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Peixe

Quem dera ser um peixe sustentável

Crescimento contínuo da piscicultura no Brasil alerta para a necessidade de manejo adequado da criação

Texto: Angélica Queiroz, com informações da TV UFG e Camila Godoy

Fotos: Carlos Siqueira

Condições climáticas favoráveis, diversidade de espécies de peixes, grande produção de grãos para fabricação de rações e muita disponibilidade de água. Com características cruciais para o desenvolvimento da piscicultura, a produção e o consumo de pescado no Brasil vêm crescendo a cada ano. E as projeções indicam mais crescimento. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimam que o país deve registrar aumento de 104% na pesca e aquicultura até 2025.

Nesse cenário, é cada vez mais importante pensar num manejo adequado da criação de modo a ampliar a produtividade e evitar contaminações da água e do solo. Atentos a essa realidade, pesquisadores dos setores de piscicultura das Regionais Goiânia e Jataí da Universidade Federal de Goiás têm buscado alternativas para fazer da criação de peixes uma atividade sustentável e que respeite o meio ambiente.

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Entre os cuidados essenciais está a necessidade de evitar que a água escoada dos viveiros e tanques prejudique o meio ambiente. “A  densidade e a quantidade de peixes precisam ser adequadas para a área que você tem. O excesso gera impacto na qualidade da água e afluentes”, explica a professora da Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG, Fernanda de Paula. A água do cultivo também pode ser contaminada devido ao uso inadequado de produtos químicos para combater as doenças que acometem os peixes, uma prática comum especialmente em criações amadoras. 

A médica veterinária e mestra em Zootecnia, Cristielle Souto, atenta para o fato de que muitos produtos químicos são aplicados indiscriminadamente para tratar os animais, como o formol que, apesar de proibido, é utilizado em grande escala, ou o verde malaquita, que é cancerígeno. O uso dos fitoterápicos em substituição aos quimioterápicos é uma alternativa possível. “Os peixes estão na água e é muito difícil tratá-los individualmente. Se jogarmos produtos químicos na água, temos de tratar efluentes. Então, estamos cada vez mais utilizando produtos naturais, como o alho e o açafrão, que já têm eficácia comprovada para melhorar o sistema imunológico dos animais, além dos efeitos antibióticos”, afirma Cristielle Souto. Além disso, a pesquisadora lembra que a água dos tanques e viveiros pode ser reaproveitada para irrigar hortaliças, oferecendo também nutrientes para as plantas.

Alternativas para rações

Outro aspecto importante é a qualidade do alimento que está sendo fornecido para o peixe. “Muitas rações vendidas a um preço mais barato apresentam ingredientes com baixa digestibilidade, o que faz com que boa parte do que o peixe consome não seja absorvido pelo organismo dele, que libera essas substâncias pelas fezes. Em grande escala, esse processo aumenta a carga orgânica da água e pode causar uma alteração ambiental”, detalha a professora. Na UFG, alguns estudos já encontraram alternativas interessantes para incrementar a qualidade das rações e também diminuir custos.

Uma dessas iniciativas foi o desenvolvimento, em parceria com a Universidade Federal de Alagoas, de uma ração utilizando resíduo das unidades de beneficiamento do camarão para produzir farinha, substituindo o farelo de soja. “O crescimento e bem-estar fisiológico dos peixes foram avaliados,  provando a viabilidade no uso desse alimento”, detalha Cristielle Souto, que participou dos experimentos realizados na Regional Jataí.

Pesquisadores da Escola de Agronomia também encontraram outra maneira de substituir ingredientes utilizados nas rações, utilizando sobras da indústria cervejeira. O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja no mundo e o experimento, coordenado pelo professor da Escola de Agronomia, Francielo Vendruscolo, aproveitou, no preparo de rações para tilápias, o principal resíduo sólido do processo de produção de cervejas: o bagaço do malte.

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Rico em celulose, mas com baixo conteúdo proteico, até então esse material era destinado apenas  para a alimentação de ruminantes ou para a compostagem. No entanto, os pesquisadores encontraram uma forma de aumentar o valor nutricional do resíduo ao adicionar microorganismos com capacidade de converter carboidratos em proteínas com alto valor biológico, semelhantes às da carne e do ovo. Em seguida, a equipe de estudiosos incorporou o material fermentado a diferentes rações testadas como alimento para os peixes. Os animais foram monitorados e os pesquisadores verificaram que a inclusão do bagaço do malte fermentado na ração é viável e que, com isso, as tilápias mantêm normalizados seu crescimento e estrutura. “Isso pode ser feito não só com bagaço de malte, mas também com outros resíduos de frutas como o tomate, por exemplo”, observa Francielo Vendruscolo.

Redução da excreção de fósforo

Outro projeto também focado na sustentabilidade das produções, desenvolvido na UFG, Regional Jataí, de autoria do professor Igo Guimarães e coordenação da professora Janaína Araújo, foi o desenvolvimento de pacote tecnológico nutricional para a redução da excreção de fósforo na produção de tambaqui no Sudoeste Goiano. “Em virtude da escassez de informações sobre as exigências em fósforo para espécies nativas de peixes, nota-se a necessidade da obtenção de dados nutricionais para maximizar o desempenho zootécnico destas espécies e minimizar a excreção de fósforo nos efluentes e, consequentemente, reduzir o impacto gerado por sistemas intensivos de produção”, afirma o professor Igo.

Você sabia?

 

Fonte : Ascom UFG

Categorias : pesquisa Edição 89

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