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Estudantes

Ensinando a pensar

Como as lutas recentes travadas por estudantes têm contribuído para o debate público? 

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Coletivo Desneuralizador e Luiz da Luz

A UFG é marcada pela atuação das e dos estudantes desde sua fundação. Elas e eles tiveram papel importante, por exemplo, na articulação que antecedeu a aprovação da Lei n° 3.843 C, que autorizou a criação da universidade. Também foram marcantes nas lutas por redemocratização institucional travadas entre as décadas de 1960 e 1980. Estiveram presentes – de maneira ora agregadora, ora combativa – em momentos recentes de tomadas de decisão e implantação de políticas públicas. Inúmeros estudos já abordaram a relevância desse grupo. Uma busca rápida pela Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (https://repositorio.bc.ufg.br/tede/) localiza, somente na UFG, cerca de 40 títulos indexados com o termo “movimento estudantil”.  Falar da lição das e dos estudantes para a sociedade seria, portanto, um lugar comum, se essa “categoria” não estivesse sempre em transformação – literalmente, em movimento. O que a geração atual traz para o debate público?

Em primeiro lugar, é preciso destacar a pluralidade de ideias e posturas que circulam entre elas e eles, produzindo configurações bastante heterogêneas. Deste modo coexistem, imbricados e ao mesmo tempo tensionados, movimentos negros, coletivas feministas e LGBTs, correntes partidárias, autonomistas, religiosos etc. “É uma galera diversa. As pautas estão relacionadas a autonomia política, liberdade de expressão, questão de gênero, questão étnico-racial, sexualidade. Tudo isso aparece no movimento estudantil. O que é positivo. Precisamos debater sobre todas essas coisas”, afirmou Michele Andrade, estudante de Geografia. “A intensificação da presença das pessoas trans mudou bastante a perspectiva de tudo, de como se portar, de todas as formas, do que é corpo, do que é movimento social”, completou C., que optou pelo anonimato.

Não se identificar ou não mostrar o rosto é uma característica a ser levada em conta e, muitas vezes, não compreendida. É que não há, necessariamente, uma preocupação com a representação ou com a disputa por postos de liderança. Todos podem falar e decidir. A luta, de modo geral, tem sido pelo próprio corpo, pela garantia imediata de direitos e pelas tomadas de decisão de forma horizontal. “Essa nova geração não quer dirigir e nem ser dirigida”, observou o professor Flávio Sofiati, da Faculdade de Ciências Sociais (FCS). Esse segundo aspecto faz parte de uma compreensão da política ancorada muito mais na ação coletiva e na tentativa de ampliar temas a serem discutidos conjuntamente do que no controle ou na aglutinação de forças. “O que os estudantes fazem não é uma socialização política tradicional. Eles se entendem como sujeitos que podem agir politicamente aqui e agora. Não precisam de formar valores básicos ou se prender a hierarquias antes de atuar. Aprendem a fazer, fazendo”, apontou Luís Antônio Groppo, professor de Sociologia da Educação da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) que esteve na UFG em março para falar sobre o tema.

As e os estudantes de hoje trazem consigo o acúmulo de experiências recentes, tais como a luta contra o aumento da tarifa do transporte coletivo, de 2013, que culminou nas Jornadas de Junho; a luta contra a redução da maioridade penal, aprovada no Congresso Nacional em 2014; e as ocupações das universidade e institutos federais em 2016, contra a delimitação do teto de gastos públicos. “Experimentamos outro modelo de organização e entendemos a necessidade de voltar a ter uma expressão mais massiva. A conjuntura imposta atualmente exige nossa reação. Acabou o período de planejar atos simbólicos com seis meses de antecedência”, declarou Ritley Alves, presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE).

