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Aton

Ditadura e repressão policial-militar

Aton Fon Filho conversou com o Jornal UFG sobre dez anos de cárcere e torturas na Casa de Detenção de São Paulo

Aton

Texto: Luciana Gomides

Foto: Produtora João e Maria.doc. Acervo: Memorial da Resistência de São Paulo

O ano era 1964. O Brasil assistiu ao poder sendo tomado de assalto pelo regime militar, fazendo nascer uma era sombria, que perduraria por mais de duas décadas: a ditadura militar. Aton Fon Filho, hoje militante e membro dos Advogados Populares do Brasil, tinha apenas 16 anos quando tudo começou. Afiliado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e engajado na resistência armada contra o regime, foi preso em 1969, por sua atuação na Ação Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella, assassinado meses antes.

Dez anos de cárcere e torturas na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru) geraram, em conjunto com mais oito presos políticos, a obra A Repressão militar-policial no Brasil: o livro chamado João. Escritas de forma clandestina, as narrativas assim permaneceram por quatro décadas,  sobrevivendo sob o pseudônimo criado por seus autores. Ao contrário de  registros  biográficos  daquela  época, o livro vai além da denúncia e relatos do ambiente da repressão, estudando a origem de seus aparatos, desde o período colonial. Libertado em 1979, Aton Fon Filho só teve sua anistia legalmente concedida em 2013. Em tempos nos quais a repressão ainda persiste, mesmo que de forma velada, ele conversou com o Jornal UFG sobre o processo de escrita de sua obra, além de comparar a atuação política, midiática e policial daquele período com o que vemos atualmente.

Na produção do livro foi feita uma análise conjuntural desde o golpe até a instalação da ditadura. Como foi o processo de produção da obra?

O livro foi escrito para que fosse possível uma análise da conjuntura desde o processo do golpe até a instalação e evolução do processo da ditadura. Em 1974, toma posse o presidente Ernesto Geisel, indicado pelo general Garrastazu Médici. Geisel, logo de início, anuncia sua intenção de realizar um processo do que ele chamou “abertura lenta, gradual e segura”. Então, decidimos estudar que significado isso poderia ter para os ditadores. Também consideramos o fato de que, no ano de 1974, se aprofundou o processo de extermínio dos militantes da oposição política. Esse processo, que vinha se aprofundando desde 1970, tornou-se praticamente  absoluto  a  partir  de  1973 e 1974. Nós estávamos na Casa de Detenção de São Paulo nesse período e decidimos, então, que uma forma de contribuirmos para o entendimento do que estávamos vivendo era o estudo de algo mais aprofundado da situação. O fato de fazer um livro desse tipo, dentro de um presídio já traz, em si, muitas dificuldades. Na casa de detenção, tínhamos muitas restrições à leitura de livros. Os agentes presidiários tinham determinações expressas de restringir nossos acessos e, para poder chegar às nossas mãos, qualquer livro tinha que vir marcado por autorização da Auditoria Militar, responsável por esse processo de censura e autorização, além do fato de que, naquele tempo, a produção de livros que fizessem análise, de algum modo, contrária às versões oficiais da história que os militares apresentavam também era muito dificultada. Como diz o próprio livro, tivemos muito acesso a jornais e revistas porque, desde as primeiras chegadas de presos políticos nos presídios, nos preocupamos em fazer a organização de uma hemeroteca, com clipagem dos jornais e revistas. Estas acabaram se tornando a fonte principal do material que utilizamos.

Como conseguiram lidar com a repressão?

Era muito complicado fazer um trabalho desse tipo dentro de um presídio porque sofríamos uma repressão permanente. Volta e meia, passávamos por batidas para verificar que tipo de material tínhamos nas celas. Em 1974, por exemplo, fomos transferidos da Casa de Detenção para a Penitenciária do Estado. O coronel Erasmo Dias, nomeado Secretário de Segurança Pública do Estado, fez uma incursão na galeria na qual estávamos recolhidos e de lá decidiu que não poderíamos permanecer por estarmos sendo tratados de forma que considerou privilegiada. Na penitenciária, precisamos nos envolver em um processo de luta para retomar nossas leituras, estudos, organização e sobrevivência como militantes políticos. Tínhamos também que manter a produção desse livro oculta dos companheiros que estavam conosco ali no presídio, para que poucas pessoas soubessem. Esta era a segurança do trabalho a que dedicamos. Ainda mais quando muitos companheiros tinham conosco divergências e achavam que não deveríamos tomar nenhuma atitude que pudesse, no entender deles, causar problemas. Tenho companheiros, por exemplo, que traçaram conosco um polo de divergências em torno do que era estabelecido, por exemplo, como o papel do militante revolucionário preso. Diziam eles que o papel do militante revolucionário preso era sair da cadeia para retomar a luta lá fora. Nós concordávamos, em partes, com essa visão, porém, entendíamos também que, enquanto presos, tínhamos a tarefa de aportar, naquilo que fosse necessário, as lutas que eram realizadas pelo povo brasileiro. Por isso mesmo, começamos a referir a esse livro como João, exatamente para que não vazasse que estávamos realizando estudos, coletando materiais, ou mesmo redigindo um livro.

