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Pastor Taco

Soluções para mobilidade urbana esbarram na gestão

Pastor Willy Gonzales Taco fala sobre o futuro da mobilidade urbana

Pastor Willy Gonzales Taco

"Cada um de nós tem a sua responsabilidade e o compromisso de fazer a mobilidade urbana ‘humana’"

Foto: Agência UnB

Silvânia Lima

Enquanto o trânsito gerar prejuízos sociais, econômicos, ambientais e inúmeros acidentes, a mobilidade urbana estará em pauta. Avanços científicos e tecnológicos contrastam com os velhos modelos, que geram congestionamento, superlotação e poluição. Para falar sobre o futuro da mobilidade, o gargalo das políticas públicas e a responsabilidade de cada um para uma mobilidade urbana mais humana, o Jornal UFG conversou com Pastor Willy Gonzales Taco, professor e coordenador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes da Universidade de Brasília (UnB), integrante da equipe do Programa de Pós-Graduação em Transportes e líder do grupo de pesquisas “Comportamento em transportes e novas tecnologias”.

O pesquisador também coordena o Dextra, Laboratório de Ideias da UnB, com a gestão e participação de estudantes. Inspirado no modelo de smart campus, em menos de um ano de pesquisa, o grupo desenvolveu um aplicativo de mobilidade para o câmpus da UnB, além de fomentar o Programa Carona Solidária UnB. Para Pastor Willy, a nova universidade funciona como um grande laboratório, reunindo conhecimentos para soluções rápidas e eficientes.

Quais são os principais problemas enfrentados no campo da mobilidade urbana e como mudar?

O principal problema no Brasil em relação à mobilidade é a gestão. Ela é muito lenta, fortemente influenciada por questões políticas e, muitas vezes, mergulha em interesses particulares, deixando de lado o saber técnico. Paralelamente, há a desarticulação entre os vários órgãos envolvidos na mobilidade urbana. Não existe um compasso nas ações que cada um desenvolve e, ainda, parece existir certa “concorrência” entre eles sobre o tema. Outro problema é o quantitativo reduzido de profissionais qualificados e com expertise junto às prefeituras e órgãos responsáveis para atender às inúmeras necessidades da mobilidade urbana. Quanto à comunidade, falta participação nas instâncias deliberativas. Também falta “empoderamento” daquilo que já está estabelecido na lei e nos diversos instrumentos legais conquistados depois de muito esforço. Junto disso, ainda precisamos desenvolver, de forma individual, a nossa responsabilidade com a mobilidade urbana, que não depende somente do poder público. Cada um de nós tem a sua responsabilidade e o compromisso de fazer a mobilidade urbana “humana”.


Sobre o uso do automóvel, além do grande tráfego e da poluição, sabemos de sua importância na economia, inclusive, pelo potencial de empregabilidade. Por quanto tempo esse modelo vai durar?

De fato, o Brasil apostou no modelo de desenvolvimento econômico baseado na indústria do automóvel. Evidentemente há muitos interesses por trás disso, mas há que lembrar também que isso gera uma considerável mão de obra que sustenta a economia das pessoas. Pensar em mudar isso significa apresentar outro modelo que venha substituir o existente. E penso que isso irá acontecendo de forma natural com o advento das novas tecnologias e das novas formas de economias disruptivas (que usam novas tecnologias para derrubar as existentes no mercado), que já estão produzindo mudanças em várias partes do mundo. Em quanto tempo, não sei, mas isso acontecerá de forma natural, por meio dos novos elementos de melhoria do serviço, os quais a população está apta a vivenciar e que geram mudança de comportamento. Penso que isso será a chave dessa consciência coletiva. Aos poucos as pessoas começam a experimentar mudanças que satisfazem suas expectativas e isso vai gerando respostas e confirmando que é possível viver sem o absolutismo do automóvel, e, sim, com o uso do mesmo de maneira inteligente e racional.

O que acha da educação pela punição, por exemplo, da alta aplicabilidade de multas em veículos?

