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Pesquisa registra trajetória de cineasta indígena

Relação construída entre pesquisadora e cineasta também inspirou documentário experimental feito por elas

Texto: Carolina Melo
Fotos: Arquivo Pessoal

O que é ser uma mulher indígena cineasta? O que as imagens produzidas por uma mulher indígena podem causar, combater ou afirmar? Essas foram algumas das perguntas que nortearam o caminho da pesquisadora e artista visual goiana Sophia Pinheiro em direção à cineasta Patrícia Ferreira Yxapy, em São Miguel das Missões (RS). O encontro resultou em uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e em um documentário sobre o elo artístico entre a pesquisadora e a cineasta.

Para traçar a trajetória de Patrícia Ferreira Pará Yxapy, Sophia foi para a aldeia Ko’enju, a mais de 700 km de Porto Alegre, e manteve o contato com a cineasta por meio de um celular e via internet, por dois anos. "Ao todo, em duas visitas, fiquei seis meses em Ko’enju. Começamos também a estabelecer uma relação a distância. Trocávamos vídeo-cartas, fotos, desenhos", lembra. Ali, na aldeia, a pesquisadora vivenciou e participou da produção imagética da cineasta indígena, que tece a narrativa de sua etnia Mbyá-Guarani e rompe o espaço discursivo das produções audiovisuais brasileiras.

O enfrentamento é evidenciado pela falta de visibilidade. No balanço geral da paridade de gênero do audiovisual no Brasil, elaborado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) e divulgado ano passado, mulheres indígenas não constam como produtoras audiovisuais. De outra forma, no site do Vídeo das Aldeias, no universo de 38 cineastas indígenas, apenas três são mulheres. Entender esse cenário foi o desafio de Sophia Pinheiro em sua pesquisa A imagem como arma: a trajetória da cineasta indígena Patrícia Ferreira Pará Yxapy, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS).

As particularidades da produção audiovisual indígena feminina e suas consequências, assim como a diferença em relação à produção indígena masculina, foram alguns dos debates levantados pela pesquisa. De acordo com Sophia Pinheiro, uma mulher indígena cineasta resiste e ultrapassa um cenário desfavorável às mulheres e ainda mais às indígenas. "Ser mulher indígena cineasta é conseguir conciliar o tempo junto às suas demandas cotidianas, é vencer a intimidação, o medo, a vergonha".

Pesquisa cineasta

Autorrepresentação
Professora em Ko’enju, Patrícia fez a primeira oficina do Vídeo nas Aldeias em 2007. Nesse mesmo ano, cofundou o Coletivo Mbyá-Guarani de Cinema e, atualmente, soma a produção de cinco filmes. "Por meio do cinema, ela ficcionaliza sua cultura como agente histórica e exerce o espaço de liderança por meio de seu trabalho, tencionando a produção artística hegemônica, esse padrão imposto, social e estético", afirma Sophia Ferreira. Nas palavras da cineasta indígena, a imagem "é a flecha, a arma, que se aprende a usar como o papel".

Com as narrativas, a cineasta faz que a sua própria história, a de sua família e das mulheres próximas conquistem espaço por meio da arte, do audiovisual. Consegue, assim, confrontar as percepções culturais estereotipadas. "Na literatura, as mulheres Mbyá-Guarani aparecem com uma sub-representação. São mulheres tímidas, dóceis, frágeis, loucas. Então, para viabilizar a história de sua etnia, o cinema é uma ótima ferramenta", acredita a pesquisadora. De acordo com Sophia, as imagens de Patrícia Ferreira Pará Yxapy causam o encontro com a diferença, reverberam a sua voz, combatem os estereótipos, os padrões de produção audiovisual e afirmam sua identidade étnica.

"É muito importante que as mulheres indígenas estejam nesse lugar, como protagonistas, produzindo filmes e material artístico, porque elas trazem luz a algumas questões básicas, que são colocadas como segundo plano pelas narrativas hegemônicas". Temas como a casa, a gravidez, a maternidade, a criação dos filhos, o corpo, a alimentação e os rituais feitos apenas por mulheres são retratados nas produções imagéticas. "Normalmente, os vídeos realizados por homens indígenas discutem a espiritualidade, a política, a confraternização social. As produções de mulheres mostram um outro lugar e evidenciam que a gente não conhece tanto sobre o universo indígena", afirma.

Pesquisa cineasta

Encontro poético
O caminho percorrido por Patrícia e Sophia atravessou e ultrapassou o ambiente acadêmico, transbordando em uma produção artística assinada pelas duas mulheres, que se reconheceram ao longo do processo. Para a pesquisadora, as suas semelhanças, mais do que as suas diferenças, foi a grande surpresa. "Ela tem uma questão com o corpo meio crônica, um problema de saúde na infância, e eu também. Percebemos que as nossas trajetórias de vida são muito parecidas. Criadas por mães solos, pais ausentes, somatização de doenças nos corpos. A partir desse encontro eu fui acessando também a minha espiritualidade e o meu processo de cura", conta Sophia. Já Patrícia lembra o desafio aceito por elas de mudar e se compreender, no momento em que conviveram juntas na aldeia. "Isso foi fundamental para entender os valores morais e éticos que guiaram nossos comportamentos, nossa relação e nossa obra. Entender como esses valores se internalizaram em nós e como isso conduziu a relação de uma com a outra".

Ao se reconhecerem, o acolhimento entre elas ocorreu naturalmente, lembra a cineasta indígena. "Houve uma espécie de consciência entre nós duas, como humanas. Foi muito rápida nossa elevação para ver o amor, para ver nosso interior e a realidade de cada uma. E acho que quando a gente percebeu essa verdade fomos acolhidas uma pela outra. Assim, eu compreendi que essa consciência é a nossa identidade, de cada uma. E apesar de sermos tão iguais − no meu modo de pensar, somos iguais porque somos duas mulheres imperfeitas habitando esse mundo imperfeito − também somos diferentes", afirma Patrícia.

As imagens trocadas entre elas a distância e produzidas presencialmente fizeram parte da metodologia da pesquisa, mas ganharam contornos particulares. Foram capazes de ilustrar a relação que se constrói e se aprofunda em cenários íntimos, privados, espirituais. A poesia registrada desse encontro suscitou a produção do documentário A imagem como arma, lançado ano passado e disponibilizado ao Museu Antropológico da UFG. "O nosso filme é a nossa relação. Ela me filma, eu a filmo. A gente se constrói na relação. Pelas imagens fomos nos entendendo, nos conhecendo, nos transformando. Foi um caminho também artístico, poético".

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Sociedade Edição 94

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