É preciso pontuar ainda que o movimento estudantil não está somente na universidade. Pelo contrário, o Ensino Médio, que recuperou das lutas da década de 1960 o termo “secundarista” e reconstruiu sua identidade, tem ensinado bastante aos adultos. Na virada de 2015 para 2016, adolescentes de 15 a 17 anos ocuparam 27 escolas em Goiânia, além de atuarem em outros municípios, e conseguiram impedir a implantação das Organizações Sociais na gestão escolar. Foram ameaçados, perseguidos, presos, mas resistiram e operaram uma reviravolta não somente na educação estadual, mas em todo o movimento. “Conseguimos formar uma comuna, aprendemos a viver juntos, alcançamos a periferia, fizemos outros grupos tomarem gosto pela luta, tivemos apoio da sociedade, trouxemos o debate da horizontalidade e rompemos com o olhar acadêmico”, avaliou G., secundarista, para quem os universitários ainda precisam abandonar o proselitismo.

 

Estudantes

Além das ocupações, atos de rua fazem parte das estratégias da juventude para despertar a atenção da sociedade

Disputa

Outro traço que não pode ser ignorado é o crescimento do contingente que se declara “autônomo” ou “independente” e que questiona com muita veemência a validade da representação partidária. Desde as Jornadas de Junho, tem sido frequente o escracho público às bandeiras de instituições, como forma de repudiar a conhecida “apropriação” de determinados grupos pela luta coletiva. Em uma escola ocupada em São Paulo contra a “reorganização escolar” proposta por Geraldo Alckmin, por exemplo, conforme narram Antônia Campos, Jonas Medeiros e Márcio Ribeiro no livro Escolas de Luta (São Paulo: Veneta, 2016), uma bandeira fornecida pela juventude de um partido foi transformada em cobertor para um gato que se aproximou da ocupação e se tornou “mascote” da mobilização no local.

Em Goiânia, diversos foram os relatos de disputas por território. Houve expulsão de pessoas que carregavam bandeiras em ocupações. Para G., estas atitudes não podem ser generalizadas pois, no momento em que aconteceram, faziam parte de determinado contexto e foram discutidas caso a caso. “Ocupamos um debate sobre a luta dos secundaristas que estava sendo feito por partidos e que não nos convidaram a participar. Estavam falando por nós”, exemplificou. Para Ritley, da UEE, no entanto, essa foi uma radicalização temerosa. “A luta política não pode ser, de fato, apropriada. Mas não poder me identificar como parte da entidade que pertenço também passa dos limites”, ponderou ele, que integra o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e a União da Juventude Socialista (UJS).

Para Mateus Ferreira, vice-presidente do Centro Acadêmico de Políticas Públicas, é preciso entender porque esses conflitos têm acontecido. “O discurso é que o movimento autônomo nega a política. Mas ele não está negando a política, está rejeitando uma estrutura desgastada”, ponderou. Espancado por um policial na manifestação contra as reformas trabalhista e da previdência realizada no dia 28 de abril de 2017, Mateus se tornou figura pública de uma forma bastante dolorosa, mas tem conseguido fazer reflexões sobre si e sobre seus colegas. “Às vezes a gente fica em um ambiente mais reduzido, conversando com nossos próprios amigos. Mas eu gostaria de conseguir alcançar pessoas que não estão pensando o mesmo que eu”, comentou. Deveras assediado pelas vertentes partidárias, ele tem se inclinado mais ao “grupão” dos independentes, mas não quer deixar de dialogar com os demais. Por isso, ele vai em todos os espaços onde é convidado. “Os movimentos que não têm lideranças oficiais valorizam muito o indivíduo. Já o partido, por sua vez, tende a padronizar os pensamentos. Isso não está mais atraindo as pessoas. Essa insatisfação já existia, veio crescendo, explodiu a partir de 2013 e até hoje os partidos não entenderam isso e não deram uma resposta satisfatória”, analisou.

Jeferson Fragoso, fundador e atual presidente do Centro Acadêmico do curso de Relações Públicas, vinculado ao PCdoB e à UJS, considera que este debate, muitas vezes, atrapalha o movimento estudantil, que deveria lutar por uma pauta unificada. “Apesar de termos ideais e objetivos em comum, nos fragmentamos muito por visões um pouco diferentes. O conservadorismo avança e estamos brigando entre a gente”, opinou. No âmbito da União Nacional dos Estudantes (UNE), a unificação das lutas tem sido uma chamada constante, sobretudo, em razão da política nacional. Para a entidade, as estratégias devem ser traçadas em prol das Diretas e da redemocratização do país. “Está havendo um esforço maior para unificar as pautas e abarcar os diferentes grupos. A Anel, Assembleia dos Estudantes Livres, que fazia frente à UNE, por exemplo, no último congresso se dissolveu”, exemplificou Ritley. Para C., porém, a unificação deveria ultrapassar a ideia da pauta única. “O problema é que não conseguimos formar uma base sólida para estar sempre lutando. A gente espera acontecer algo muito grave para fazer as coisas”, refletiu.

