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A arte de ser feliz no que se faz

Papel do trabalho na vida das pessoas é cada vez mais tema de reflexão

Camila Godoy

Uma jornalista que resolveu aprender uma nova profissão e está cultivando orgânicos. Um professor que decidiu trocar as escolas pela confecção de acessórios de ginástica. A empresária que trocou o próprio negócio pelo serviço público. A jovem que se formou, entrou no mercado de trabalho e decidiu voltar para a faculdade em uma área totalmente diferente. O funcionário que passa a maior parte de seu tempo no trabalho e se entusiasma com o crescimento da empresa. Apesar de serem histórias aparentemente bastante diferentes, os cinco têm algo em comum: todos estão em busca da realização profissional.

Essa temática tem movimentado uma série de discussões nos últimos tempos. De um lado, uma geração que não se satisfaz em apenas ter um salário no fim do mês e busca significado no que está fazendo. Do outro, milhões de brasileiros que não têm escolha pois precisam sobreviver em um país que enfrenta uma forte crise econômica, com inflação e desemprego crescentes, mesmo que a duras penas, adoecendo e ficando infelizes. Uma dicotomia que coloca no centro da reflexão o papel do trabalho na vida das pessoas.

 


Mudança

A professora da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da UFG, Tatiele Souza, explica que, nas últimas décadas, a sociedade mudou sua forma de produzir e de caracterizar o trabalho. Segundo ela, de 1945 a 1970, um pacto social entre Estado, empresas e trabalhadores permitiu a construção de um ideal de carreira estável e segura. “Existia um conjunto de institucionalidades que favorecia as pessoas a permanecer nos empregos. Os direitos trabalhistas, como a previdência social, traziam segurança aos trabalhadores, que planejavam suas vidas em torno do trabalho”, afirma.

De acordo com a pesquisadora, nesse período era comum que as pessoas trabalhassem praticamente toda sua vida em uma única empresa, até se aposentar. Tatiele de Souza entende que as empresas concentravam toda a produção em um único local, havendo assim uma intensa divisão do trabalho, com alto grau de hierarquia, que permitia ao trabalhador a ascensão social por meio de um plano de carreira, cargos e salários. No entanto, ela destaca que essa forma de produção e de trabalho se configurou de forma mais intensa nos países de capitalismo desenvolvido e, no Brasil, ocorreu de forma precária e instável, porque o índice de informalidade sempre foi muito alto em todos os períodos.

Segundo Tatiele de Souza, a partir da década de 70 esse sistema começou a entrar em crise. Com as taxas de lucros das empresas diminuindo e a insatisfação dos profissionais aumentando, uma nova proposta surgiu, pautada na flexibilização. Para a pesquisadora, esse novo modelo consistia em diminuir custos e produzir conforme a demanda, sendo necessário então a existência de modalidades de contrato de trabalho flexíveis, que geralmente viabilizam a precarização do próprio trabalho. “As empresas passaram a terceirizar a maior parte do processo de produção, aumentando também as oportunidades de contratos temporários e estágios, constituição de cooperativas de trabalho e estabelecimento de vínculos por meio de prestação de serviço via pessoa jurídica”.

Além disso, Tatiele de Souza explica que houve uma mudança no campo discursivo e cultural, que construiu um novo ideal de trabalhador, pautado na liberdade e no individualismo. “Aqui, a competitividade, o risco, o ganho a curto prazo, o desenvolvimento de competências como saber se posicionar, ser pró-ativo, ter inteligência emocional e saber trabalhar em equipe são as características mais valorizadas. O empregado passou a ser o responsável por seu sucesso ou fracasso. É ele quem vai construir sua carreira e sua ascensão econômica”, avalia. Assim, para ela, esse novo ideal retira a responsabilidade das empresas e dificulta a forma de avaliação das competências e de possibilidades de organização coletiva.

 

Consequências

Todas essas novas exigências para o trabalhador estimularam a inquietude e o inconformismo, mas também favoreceram o adoecimento de uma população sobrecarregada com as cobranças sociais. Segundo o professor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (Face) da UFG, Sérgio Barroca, em 2006 o Brasil registrou cerca de 420 mil acidentes de trabalho. Já em 2012, o número saltou para mais de 700 mil.

Para ele, o avanço só tende a ser intensificado com a crise econômica e a consequente diminuição do número de empregos: “Quem é despedido sofre porque não terá dinheiro para pagar as contas, mas quem fica também é afetado porque tem que trabalhar por quem saiu, é mais cobrado e se sente mais pressionado, provavelmente dorme menos, fica mais cansado, adoecendo e se acidentando mais”. Sérgio Barroca defende que o sistema de metas é um dos principais motivos de surto entre os trabalhadores, que chegam em um ponto que não conseguem satisfazer a empresa e não suportam a cobrança. “Existe um limite entre a saúde e a doença, e ninguém sabe o momento exato da transição”, explica.

Para tanto, o professor alerta sobre alguns sinais. De acordo com ele, apesar de ser de difícil identificação, o isolamento e a agressividade sinalizam o adoecimento psíquico do trabalhador. “As organizações não costumam parar para observar e ouvir os funcionários. O próprio gestor é pressionado, seja pelo mercado ou pelo dono da empresa, e passa as cobranças aos outros. No entanto, muitas vezes ele não tem a percepção de que está fazendo isso. Quando há uma abertura na empresa para o diálogo, essas questões podem ser resolvidas e, assim, o adoecimento é evitado. Um dos grandes problemas da saúde do trabalhador é o gestor. Ele precisa ter qualificação”, afirma.

