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Nem só de hormônios se faz a contracepção

Nem só de hormônios se faz a contracepção

Muitas mulheres estão largando a pílula em busca de métodos alternativos de contracepção

Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

 

O surgimento da pílula anticoncepcional, na década de 1960, foi celebrado como símbolo da liberdade sexual feminina. Era, para as mulheres, a possibilidade de tomada de decisão sobre seus corpos. No Brasil, o anticoncepcional é hoje o método contraceptivo mais popular, utilizado por 38% das mulheres que se previnem. Ele pode ser adquirido facilmente, sem a necessidade de receita médica, e é um dos que apresenta uma das menores taxas de falha.

Mas toda história tem dois lados e, atualmente, a opção tem sido cada vez mais questionada. É crescente o número de mulheres que, após anos de uso contínuo, estão decidindo largar a pílula e conhecer seus corpos. A contracepção tem sido encarada também como uma questão de empoderamento. Em consultórios médicos e grupos de discussão na internet, o debate sobre os efeitos colaterais da pílula e o fato de a responsabilidade de evitar a contracepção recair apenas à mulher, tem dividido opiniões.

Para discutir o assunto, esta edição da mesa-redonda convidou a ginecologista e professora da Faculdade de Medicina da UFG e membro da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Marta Finotti; a ginecologista e especialista em medicina integrativa, Lívia Carneiro; e a farmacêutica, Nathania Rodrigues Santiago.

 

Nos últimos anos tem crescido o interesse sobre os impactos do uso contínuo de anticoncepcionais. Quais são os principais efeitos colaterais das pílulas e até onde vale a pena lidar com eles?

Marta Finotti – A pílula é um método contraceptivo muito seguro. Ela revolucionou a contracepção desde a década de 1960, quando surgiu no mercado, e trouxe um empoderamento muito grande para a mulher no sentido dela poder planejar suas gestações, e continua sendo o método mais usado. O que acontece é que alguns efeitos colaterais da pílula ganharam um destaque muito grande na mídia e isso assustou muitas pacientes. O problema é que muitas mulheres estão abandonando o método, muitas vezes sem a devida orientação de usar outro método contraceptivo, tendo consequências muito mais sérias do que as do próprio uso da pílula.

Lívia Carneiro – Os benefícios são relativos a uma contracepção realmente eficaz, segura e por um tempo prolongado. Mas existem os efeitos colaterais, visto que há mulheres que têm incompatibilidade e dificuldades. O que eu acho importante é a oferta de modalidades contraceptivas. As mulheres hoje estão mais exigentes e, nos últimos 20 anos, a prescrição da pílula entrou muito cedo na vida das mulheres. Algumas meninas com 12, 13 anos de idade começaram a tomar porque estavam manifestando as primeiras acnes, que são comuns nesse momento da vida e que podem ser autoresolutivas. E essa menina-moça já começa a fazer uso da pílula sem interrupção. Aí você vai encontrá-la aos 20 anos, no início de sua vida sexual, e ela vai te dizer que já toma pílula há cinco, seis anos. Eu acho que existem distúrbios na prescrição e acompanhamento para orientar a interrupção até aguardar o início da vida sexual. Isso ainda não está definido e as mulheres de 30 anos, quando constatam que já fazem uso da pílula há 15 anos, se assustam e começam a pensar na sua futura fertilidade.

Nathania Rodrigues – A pílula é o método mais utilizado desde a década de 1960. Com a aprovação pelo FDA (agência federal dos EUA que regulamenta e fiscaliza alimentos e remédios) da primeira pílula anticoncepcional, o seu uso aumentou nas décadas de 1980 e 1990. O aprimoramento da indústria farmacêutica melhorou os efeitos colaterais, com a diminuição da quantidade hormonal, sem diminuir a eficácia do método. Como farmacêutica, posso dizer que realmente todo método tem efeito colateral e que isso também depende do organismo de cada paciente. A questão da mídia vem mesmo assustando um pouco as mulheres, não só em relação à pílula, como também em relação a outros métodos e sobre qual o melhor para se escolher. A melhor forma de se decidir a respeito disso é procurando um profissional ginecologista para ter todas as orientações, fazer os exames e tirar todas as dúvidas.