Vivemos um período de crise e, consequentemente, greves gerais e manifestações, muitas vezes, duramente reprimidas. O senhor consegue traçar uma comparação da repressão daquela época com a de hoje?

Esse livro esteve para ser publicado durante mais de 40 anos, desde 1974 até 2016. Durante muito tempo tivemos a intenção de publicar. O problema  é que, para fazer, nós tínhamos a necessidade de algumas discussões, entre elas, se seria o caso de fazer uma atualização ou se publicaríamos da forma como foi originalmente escrito. Decidimos pela mera revisão e a atualização acabou não acontecendo. E o livro foi publicado, exatamente no momento em que se completava um novo golpe, um golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff. Neste momento, vimos que, apesar de 42 anos depois, aquela publicação cumpria um papel na nova situação que se apresentava. Não diria que a repressão que enfrentamos no período da ditadura militar seja idêntica a que estamos sofrendo hoje. De certa forma, essa repressão tem até um caráter mais daninho porque vem acobertada pelo judiciário e pelas organizações que, a rigor, deveriam estar voltadas para a produção de justiça, mas que favorecem a impunidade dos militares que assassinam, rotineiramente, a nossa juventude na periferia. Então, hoje nós estamos em uma situação muito pior porque, em 1964, a repressão era exercida diretamente pelos militares, por aqueles que tinham o privilégio do emprego da força. Agora, a repressão não é mais exercida, diretamente, por aqueles que têm o privilégio do emprego direto da força, mas por aqueles que têm o privilégio de determinar a ação dos primeiros. A mesma violência que era praticada anteriormente é praticada agora, mas oculta, sob a aparência de legalidade quando juízes e promotores determinam ou acobertam a violência dos militares.

entrevista

E o papel da mídia? Houve mudanças na forma como são divulgadas notícias sobre o governo, crise, protestos e os atores dessas manifestações?

No livro, nos referimos, em determinados momentos, às situações em que o organismo da mídia, jornais, revistas, que favoreceram o golpe militar de 1964, tornaram-se depois contrários ao regime e, por isso, foram alvo de censura e repressão. Na atualidade, nós começamos, talvez, a vislumbrar alguns elementos que indicam essas contradições. Mas, de modo geral, o bloco da mídia está participando absolutamente integrado com o poder judiciário e organismos do legislativo para decidir qual seria o melhor modo de ofender os direitos dos trabalhadores. É por isso que, em determinados momentos, alguns veículos defendem a permanência de Temer no governo enquanto outros postulam, desde logo, o afastamento de Temer e sua substituição por qualquer um dos representantes de maior confiança do capital financeiro internacional.

Atualmente, alguns enxergam a intervenção militar como solução para a crise. Após anos vividos sob a ditadura e os horrores do cárcere, o senhor vê isso com alguma preocupação? 

Isso significa que, talvez, as pessoas não saibam como buscar uma solução para a crise. Recorrendo às grandes manifestações em apoio ao impeachment da presidenta Dilma, temos que reconhecer que nos momentos em que as forças organizadas dos trabalhadores resolvem buscar transformações estruturais da sociedade brasileira, há um confronto contra elas. Em 1964, no auge da luta dos trabalhadores em busca da reforma agrária, tributária, bancária, da busca na nacionalização das empresas estruturais para o desenvolvimento brasileiro, houve marchas em defesa da família, da propriedade. Vejo isso com mais preocupação agora, com o extermínio produzido contra as parcelas mais pobres da população. Naquele tempo, setores da classe média se levantaram contra a ditadura militar, tiveram condições de denunciar os horrores do cárcere e, com isso, fazer a necessária estigmatização da ditadura militar. O fato de que, agora, sejam os trabalhadores e os mais pobres os vitimados faz com que fiquem mais reduzidas as possibilidades de fazer essa denúncia.

 

Categorias : Entrevista Edição 89

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