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Mesa-redonda

Aquecimento global existe mesmo?

Professores do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG debatem sobre a ação humana e seus efeitos para o meio ambiente

Ascom e Rádio Universitária/ Fotos: Adriana Silva

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A ação humana e seus efeitos para o meio ambiente tem sido tema de diversos debates nos últimos anos. Desde que a discussão veio à tona, aquecimento global, efeito estufa e buraco na camada de ozônio são assuntos trazidos constantemente pela mídia e suas possíveis consequências amedrontam a todos com catástrofes anunciadas como degelo, desertificação, alteração do regime das chuvas, inundações, secas prolongadas, aumento da temperatura média global e redução da biodiversidade.

No entanto, cada vez mais pesquisadores em diversas universidades e centros de pesquisa questionam essa teoria e afirmam que não existem provas científicas de que a Terra está aquecendo ou de que o homem possa alterar o clima global. Estudiosos dessa corrente argumentam que a discussão deixou de ser científica para se tornar política e econômica e que as potências mundiais estariam preocupadas em frear a “evolução” dos países em desenvolvimento. Segundo esses pesquisadores, o aquecimento global não passa de uma farsa.

Quem está correto? Para discutir o assunto, esta edição da mesa-redonda convidou professores do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG (Iesa): a climatologista Juliana Ramalho, o pesquisador do Planetário, Paulo Sobreira e o professor do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), Manoel Ferreira.

Como surgiu a teoria do aquecimento global e quando ela começou a ser questionada?

Juliana Ramalho – Essa ideia  começa  na  década de 1970, com as primeiras reuniões científicas para tratar sobre questões ambientais e os impactos das ações humanas sobre o planeta. No final  dos  anos de 1990 ela já começa a ser questionada e nos anos 2000 começamos a ter os painéis intergovernamentais para tratar de mudanças climáticas e o debate fica mais acirrado ainda.

Paulo Sobreira – Tem uma vertente política que dá a seguinte explicação: isso veio a partir dos anos de 1980 com os governos de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Tatcher, no Reino Unido, porque eles enfrentaram crises que comprometeram o carvão e petróleo. Em termos políticos o que aconteceu foi que esses países bancaram uma ideia de que usar combustíveis fósseis seria prejudicial, causando o aquecimento global. Isso, do ponto de vista econômico e político, seria uma forma de boicotar o uso desses combustíveis que causaria tanta dependência nas situações pelas quais esses governos estavam passando. Precisamos considerar esse esboço político.

Manoel Ferreira – No final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, foi criado o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, conhecido como IPCC, que se reúne desde então e redige relatórios compilando todas as pesquisas científicas. Então há uma sustentação científica muito forte com evidências que já são coletadas desde os anos de 1990 de forma sistemática e apresentadas para a comunidade científica e para a sociedade em geral, que passou a se interessar mais pelo tema quando este se tornou manchete para a mídia. Aí surgem esses questionamentos de que se trata de uma questão econômica e política para reduzir a capacidade econômica de países emergentes ou de algo realmente catastrófico. Estamos num caminho sem volta pelas mudanças que já estão ocorrendo em decorrência do nosso modo de produção.

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Manoel Ferreira

Já podemos observar tendências de aumento da temperatura. As mudanças são globais, mas os impactos são locais.(...) Na média [de temperatura] global não há grandes mudanças, mas a amplitude [mínimas e máximas] é que vem tendo novos patamares fixados

A impressão que se tem, inclusive na mídia, é a de que o aquecimento global é inquestionável. Por que a valorização dessa perspectiva entre pesquisadores, governos e veículos de comunicação? Há dados que comprovam essa ideia?