Pauta interna

“Por uma educação que ensine a pensar e não a obedecer” é frase multiplicada há muito tempo em cartazes e discursos. No contexto atual, o pensamento ganha sentido, uma vez que as e os estudantes testam todos os limites do que está posto institucionalmente. Não por um desejo puro e simples de desorganização e afronta, mas sim pela vontade de construir juntos. Deste modo, são levantados temas que dizem respeito tanto ao próprio movimento estudantil quanto ao seu relacionamento com a universidade. Na UFG, as e os estudantes denunciam assédio e autoritarismo, querem participar das decisões, fazem autocrítica e não poupam a burocracia do sistema. “O central é a autonomia. No sentido individual e coletivo. A partir disso vamos conseguir dialogar e pautar o que consideramos importante”, definiu Michele. “Não queremos cargos, não temos interesses eleitorais, temos pautas e queremos que elas sejam cumpridas”, completou K.

Unanimidade na lista das reivindicações é a questão da segurança, sobretudo das mulheres, nos espaços de circulação. O tema, associado à denúncia de uma violência (física e simbólica) sofrida pelas garotas em decorrência de um machismo estrutural que não exclui o espaço acadêmico, foi um dos motivos pelos quais as estudantes ocuparam a Reitoria em junho de 2016. Muito embora a universidade venha tentando atender os pontos de pauta destacados na ocasião e uma resolução que dispõe sobre casos de assédio moral e sexual tenha sido aprovada recentemente pelo Conselho Universitário (Resolução Consuni nº 12/2017), a preocupação perdura. Gargalos como a melhoria da iluminação pública, por exemplo, ainda são apontados como distantes de uma solução.

A força das Minas

Capítulo importante da história da universidade foi escrito em 2016 pelas mulheres. “É de conhecimento público o poder que essas meninas estão alcançando”, observou a professora Adriana Delbó, da Faculdade de Filosofia (Fafil), que se considera “uma delas”, por querer cada vez mais acompanhar a movimentação das feministas na UFG. “É preciso estar dentro, participar. De fora, você é só um falante”, frisou. Minas na Reitoria foi a primeira ocupação feminista encampada por estudantes das universidades brasileiras e uma das mais polêmicas ações que a universidade já vivenciou.

Foi intensa, espontânea, teve sua narrativa disputada, sofreu críticas e ataques, despertou paixões, mas também recebeu apoio e contribuiu para um debate que ainda está em curso. “Fizemos toda a universidade discutir gênero, mas nossas pautas não foram totalmente atendidas”, afirmou K., uma das participantes, que lembra como foi o processo de construção e negociação das pautas. “Muita gente questionou, pois entramos na Reitoria e só depois fomos discutindo nossas reivindicações. Mas aproveitar a espontaneidade foi também um aprendizado. No movimento estudantil, às vezes, você vai criando vícios e então pudemos romper com isso”.

Antes das ocupações, um histórico de indignação e formação feminista já percorria os grupos e as gerações de mulheres da universidade. Depois das ocupações, novas coletivas feministas surgiram, algumas se firmaram, outras acabaram, e o que marcou essas mulheres foi, de fato, a experiência pura e simples de existir. “Ser mulher é uma coisa só sua e ninguém pode te tirar isso de modo algum. Ser mulher na UFG é força e resistência que a gente tem que ter o tempo inteiro”, constatou C.

