Weby shortcut 1a5a9004da81162f034eff2fc7a06c396dfddb022021fd13958735cc25a4882f
Youtubeplay db0358e6953f0d0ec2cd240bca6403729d73b33e9afefb17dfb2ce9b7646370a
PETBio

Educação hospitalar como forma de inclusão

Alunos do curso de Ciências Biológicas desenvolvem projeto de ensino com pacientes hospitalizados

Texto: Luciana Gomides/ Ilustração: Gabrielle Carneiro

PETBio

O tempo de internação exigido para o tratamento de doenças, bem como o período de recuperação, compromete, em grande parte dos casos, a participação do paciente em atividades escolares. Para garantir o direito à educação de crianças, jovens e adultos em condição especial de saúde que os impossibilite de frequentar o ensino regular, a Pedagogia Hospitalar apresenta-se como uma modalidade de ensino especial aplicada nos hospitais e domicílios, permitindo o início ou a continuidade da escolaridade. Como consequência, diminui-se a defasagem, a evasão e o fracasso escolar.

Com o objetivo de trabalhar a reintegração do educando em seu ambiente acadêmico, alunos e professores do Programa de Educação Tutorial do Curso de Ciências Biológicas (PETBio) da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolvem o projeto  Ensino de Ciências e Biologia nas Classes Hospitalares: Inclusão e Cidadania ou, simplesmente, “O Projeto do Hospital”, como é mais conhecido na Unidade. As atividades são desenvolvidas em parceria com a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce), por meio Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar (NAEH), no qual os alunos da Universidade atuam como bolsistas.

O início dessa parceria se deu por iniciativa da tutora do PETBio, a professora Renata Mazzaro, após assistir a uma reportagem sobre educação hospitalar prestada a pacientes em hemodiálise no Ceará. “Cheguei para os ‘petianos’, contei a história e uma aluna comentou que um projeto similar já existia em Goiás, desenvolvido pela Seduce, e que a mãe lecionava nele”, conta Renata. A partir daí, foi feito o contato com a professora Zilma Rodrigues Neto, então coordena- dora do NAEH, iniciando a parceria  a partir de 2014, possibilitada pelo edital do Programa de Extensão Universitária (Proext), com o qual o PETBio foi contemplado.

Parceria

O NAEH atua desde 1999, mantido pela Seduce por meio da Superintendência de Inteligência Pedagógica e Formação/Gerência de Ensino Especial, em prol do atendimento a educandos em estado de doença ou convalescença, nas classes hospitalares  e domicílios. Atualmente, o Núcleo presta seus atendimentos em nove instituições e na residência dos estudantes que apresentam condições especiais de saúde. O trabalho dos acadêmicos do PETBio se desenvolve em três dessas unidades, sendo elas o Hospital das Clínicas da UFG (HC/ UFG), o Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e o Hospital Araújo Jorge.

Os acadêmicos da Universidade acompanham  os  professores  designados pela Secretaria durante os atendimentos, aplicando o conteúdo sugerido de acordo com o nível escolar, idade e grau de doença na qual se encontra o aluno-paciente. Ademais, os “petianos” têm a possibilidade de atuar dentro da própria Seduce, auxiliando na elaboração de material de estudos e auxílio ao banco de dados. “O planejamento de uma aula hospitalar é individualizado e requer um currículo flexibilizado, muito diferente do que se aprende em sala de aula”, detalha a tutora do PETBio.

Renata reforça a particularidade da educação hospitalar pela condição dos pacientes, fragilizados pelo tratamento e tempo de internação.  “Muitas vezes, o bolsista faz o atendimento hoje com o paciente e, na próxima semana, não pode continuar porque o mesmo está imunodeprimido, fez quimioterapia ou, até mesmo, faleceu”, explica. Por lidar com situações tão extremas, os alunos contam com formação específica e apoio psicológico dentro do NAEH, com sessões se- manais de terapia em grupo acompanhadas por psicólogo e atendimento individual, quando necessário.

Experiência

A professora discorre, com carinho, sobre os laços de afeto desenvolvidos entre os bolsistas e os alunos atendidos. “Os educandos se identificam e se reconhecem nos estudantes do PETBio”, comenta, completando sobre o quão a experiência é gratificante. O sentimento é compartilhado pelos discentes Artur Monteiro, que fez parte do projeto até o ano de 2015, e Luiz Gustavo Rezende, integrante do grupo desde 2014. Para ambos, o tempo atuando nos hospitais representa um marco, tanto pessoal, quanto profissionalmente.

Artur destaca o atendimento prestado a uma paciente do Crer que sofria de paralisia cerebral e deficiência visual. “Lá, ela aprendeu que, como toda criança, poderia sair do chão se pulasse, seria capaz de to- mar água sozinha e devolver o copo para a mesa”, comenta o estudante, lembrando, também,  a  forma  como a menina o reconhecia ao passar as mãos em seu rosto, além de chorar para não ir embora do atendimento. “Seus olhos não viam, mas falavam muita coisa. Por eles, dava para ver uma menina que queria sair do seu casulo e encarar o mundo”, recorda.

Luiz se impressionou com um reabilitando, também do Crer que, vítima de AVC aos 35 anos, tinha como principal objetivo reaprender a escrever o nome para lidar com questões de herança. “A força de vontade  dele  era imensa, mesmo não sabendo falar e tendo baixíssima motricidade”, comenta. Ele também menciona um atendimento impactante no Hospital Araújo Jorge em que, com muito esforço, uma criança fazia os deveres enquanto recebia a medicação. “A mãe ficava ao lado, com feição cansada e de sofrimento, o que me chocou bastante, tanto que optei por não voltar a esse hospital”.

Em razão  da dinâmica do projeto e a rotatividade  dos  educandos,  Luiz e Artur não conseguiram manter contato com os pacientes  atendi- dos, porém, o período dedicado ao projeto promoveu a sensibilização perante o outro, fazendo-os sair de suas próprias zonas de conforto, principalmente em uma área carente de profissionais qualificados. Tal impressão é corroborada por Renata Mazzaro, que frisa:“O olhar para o próximo é muito desenvolvido, trabalhando cidadania, educação, pesquisa e inserção social. Essa vivência os alunos do PETBio não teriam em outro lugar”.

Educação Hospitalar

Categorias : Extensão edição 88 educação hospitalar

Listar Todas Voltar