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Neurodiversidade: um conceito que integra

Proposta do Núcleo de Acessibilidade atende pessoas com funcionamento neurocognitivo diverso, como os autistas e com Síndrome de Asperger, auxiliando-os na vida acadêmica

Beatriz Oliveira 

O Capítulo IV da Lei Federal nº 13.146/2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, determina, no artigo 27, que “a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”.

Para garantir que esses direitos sejam assegurados, a Universidade Federal de Goiás criou, em 2008, o Núcleo de Acessibilidade, que tem como objetivo propor e viabilizar uma educação superior inclusiva aos estudantes com deficiência por meio da eliminação ou minimização de barreiras atitudinais, arquitetônicas, pedagógicas, informacionais e comunicacionais. Atualmente o Sistema Integrado de Núcleos de Acessibilidade da UFG (Sinace) atende 219 alunos com deficiências diversas nos cursos de graduação.

“As ações do Núcleo de Acessibilidade têm foco no respeito às diferenças, buscando a formação e a sensibilização da comunidade acadêmica, melhorando a acessibilidade nos espaços e nos processos educativos desenvolvidos na instituição”, afirma a professora Vanessa Dalla Déa, coordenadora do Núcleo de Acessibilidade. “É importante lembrar que  as pessoas podem ter diagnósticos iguais, mas suas necessidades são na maioria das vezes, diferentes. Assim fazemos estudo de caso com os alunos, buscando a adaptação avaliativa, pedagógica ou tecnológica mais coerente”, continua a professora.

Neurodiversidade

A neurodiversidade é um paradigma que desconstrói a ideia de que pessoas com funcionamento neurocognitivo diverso, como os autistas, por exemplo, sejam caracterizados como doentes ou portadores de transtornos”, explica a psicóloga clínica Tatiana Dunajew, que atua desde 2015 no Programa Saudavelmente da UFG.

O conceito de neurodiversidade é abraçado por indivíduos autistas e pessoas com condições diversas, que consideram que o autismo não é uma doença a ser curada, mas sim parte de sua identidade. “A neurodiversidade seria a expressão da biodiversidade humana, bem como a orientação sexual e a etnia, e não algo patológico que precisaria ser adequado ao modelo comum ou usual de neurocognição”, continua a psicóloga.

Dentro do paradigma da neurodiversidade se encontra também a Síndrome de Asperger, que é uma condição neurológica do espectro do autismo caracterizada por dificuldades significativas na interação social e comunicação não-verbal, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. A Síndrome de Asperger foi descoberta durante a Segunda Guerra Mundial e só veio a se tornar um diagnóstico nos anos 1990.

Alunos com Asperger apresentam altas habilidades cognitivas, como explica a psicóloga: “São alunos autodidatas, com competências cognitivas superiores à média, que buscam a excelência do aprendizado à exaustão, mas que praticamente são invisíveis aos professores, os quais atuam na expectativa do aluno cujo desempenho cognitivo seja usual e acabam por não conseguirem se adequar, pois o modelo acadêmico atual não pressupõe o neurodiverso. Por consequência, essas pessoas apresentam alto desempenho cognitivo, mas muitas vezes baixo desempenho acadêmico”.

O mestrando em Sociologia, Renato Moreira, tem Síndrome de Asperger e declara que já teve problemas, mas que hoje não se vê como diferente e que se sente bem na Universidade. “No começo eu tive um pouco de dificuldade, mas agora eu já tenho mais amizades com o pessoal. Na Universidade eu tive esse espaço”, afirma. O mestrando, de 27 anos, só chegou ao diagnóstico de Asperger tardiamente, há três anos.

A psicóloga explica que o diagnóstico dos Aspies, como as pessoas com a Síndrome também são chamadas, costuma ser tardio por conta da ignorância que cerca o tema. “Estes indivíduos não apresentam atraso na aquisição da linguagem, possuem inteligência na média ou na maior parte das vezes acima da média, entretanto, quando adentram à vida escolar, apresentam resistência a pertencer a grupos, a olhar nos olhos e a interagir como as crianças usualmente o fazem. Por isso, muitas vezes são considerados desinteressados, arrogantes ou rebeldes. A escola, não estando preparada para receber esse aluno, acaba por proporcionar o ambiente propício à exclusão e ao bullying e, por consequência, o intenso sofrimento psíquico”, explica.

Saudavelmente desenvolve projeto de atenção aos alunos com Aspenger
Saudavelmente desenvolve projeto de atenção aos alunos com Aspenger

O Saudavelmente, programa da Coordenação de Serviço Social da Pró-Reitoria de Assuntos na Comunidade Universitária (Procom), desenvolve um projeto de atenção aos alunos com Asperger, do qual a psicóloga Tatiana Dunajew é coordenadora. Desde abril de 2016, cinco alunos com Asperger recebem atendimento individual, acompanhamento psiquiátrico quando necessário, e participam de um grupo semanal com foco na melhoria da qualidade de vida e do desempenho acadêmico. “Este é um trabalho pioneiro que esperamos que inspire outras instituições de ensino a efetivamente incluir os neurodiversos”, declara Tatiana.

O aluno do quarto período do curso de Jornalismo, Tiago Abreu, foi diagnosticado com Asperger em 2015 e participa do grupo de atenção a síndrome desde o seu início. Para ele essa interação é importante porque possibilita que ele e outros alunos com Asperger não passem tão despercebidos no meio acadêmico, muitas vezes excludente. “No grupo, além de conhecermos outras pessoas com Asperger, pudemos nos identificar mais com outras pessoas e isso fez com que não nos sentíssemos extremamente sozinhos ou diferentes no ambiente acadêmico”.

Categorias : inclusão Edição 84

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