O papel das ocupações

“Como ocupar sua escola”, uma cartilha escrita por estudantes argentinos que tomavam por base a “revolta dos pinguins”, experiência dos secundaristas chilenos que lutaram por gratuidade no transporte e por melhorias na educação entre 2006 e 2009, foi traduzida por um coletivo de São Paulo conhecido como O Mal-Educado e muito rapidamente se espraiou pelos espaços de militância. Em um primeiro momento, de novembro de 2015 a janeiro de 2016, estudantes do Ensino Médio de cinco estados (SP, GO, RJ, CE, RS) se organizaram e atuaram localmente contra o fechamento de escolas, a precarização das condições de ensino, a implantação de Organizações Sociais na gestão escolar. Já em uma segunda fase, que se deu entre setembro e dezembro de 2016, a luta uniu secundaristas e universitários com o objetivo de impedir medidas consideradas prejudiciais à educação pública, como a reforma do Ensino Médio e a definição de um teto para os gastos públicos. Nessa ocasião, 19 estados aderiram às ocupações. Nos dois momentos as mobilizações foram acompanhadas de atos públicos nas ruas.

Para o professor de filosofia da Escola Estadual Murilo Braga, João Coelho, essa foi uma oportunidade de ressignificar a luta estudantil, uma vez que as ocupações dos espaços públicos sempre existiram. “As escolas não deixaram o espaço ocioso, continuou sendo escola, mas sob um novo formato. Outro aspecto importante foi a ideia de propriedade, pois as unidades, mesmo que públicas, eram vistas como ambientes privados, de propriedade do Estado, da diretoria, dos professores, os estudantes não sentiam pertencimento, não eram capazes de sentir que aquele espaço era, de fato, deles. Com as ocupações, a maneira como a escola começou a se organizar demonstrou que o problema estava também relacionado ao modelo arcaico na qual o ambiente escolar foi construído”, explicou. Segundo ele, que não imaginava ver sua escola ocupada e sentiu na pele o fato de ter se posicionado a favor das ocupações, seu maior aprendizado foi em relação às possibilidades de construção de experiências democráticas dentro das instituições: “o que se aprende é que existem novas maneiras de aprender”.

Adriana Delbó também destacou a oportunidade de aprendizado que teve com as ocupações. Na primeira leva, a dos secundaristas, ela foi apoiadora. Na segunda, contra a Proposta de Emenda Constitucional 55, compôs o grupo de professores que integrou o acampamento livre erguido no Câmpus Samambaia. Conforme relatou, a experiência foi reveladora. “Sou professora de Filosofia Política e apresentei ideias que depois vi que não eram por aí. E foi muito legal, pois só perdi a ingenuidade porque compartilhei essa ideia e ela foi discutida. Você não pode ser dependente das autoridades para aprender coisas; não pode se restringir ao que está consagrado. Você aprende convivendo com pessoas que têm as mesmas preocupações que você, a mesma intranquilidade”, avaliou.

A professora destacou a importância das ocupações para “pôr em suspensão” uma rotina produtiva, na escola e na universidade, que precisa ser revista e repensada a partir de uma conjuntura de desmonte do Estado e de precarização dos serviços públicos. “As pessoas estão chamando atenção para algo que é público”, defendeu. Apesar disso, em sua percepção, a sociedade reagiu mal, de modo moralista e politicamente despreparado, o que é perigoso. “A vida pública está sendo atacada e as pessoas que reagem a isso estão sendo tratadas como executoras do ataque. Mas quem está atacando, de fato, são as autoridades políticas”, continuou. Ela apontou para os afetos que circulam no debate público, muito embora o falatório pareça racional. “As pessoas colam demais em afetos como o medo. Já dizem: não posso ocupar. Mas por quê? Você sabe o que é uma ocupação? Você já foi em alguma? Já viu o que acontece? Está acontecendo depredação do patrimônio público? Não. Então não tem nenhum crime acontecendo”, pontuou.

Capacidade de se organizar, de participar da vida pública e de transformar o cotidiano, em resumo, são os aspectos destacados por quem convive com o movimento estudantil. Para Joyci Viegas, que leciona História na Escola Estadual Gracinda de Lourdes, foi estudante na UFG e militante entre 2003 e 2007, os estudantes apresentaram “questões ligadas à educação, à democratização do conhecimento, à formação emancipatória, à democratização das decisões nos espaços da escola e da universidade” que causaram certo embaraço na sociedade como um todo, mas proporcionaram a continuidade de lutas iniciadas em anos anteriores. “Já que os movimentos de 2013 foram boicotados, criminalizados e descaracterizados, o que já era de se esperar, os princípios de um movimento radicalizado, horizontal, autônomo e antiburocrático permaneceram nessa nova geração, que vivenciou e potencializou tais características”, analisou.