Paulo Sobreira – Não há dúvida de que há um aquecimento local. Os microclimas, as ilhas de calor, o clima urbano, esses sim foram alterados pelo ser humano. O aquecimento regional é discutível, porém, por exemplo, no caso do Cerrado, com a troca da vegetação pelo agronegócio e o desflorestamento, é evidente que há uma maior incidência de radiação solar e a temperatura tende mesmo a aumentar. Mas, mesmo o aquecimento regional, ainda é discutível. Agora o aquecimento global, no meu ponto de vista, ainda merece ser melhor discutido. Coloca-se muito na mídia, por exemplo, a questão da mudança climática. Temos que tomar cuidado, estamos falando de uma variabilidade climática. Há notícias do tipo: “tivemos um recorde de temperatura, a maior dos últimos 50 anos”. Então quer dizer que 50 anos atrás tivemos essa temperatura. Se for dito que nunca antes foi observada essa temperatura ou esse volume de chuva, é algo para se tomar cuidado. Caso contrário é uma variabilidade que está acontecendo. Temos que lembrar ainda que existe uma dificuldade em conhecer essa variabilidade porque no Brasil, por exemplo, não há dados de antes de 1961. Por enquanto, em nosso país, conhecemos apenas algumas décadas. Além disso, estamos falando de estações meteorológicas que foram engolidas pela zona urbana. Aqui em Goiânia, por exemplo, temos uma estação na Avenida Paranaíba que hoje é uma baita de uma avenida, uma área cheia de concreto, asfalto. Não tem como comparar os dados de uma estação dessas com apenas algumas décadas atrás. No hemisfério Norte, onde temos estações um pouco mais antigas, essas estão em localidades também engolidas pelas cidades. Então tenho a impressão de que quando falamos de aumento da temperatura, estamos nos referindo a dados que não servem porque eles foram modificados pelo entorno da estação meteorológica. Temos dados da Antártida,  por  exemplo,  que eu respeito e que de fato mostram essa variabilidade. Então falar de aquecimento ou resfriamento  global  é falar de uma variabilidade que pode se dar em algumas décadas de aquecimento e depois voltar a resfriar, o que torna o assunto muito difícil. E o senso comum nesse caso é perigoso. Nos anos de 1990, eu falava a respeito do aquecimento global, como todo mundo, mas comecei a ouvir algumas opiniões diferentes e pensar sobre elas. Hoje penso mais no resfriamento do que no aquecimento. É, no mínimo, provocador pensar diferente da maioria.

Juliana Ramalho – É difícil expormos essa opinião e nos falta, muitas vezes, espaço para pensar diferente. Muitas vezes somos procurados por veículos de comunicação e quando expomos que há um outro lado, que também precisa ser pensado, não temos espaço. Até para pesquisar é difícil, porque os financiamentos já vêm para quem já trabalha com a certeza de que o aquecimento global é um fato. Também precisamos monitorar os dados para saber se os padrões de temperatura vão continuar se repetindo. Às vezes, foi um valor que aconteceu em um horário de um dia. Não temos observado uma modificação nos padrões de grande escala. Precisamos observar essa linha da variabilidade, a repercussão dos fenômenos atmosféricos é diferente hoje com a urbanização e com o avanço das pastagens, por exemplo. Uma determinada quantidade de chuva causa hoje um enorme transtorno numa grande cidade e há 40 anos não causava quase nada. Hoje uma quantidade mínima já alaga a cidade. Precisamos ver quais são os parâmetros e problematizar os dados. Então acredito que existe, sim, uma supervalorização dessa tese do aquecimento global.

Manoel Ferreira – Há dados, sim. Existe uma rede de estações que registram essas variações e há registros históricos e com muitas décadas. Já podemos observar tendências de aumento da temperatura. As mudanças são globais, mas os impactos são locais. Se falarmos de temperatura média do globo é bobagem ficarmos determinando se aumentou um  centígrado na última década, porque na média global não há grandes mudanças. Então o que precisamos lembrar é que temos acompanhado  aumentos  das mínimas e máximas, por exemplo. Na média não muda quase nada, mas a amplitude é que vem tendo novos patamares fixados. Os grandes apoiadores desses estudos são justamente os países mais ricos, normalmente situados em latitudes mais elevadas e que de fato têm quatro estações bem marcadas durante o ano. Nos países tropicais e intertropicais, como o Brasil, além de termos muita dificuldade de monitorar o clima, nossas estações climáticas não são tão bem definidas, temos praticamente seca e chuva, com pequenas alternâncias. São esses países mais ao norte que vêm sofrendo com essas mudanças porque notam essas variações de forma mais impactante, com invernos mais rigorosos, por exemplo. Aquecimento global não quer dizer que vai sempre aquecer, pode significar também resfriamento em algumas áreas e aquecimento em outras como, por exemplo, na Antártida, onde o degelo das calotas polares já é com- provado com publicações em periódicos respeitados mostrando que essa área de gelo vem decrescendo anualmente. Esses países, de onde são a maior parte dos pesquisadores, apoiam essas pesquisas porque há, de fato, uma maior sensibilidade à variação. Temos pesquisas que demonstram redução das calotas, redução e aumento de chuvas em alguns locais e aumentos das temperaturas mínimas. O que está acontecendo é que o clima no globo está ficando um pouco esquizofrênico, mudando os seus padrões. Essa mudança é que pega desprevenidas as populações em geral, sobretudo aquelas com menos  capacidade de mobilização contra desastres naturais. Então, acredito que há, sim, evidências do aquecimento global, causando maior variabilidade climática no globo. O clima está saindo do padrão em vários pontos.