 

Lívia Carneiro

Lívia Carneiro

Costumo dizer que o método contraceptivo mais adequado é aquele que a mulher escolhe, que ela tem afinidade

 

No Facebook, o grupo “Adeus Hormônios: Contracepção Não-Hormonal”, reúne mais de 100 mil mulheres de todo o Brasil que trocam experiências sobre métodos contraceptivos, sexo e seus corpos. Além disso, convocam parceiros a participar da contracepção. Como enxergam essa mudança de comportamento gerada pelas redes sociais?

Lívia Carneiro – Eu percebo que a mulher está querendo um pouco mais. A mulher quer mais das pesquisas, mais objetividade para definir realmente o período ovulatório e fazer com que ela possa usar métodos menos invasivos. Então vemos que essa nova geração chega com uma postura em relação à alimentação totalmente diferente, muita gente não quer comer carne, muitas pessoas preocupadas com o meio ambiente, com a questão da água... Dessa forma, essas mulheres vão sabendo que a pílula acaba sendo também uma poluição. E, assim, essa menina chega ao consultório dizendo que não quer usar pílula porque quer cuidar do meio ambiente e também do seu corpo. É a mesma questão do coletor menstrual. As mulheres estão deixando os absorventes e buscando um método que não vá poluir. Essa preocupação é muito nova e no consultório o médico tem que estar realmente preparado para esse diálogo, porque essa jovem está chegando com uma bagagem de conhecimento grande, que faz com que ela queira conhecer outros métodos que não sejam hormonais.

Nathania Rodrigues – A mulher quer ter um maior empoderamento e entender mais a respeito de si e do que está acontecendo com o seu corpo. É muito interessante acompanhar esses grupos e ver tantas mulheres tendo essa preocupação com elas. Antigamente as mulheres, talvez até por uma questão cultural, não tinham tanta informação sobre métodos contraceptivos. Hoje vemos que isso está mudando. Muitas vezes a mulher vê uma amiga buscando saber mais e acaba seguindo esse exemplo.

Marta Finotti – Essa preocupação já chegou aos consultórios com força total porque a mídia tem uma penetração muito grande, e esses grupos falando sobre tromboembolismo deixam as pacientes muito inseguras de usar o método contraceptivo. E é função do ginecologista orientar. Apesar de o uso da pílula ser um risco para o desenvolvimento dessa doença, já que o uso do contraceptivo aumenta de três a seis vezes o risco do tromboembolismo venoso, mesmo assim, o risco absoluto é muito baixo. Existem condições de avaliarmos no consultório as pacientes que têm maior risco, que têm algum fator predisponente, que são tabagistas ou que são obesas, mas precisamos lembrar que a gravidez e, principalmente, o puerpério, oferecem riscos muito maiores de ter trombose. Então a paciente tem que ser bem orientada. Ela não precisa do nosso medo, ela precisa do nosso conhecimento.

 

Marta Finotti

Marta Finotti

A paciente tem que ser bem orientada. Ela não precisa do nosso medo, ela precisa do nosso conhecimento

 

A ideia de parar de tomar a pílula não costuma ser bem recebida por amigos, familiares, parceiros e ginecologistas. Por quê?

Marta Finotti – O receio é o de ela não passar para um método contraceptivo eficaz em seguida. Às vezes a mulher para com a pílula e, nesse intervalo para escolher outro método, pode engravidar. E aí é uma gravidez não planejada, com todas as suas consequências. É por causa disso a nossa preocupação. Quando a mulher quer escolher outro método, ela tem que escolher outro método que seja eficaz e fazer uma transição segura para esse método.

Lívia Carneiro – Eu acho que causa ainda certo incômodo a mulher que deseja saber um pouco mais sobre o Dispositivo Intrauterino (DIU) ou o diafragma, que são métodos que, quando bem conduzidos e manejados, podem ter bom resultado. Tenho experiências interessantes indicando diafragma e preservativo masculino, que eu chamo de dupla proteção. Casais jovens, que não querem fazer uso de anticoncepcional, estão optando por manter o preservativo masculino – que tem uma função primordial, que é a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV, e que deveria ser mantido em todas as relações.

 

Nathania Rodrigues

Nathania Rodrigues

A mulher quer ter um maior empoderamento e entender mais a respeito de si e do que está acontecendo com o seu corpo

 

A tendência é que as mulheres passem a se informar cada vez mais sobre outros métodos, como DIU e diafragma. Quando esses métodos são indicados?