G., secundarista que pretende estudar Psicologia, também fez sua avaliação, apresentando um resultado pouco mencionado quando o assunto é luta política: a compreensão de si e do outro, as chances de formação e transformação das visões de mundo. Esse, por fim, deve ser um aspecto a se considerar. “Minha vida mudou. Antes, eu repetia de ano e não entendia, achava que o problema era comigo. Depois das ocupações, tivemos tantos debates interessantes que entendi muita coisa. Por que eu não tinha professores? Por que faltava carteira na sala de aula? Por que a minha diretora era rígida? Tudo isso passou a fazer sentido”, relatou. Porém, ele próprio alerta quanto ao entusiasmo em relação a essa ferramenta: “Temos de tomar cuidado com o fetiche, tanto interno quanto externo. Não é só estar em uma ocupação e pronto. A cada momento e para cada situação de luta é preciso definir uma estratégia”. 

Estudantes

Jornadas de Junho de 2013 estimularam estudantes a lutar por direitos

Contextualizando a violência policial

Mateus Ferreira deixou o posto de trabalho que tinha em São Paulo para cursar Ciências Sociais/Políticas Públicas em Goiânia. Costumava ir a manifestações com os amigos desde 2013, mas nunca havia atuado de modo “orgânico” na política. Ao se mudar para Goiás, no início de 2016, passou a formar seu pensamento na sala de aula, nos grupos de estudo e nas rodas de conversa. Quando das manifestações de 28 de abril de 2017, foi espancado pelo capitão da Polícia Militar Augusto Sampaio, esteve no limite da vida, entrou em coma, passou por cirurgias e cuidados intensivos, ainda está em fase de recuperação.

Essa experiência não foi exceção. Pelo contrário. Conforme o sistema em que vivemos, foi emblemática da regra. Espancamento, prisão, ameaças diretas e indiretas, vigilância: em tempos de crise econômica e política, cabe às instituições controlarem os ânimos por meio da coerção. Por isso, Mateus entendeu a violência que sofreu como institucional. “Em um momento tão forte de retirada de direitos e opressões, temos de pensar maneiras de reagir e ao mesmo tempo nos proteger”, justificou. Outros estudantes pensam o mesmo. “O medo está sempre presente, sabemos que a qualquer instante podemos ser pegos”, revelou G., ciente de sua vulnerabilidade, mas sem perder a coragem.

Na Escola Estadual Gracinda de Lourdes, um trabalho supervisionado pela professora de História Joyci Viegas, no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), vem construindo a consciência histórica dos estudantes a partir do tema “ditadura militar”. A ideia é estimular a autonomia dos estudantes – tanto os monitores, que cursam História na UFG, quanto os secundaristas – tentando articular a noção que eles têm sobre o assunto com o gosto pela pesquisa e pela produção de narrativas. Em um estágio já avançado da iniciativa, que teve início em 2016, um dos resultados tem sido a associação direta que os estudantes fazem entre o período investigado e a violência policial de hoje.

“Pude acompanhar as discussões trazidas pelos grupos e, realmente, isso foi constante. Observamos que é uma forte característica que permanece daquele período nos dias atuais. Os jovens, em grande parte, já tiveram experiências de abuso de poder policial, de sentimento de insegurança nas ruas da cidade e do seu bairro, parentes e amigos assassinados, entre outras características que acabamos, muitas vezes, naturalizando em nossa sociedade. A violência policial é um problema social gravíssimo, e o que o que existe hoje seria uma política de Estado de extermínio com três focos: a juventude pobre, negra e em menor medida se comparada a violência aos outros dois grupos a juventude combativa militante e participante dos novos movimentos sociais”, analisou a professora. Por meio do Pibid, a ideia é desnaturalizar os processos de violência para que as marcas do passado (tortura, censura, estado de sítio) sejam, de fato, reconhecidas no presente.

Fonte : Ascom UFG

Categorias : sociedade Edição 89

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