizações coletivas que não têm condições financeiras para manter a assessoria de  profissionais de alto custo”, observa Ricardo.

Parceria com a universidade

Projetos de extensão da Universidade Federal de Goiás (UFG) e parcerias com os cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Veterinária e Nutrição propiciaram as ações junto aos agricultores associados da Coapri, com a finalidade de difundir tecnologias e contribuir com o escoamento da produção. Foram realizadas assessoria técnica, acompanhamento e elaboração de projetos junto aos agricultores familiares que possuíam sistemas produtivos estratégicos para atender o mercado institucional. “Nos projetos de extensão, formandos elaboraram orientações sobre o modelo tecnológico apropriado para a realidade dos agricultores familiares, no sentido de  melhorar o  sistema produtivo, e entregaram o projeto escrito ao agricultor”, lembra Ricardo de Siqueira.

Outro aspecto igualmente importante, segundo o agricultor familiar Ricardo de Siqueira, foi que grande parte do acesso ao mercado institucional  foi  realizada  por  meio de projetos da UFG, via profissionais especializados nas áreas específicas. “Agrônomos e nutricionistas ajudaram a cooperativa a dialogar com as escolas municipais e estaduais para viabilizar a produção local por meio do Pnae. A nutricionista da Universidade, por exemplo, conseguiu dialogar com a das escolas no sentido de adequar o cardápio elaborado e a produção  da agricultura familiar”.

Entretanto, segundo a professora Raquel Maria Oliveira, na realidade do campo ainda falta muita assistência técnica e trabalhos de extensão rural. Para ela, o vínculo entre o campo e a universidade é realizado por iniciativas focais. “A universidade precisa sair dos laboratórios e ir para o campo devolver para as comunidades o conhecimento que contribui para a melhoria de vida do produtor. É um trabalho difícil, mas tem que ser feito”, afirma. 

Na  avaliação do  professor Paulo Hellmeister, também da EVZ, o grande ganho  da  extensão rural é a identificação da real necessidade do pequeno produtor. “Levar a tecnologia para o campo sem conhecer a realidade e a necessidade do produtor não adianta. Nem  todas as tecnologias são boas e necessárias para todos. E pequenas orientações podem fazer muita diferença no campo”, acredita.

Tecnologia no campo

De acordo com pesquisa realizada pelo professor da Escola de Agronomia (EA) da UFG, Gabriel Medina, apenas 34% dos agricultores familiares brasileiros adotam tecnologias básicas de produção, como correção e adubação do solo. Já em Goiás, os índices são ainda mais impactantes. Mesmo nos territórios de maior desenvolvimento da agricultura familiar no Estado, 72% dos agricultores não fazem correção e adubação do solo, 11% fazem correção e adubação de acordo com sua intuição e tradição e apenas 17% fazem de acordo com a recomendação técnica.

Entre os assentados, a porcentagem de  adoção de tecnologias  é  ainda menor. Ou seja, 96% não dominam os conhecimentos técnicos para fazer irrigação e, consequentemente, não  irrigam  sua  propriedade, e 84% dos assentados não fazem correção e adubação de solo nem de forma intuitiva e nem a partir da recomendação técnica baseada em análise de solo.

A realidade é representativa da  falta de políticas eficazes de assistência técnica no campo tanto nos governos estaduais quanto no federal. Em Goiás, a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), por exemplo, não abre concurso há 25 anos. “No geral, as ações não têm reflexos na agricultura familiar como um todo. São os gargalos, não são políticas que abrangem a todos”, observa o professor de manejo de solos da EA, Wilson Mozena Leandro. “Infelizmente, pois as inovações são fundamentais para a sustentabilidade econômica e ambiental, para garantir o bem estar mínimo das famílias”.

Um segundo entrave para a adoção das tecnologias é o pouco acesso dos pequenos produtores aos créditos, necessários para o investimento. Além da falta de  informação, há a exigência do cadastro limpo na Receita Federal. “Para o agricultor acessar o crédito, tem que regularizar sua situação cadastral e isso muitas vezes se torna um impeditivo e gera resistência”, explica professor Wilson Mozena. Ao ficarem excluídos das políticas públicas, os agricultores familiares criam sistemas de produção resilientes. “Adotam, portanto, formas tradicionais de cultivo que não são as mais produtivas, mas, para eles, são mais estáveis”, afirma o professor.

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Autonomia do agricultor

A demanda da sociedade por produtos de maior qualidade, entre eles os orgânicos e agroecológicos pode ser um espaço promissor a  ser ocupado pela agricultura familiar. A avaliação é do professor Wilson Mozena. “A demanda é mundial. A  produção é  menor do que a procura. Acredito que a produção de orgânicos pode ser o único caminho para a melhoria da qualidade de vida do agricultor familiar”, afirma o professor.

Segundo registros do projeto Organics Brasil, o mercado de orgânicos cresce mais de 20% ao ano, impulsionado por consumidores que buscam alimentos sem agrotóxicos ou mais sustentáveis. “Trata-se de um mercado a ser ocupado. É uma oportunidade de obtenção de renda e não ser dependente de crédito. A agroecologia pode resolver o problema do agricultor, do consumidor e do desenvolvimento local”, acredita Mozena.

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Categorias : sociedade edição 88 agricultura familiar

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