Lívia Carneiro – Quando oriento o diafragma, oriento essa dupla proteção e acho que, quando o casal jovem assume isso, tem realmente um compromisso, garantindo a eficácia. O diafragma, que hoje no Brasil é considerado um método anacrônico, pouco difundido, no meu consultório tem sido bastante procurado. Costumo dizer que o método contraceptivo mais adequado é aquele que a mulher escolhe, que ela tem afinidade. Algumas mulheres gostam de perceber seus ciclos, gostam de perceber o momento da ovulação, gostam de ser regidas pela própria fisiologia. Então essa mulher vai preferir realmente um método que não seja hormonal. Outras não valorizam esse aspecto. Mas para aquela mulher que quer manter sua fisiologia, acredito que o DIU e o diafragma são dois métodos interessantes, lembrando sempre da importância do preservativo masculino quando falamos em contracepção. Já a escolha entre o DIU e o diafragma cai um pouco na perspectiva do que a mulher quer, até porque existe a opção do DIU de cobre e o DIU medicado, que tem hormônios. O de cobre é bem eficaz, já está no mercado há muito tempo e pesquisas mostram que a eficácia é a longo prazo – até dez anos – e semelhante à laqueadura. Além disso, o DIU é acessível e ofertado na rede pública. E o diafragma é mais difícil. Já tivemos muito na rede pública, mas por ele não ser frequentemente incorporado aos serviços de planejamento familiar, está cada vez mais difícil encontrar. Eu acho que, no caso do diafragma, falta mídia, divulgação. Mas penso que isso está começando a mudar com a popularização do coletor menstrual, porque a mulher está conhecendo mais seu corpo. Se ela pode colocar um plástico na vagina para colher o fluxo menstrual, por que não pode fazer um tampão para vedar o colo do útero e não tornar permitida a passagem do espermatozoide? Essa é a forma de atuação do diafragma. Quando a mulher aprende a inserir um coletor menstrual, facilmente ela vai inserir o diafragma. Acho que isso vai mudar a aceitação do diafragma.

Nathania Rodrigues – Muitas vezes o profissional farmacêutico é procurado nas drogarias para sanar dúvidas e fazer esse encaminhamento da mulher para uma orientação a respeito de outros métodos. Eu, particularmente, gosto bastante de métodos como o DIU e o diafragma, acho que são métodos bem favoráveis, especialmente para as mulheres que sofrem com o efeito da pílula e até para sanar alguns problemas que diminuem a efetividade da mesma, como o esquecimento na correria do dia a dia e a importância de a mulher tomar a pílula no mesmo horário todos os dias, além da interação com outros medicamentos, como corticoides e antibióticos, que muitas mulheres não fazem ideia. Então, acredito ser muito importante oferecer outras alternativas para essas mulheres. No entanto, o que acontece é que em muitos locais elas não conseguem esse tipo de orientação e pode ocorrer a gravidez indesejada justamente por isso.

Marta Finotti – As mulheres têm que ter as opções, o ginecologista tem que apresentar todas e ela é quem tem que decidir qual é a opção que mais se adequa a ela. Eu sou extremamente favorável aos métodos de longa duração porque eles não dependem de uma ação diária da paciente, como tomar a pílula todo dia no mesmo horário ou usar o diafragma a cada relação. Um método como o DIU medicado com progesterona, que dura cinco anos e é extremamente eficaz, seguro e com poucos riscos, inclusive para o lado do tromboembolismo, conta com benefícios extracontraceptivos. A resistência de certos profissionais em inserir o DIU em mulheres mais jovens que ainda não tiveram filhos é baseada em tabus relativos ao DIU antigo, quando se acreditava que o dispositivo aumentava a infecção e o risco de infertilidade. Mas isso já caiu por terra e podemos usar o DIU inclusive em adolescentes, desde que não existam contraindicações, que são poucas. O fato de não ter tido filhos não é uma contraindicação ao uso de nenhum tipo de DIU, a mulher pode usar com segurança. O importante é que sejam ofertadas à mulher todos os métodos e ela possa decidir o que é mais adequado para o casal.

 

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Fonte : Ascom UFG

Categorias : Mesa-redonda Edição 85 contracepção hormônio pílula anticoncepcional

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