De fato, isso não resolve de forma plena. Há muitos outros fatores implicados e que infelizmente não têm prosseguimento na sua aplicação. Veja um exemplo que retrata isso: é como ir ao médico e receber a indicação para aplicar uma injeção que acabe com o foco da infecção e a indicação de uma dieta. Mas achando que só a injeção resolve o quadro viral, você deixa de fazer a dieta. Aí a infecção retorna em outro momento, e muitas vezes com mais intensidade, agravando o quadro. É o que ocorre. Não estamos conseguindo diminuir os índices de acidentes com automóveis, a cada dia morrem pessoas equivalentes a uma queda de avião! Precisamos dar continuidade às “recomendações médicas”. Campanhas de educação nas estradas e nas escolas, mais pesquisas para determinar os fatores desencadeadores de comportamentos agressivos. Precisamos inovar no enfrentamento do problema. Inovação é mudança e condição para resultados mais eficientes e permanentes.


Do que depende a obtenção de mais qualidade no transporte urbano?

Além de investimentos, precisamos inovar na forma como o serviço é prestado. E muitas vezes isso não está claro nos instrumentos legais que definem os quesitos de qualidade. Precisamos ter referências de qualidade que correspondam aos anseios da população. Não podemos aceitar receituários prontos, precisamos ouvir a população, acompanhar seus percursos, compreender o que ela vivencia para, com base nisso, estabelecer os parâmetros a serem cobrados aos prestadores de serviço.

Nesse processo de construção em aberto, sobre a mobilidade urbana, como contribuir? O que deve ser considerado para que avancemos?

A construção em aberto sugere justamente isso. Primeiro, que cada um de nós possa participar com os nossos saberes na construção de uma mobilidade urbana e humana. Segundo, que exista um “ente/pessoa” condutor que permita a coordenação dos vários saberes na construção dessa realidade tão desejada. Nisso felicito o Fórum de Mobilidade encabeçado pela UFG, pois é nítido e notório que avanços estão sendo conseguidos em termos da mobilidade urbana, em grande parte, graças a eventos como esses. Curitiba é um exemplo único, muito visitado e até imitado mundo afora. O famoso BRT foi idealizado e construído de forma que, quando necessário, foram sendo juntadas as peças para que o sistema funcionasse. As estações tubo, as canaletas, os diversos tipos de ônibus, as soluções tecnológicas foram sendo desenvolvidas e construídas em conjunto.

O que nos aguarda, no futuro, em termos de mobilidade urbana?

Muitas surpresas, pois os paradigmas estão sendo derrubados. E, nisso, as novas tecnologias estão cumprindo um papel importante. As pessoas estão tendo a opção direta e democrática de conhecer, experimentar e escolher serviços que respondem às suas expectativas. Por outro lado, emergem discussões sobre novas formas de regulamentação, em que novos mecanismos de mercado surgem favorecendo a economia dos usuários e redefinindo o uso do espaço urbano. É o que estamos assistindo, por exemplo, com a discussão do Uber. Assim, o futuro já chegou, e breve não será mais a questão da posse do veículo o elemento-chave, mas, sim, o serviço de mobilidade, o serviço da via, que hoje é propriedade exclusiva do automóvel, em detrimento do transporte público e outras formas de deslocamento. E tudo isso será mais fácil de gerenciar com os sistemas inteligentes. Aliás, é só observar que carros autônomos, baseados em sistemas inteligentes, não são mais parte da ficção científica, muitos deles já têm esses sistemas. Esses fatores favorecem uma mobilidade urbana mais humana.

Como avalia a metodologia utilizada no Dextra que reúne ideias de diferentes fontes de saber?

Estamos num cenário diferente daquilo que era tradicional em nossas universidades. Hoje em dia, os nossos alunos estão cheios de ideias e totalmente ligados e conectados com um mundo em constante mudança. E o mais interessante disso tudo é que eles conseguem se adaptar com facilidade, o processo de transição é mais rápido, dando lugar a formas diferenciadas de pensar e agir. Basta um clique na tela do tablet, smartphone, computador e a informação chega com muita facilidade. A imagem contendo inúmeras informações faz com que seja mais inquietante o fato de (re)construir do que aproveitar, partir do que já foi feito. E é isso que o Dextra recupera e propõe. E traz, também, como reflexão, repensar a maneira de “formar”, pois no presente contexto não é suficiente o “saber”. Evidentemente, essa realidade requer mudanças importantes no ambiente universitário para fomentar e fortalecer essas novas demandas.

Categorias : Entrevista Edição 86

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