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Juliana Ramalho

Então falar de aquecimento ou resfriamento global é falar de uma variabilidade que pode se dar em algumas décadas de aquecimento e depois voltar a resfriar, o que torna o assunto muito difícil. E o senso comum nesse caso é perigoso

Qual a realidade da temperatura do planeta?

Paulo Sobreira – Entre as décadas de 1940 e 1970 houve uma queda de temperatura no planeta, o que é uma coisa totalmente absurda se o culpado de tudo isso é o homem e a produção industrial, porque esse deveria ter sido um período de muito aquecimento. O que existe são dados a partir dos anos de 1980 mostrando a temperatura subindo. Agora, a partir  de 2010, ou não está subindo muito, ou está caindo. Numa tendência geral a temperatura tem pequenas oscilações, mas são muitas variáveis envolvidas. Qual é a referência que temos, por exemplo, para afirmar que há degelo? Desde quando conhecemos o gelo da Antártida? O fato é que temos 11.700 anos com significativo degelo no planeta, quando saímos da era glacial e entramos na interglacial, que tem tendência de ser mais quente. Mas, se olharmos mais longe ainda na idade do planeta, no último milhão de anos, ele é muito frio porque houve quatro períodos de glaciações, cada um com cerca de 100 mil anos. No geral, a temperatura do planeta está esfriando e muito. Esse derretimento de agora é natural porque estamos numa fase interglacial. É difícil dizer o quanto o ser humano pode ter acelerado  esse processo, mas também é difícil dizer o quanto é natural. Além disso, hoje temos melhor aferição de temperatura do que antigamente. E essa aferição é questionável porque os termômetros usados no século XX são diferentes dos utilizados no século XIX e não houve nenhum cuidado para fazer essa transição dos dados de um tipo para outro ao longo da história meteorológica.

Juliana Ramalho – A própria rede utilizada pelo painel intergovernamental, que fala que tem dados de 1850 pra cá, só foi efetivamente criada após a Segunda Guerra Mundial, na metade do século XX, muito recente ainda para falar sobre o comportamento de um planeta que tem milhares de anos. Precisamos ressaltar que resfriar também não é uma coisa boa porque um resfriamento implicaria, por  exemplo,  na redução da quantidade de  chuvas,  impactando na produção de alimentos. Quando questionamos o aquecimento global não quer dizer que não consideramos a ação do homem no local e que não estamos preocupados com as questões ambientais ou com o modo como as cidades crescem desenfreadamente, pelo contrário. Apenas afirmamos que o aquecimento global é questionável.

Manoel Ferreira – Existe uma escala geológica e não podemos ignorar isso, mas temos que lembrar que, desde que começamos a fazer monitoramento do clima e emissão de gases do efeito estufa, houve associação do aumento da quantidade  desse gás com  o aumento da temperatura. Esse aumento coincide com aumento de indústrias e veículos, além de desmatamento em larga escala e urbanização. Tudo leva a crer que estamos realmente induzindo o aumento da temperatura porque é muito clara a relação com  o aumento dos gases do efeito estufa. Temos que entender que o mundo passou por um momento de ocupação intenso nos últimos 100 anos, que gerou mais produção de gases do efeito estufa. Há uma correlação bem comprovada do aumento da temperatura com o aumento da emissão desses gases. Há, sim, uma contribuição do nosso modo de vida e projeções que indicam para isso. Nosso melhor cenário agora era começar com políticas para reduzir essas emissões. E nada diz que vamos frear porque há questões econômicas, políticas e até científicas para questionar essas mitigações.

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Paulo Sobreira

No geral a temperatura do planeta está esfriando e muito. Esse derretimento de agora é natural porque estamos numa fase interglacial. É difícil dizer o quanto o ser humano pode ter acelerado esse processo,
mas também é difícil dizer o quanto é natural

Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados? Quais seriam os interesses por trás dos protocolos assinados para conter o fenômeno? Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?

Juliana Ramalho – Existem indícios de que há interesse de que isso não seja muito questionado. Não estou dizendo aqui que devemos promover a degradação e sair ampliando a produção agrícola e fazendo pastos para sustentar modo de produção e consumo dos países ricos. Não vou dizer que os governos não sabem, nem que fazem uma conspiração, mas várias coisas levam a crer que existem mecanismos econômicos envolvidos. O buraco na camada de ozônio é um exemplo concreto disso porque a campanha para abolir o uso dos CFCs coincide com o período em que haveria a quebra da patente desse gás e ele não teria mais valor econômico. Então disseram que não podíamos mais usá-lo para pagarmos por outra coisa. Não vou dizer que não há gente muito bem intencionada, mas vamos questionar mais, buscar novas informações. Precisamos fazer cenários e projeções, mas temos que olhar para esse discurso com cuidado porque acredito que há muito mais interesse do que o que é mostrado.

Manoel Ferreira – O Brasil aparece entre os dez primeiros emissores do efeito estufa e ainda estamos em processo de desenvolvimento. Concordo  que não temos que acreditar em tudo que escutamos, temos que questionar. Existem fontes de dados muito confiáveis e outras são especulativas e se baseiam fracamente em estudos para alarmar  a  população de maneira equivocada. Mas temos políticas hoje no Brasil interessantes,  como o mercado  de crédito de carbono. Todas as ações que fizermos em prol do meio ambiente, pensando em evitar emissão e evitar aumento de temperatura, farão um bem incrível para o meio ambiente e o bem estar da população, de forma mais sustentável. São políticas tão benéficas que eu sou sempre a favor mesmo que as mudanças climáticas tenham lá o seu viés político e econômico.

Paulo Sobreira – Eu vou mudar de caminho porque quero falar sobre o Sol. A energia que chega do Sol para a Terra não varia, mas o ciclo de atividade solar, o chamado vento solar, altera o clima espacial. A cada 11 anos o Sol aumenta e depois reduz sua atividade. Esses ciclos são conhecidos desde o século XVII e são contados. Nesse momento estamos no ciclo XXIV, de menor atividade solar. A gente registra isso a partir de observação das manchas solares na superfície do Sol. Quando há muitas manchas, há mais atividade solar, que causa mais nebulosidade global. É fácil pensar que o aquecimento ou resfriamento do planeta tem a ver com maior ou menor quantidade de nuvens no céu, o que causaria precipitação por neve ou chuva, que tem relação muito direta com temperatura.  O que acontece é que a distribuição dessas manchas ao longo dos séculos é variável e, infelizmente, estamos às portas de um novo ciclo solar, de menor atividade do Sol. Em 2012 esperávamos um aumento da atividade solar que não veio e agora acabou essa época. Isso preocupa os estudiosos do assunto porque tudo indica que esse ciclo deverá ter menos manchas solares e, até 2060, devemos ter menor atividade solar, com períodos semelhantes aos que ocorreram há séculos atrás, deixando para trás toda essa questão do aquecimento global, reduzindo a temperatura na Terra. Torço para que essas previsões estejam erradas mas, a partir de 2022, devemos enfrentar temperaturas cada vez menores, inclusive no hemisfério Sul. Aposto num quadro preocupante que o Sul do Brasil poderá sofrer nevascas a partir da próxima década, diminuindo chuvas no Cerrado, por exemplo. Eu inclusive torço por um aquecimento porque ele é possível de se controlar tomando determinadas medidas. Porque o resfriamento é muito mais preocupante do que o aquecimento. E o homem não tem influência sobre isso, a “culpa” é do Sol.

Confira o áudio do programa completo no link.

 

 

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