 

Eduardo Monção em sua fábrica de acessórios de ginástica

O professor que virou empresário. Eduardo Monção agora fabrica acessórios de ginástica


Busca pela satisfação

Evitando sofrimentos, muitos tomam coragem e acabam rompendo com os rumos de sua carreira, aventurando-se em novas áreas. Eduardo Monção é um desses. Graduado em Educação Física, apaixonado pela profissão, em 2006 começou a dar aulas em escolas. A experiência despertou o interesse pela área e motivou o profissional a estudar para um concurso de professor da prefeitura de Aparecida de Goiânia. Tempos depois ele foi aprovado.

No entanto, o sentimento de realização, presente nos primeiros meses, logo foi dando espaço para a frustração com a burocracia do serviço público. “Eu tinha propostas para inovar algumas práticas, mas sempre acabava impedido pela força da hierarquia e falta de abertura da Secretaria de Educação. Além disso, comecei a questionar o modelo de nossa educação, em que muitas vezes os estudantes fingem que aprendem. Trabalhei em uma escola por oito anos e, infelizmente, nunca vi nenhum aluno da região estrelar nos jornais páginas de economia ou de ciências. Porém, cansei de vê-los em páginas policiais”, relata.

Triste com a realidade de sua profissão, em 2012 Eduardo percebeu uma nova oportunidade no mercado: “Os acessórios utilizados para aulas em academias de ginástica eram de origem chinesa, com uma qualidade inferior a que os alunos precisavam. Comecei a fazer manutenção nesses equipamentos e logo percebi que eu mesmo poderia produzi-los. Trabalhei nisso algum tempo e decidi pedir exoneração do concurso para me dedicar inteiramente àquela ideia. Foi um choque social. Alguns amigos me chamaram de louco. Mas, não me arrependo e, se necessário, faria tudo novamente. O que vale na vida é estar feliz no seu ambiente de trabalho, o resto acontece naturalmente”, defende.

Em um caminho contrário, a empresária Tayenne Helen Olimpio trocou o ideal do próprio negócio pela vida de concurseira. Ela havia aberto uma loja de roupas quase sem nenhum capital financeiro, mas com muito esforço e inteligência, viu sua clientela, estoque e faturamento crescerem. Já estabilizada e pensando em expandir o negócio, começou a pesquisar sobre concurso público. Um sonho antigo que ela havia abandonado devido ao sucesso da loja. “Me identifiquei com as possibilidades da carreira pública e, principalmente, com a almejada estabilidade que ela proporciona. Comecei a estudar, mas estava difícil conciliar as duas coisas. Foi então que decidi, com o apoio do meu esposo, fechar a loja em um momento estratégico, sem dívidas e com reserva financeira. Apesar disso, não foi fácil”, lembra.

Desde então, ela mergulhou de cabeça nesse mundo. O resultado veio após seis meses: a conquista do primeiro lugar no concurso do Conselho Regional de Odontologia. Mesmo trabalhando, a ex-empresária não abandonou os estudos, pois queria ser servidora federal. Em agosto de 2016 realizou o sonho e foi nomeada assistente administrativa do Instituto Federal de Goiás. Para ela, a segunda conquista trouxe um sentimento inexplicável de gratificação: “Estou muito satisfeita com meu trabalho, com certeza faria tudo de novo. Agora, quero me dedicar a outros projetos, como a maternidade”, afirma.

 

Tayenne Helen Olimpio no trabalho

Satisfeita, a servidora pública Tayenne Helen Olimpio não se arrepende da escolha que fez

 

Segunda graduação

Na hora de escolher a profissão, muitos jovens acabam sendo influenciados pelos pais ou, por imaturidade, acabam fazendo escolhas que, mais tarde, não trazem realização. A farmacêutica Ana Luiza Fornazier é uma dessas. Ela fez vestibular quando tinha 17 anos. Ao escolher Farmácia, acreditava que teria boas oportunidades em um curso com várias áreas de atuação. Fez diferentes estágios e gostou da experiência em drogarias. Quando se formou, não teve dúvidas: queria trabalhar em farmácias para o resto da vida.

O primeiro emprego apareceu seis meses depois. No entanto, com o tempo, por mais que o ambiente de trabalho fosse agradável, Ana Luiza começou a se sentir frustrada com a monotonia da rotina e com as perspectivas da carreira. “Ou eu receberia o piso salarial de farmacêutica para o resto da vida, ou montaria uma drogaria para mim, algo que nunca tive vontade. Me senti desestimulada. Via o tempo passando e eu não progredia. Foi quando parei para pensar e vi que a a área da saúde não é o que gosto. Decidi voltar para a faculdade e fazer Engenharia Civil”, relata. Hoje, cursando o oitavo período do novo curso, a estudante está confiante com a decisão: “Considero essa profissão mais desafiadora e dinâmica, características que se encaixam muito mais no meu perfil. A maturidade em uma segunda graduação é muito maior, já até tenho em mente o que fazer quando me formar”, explica.

 

Ana Luiza Fornazier na biblioteca

De volta à faculdade, Ana Luiza Fornazier acredita que está no curso certo e tem boas perspectivas para o futuro

 

Saindo da caixa

A segunda graduação não foi suficiente para Lis Lemos, que ainda está descobrindo seu lugar no mundo. Ela já cursou Relações Públicas e Jornalismo, fez mestrado, trabalhou em redações de jornais e assessoria de comunicação, estudou para concurso e agora está viajando por fazendas do interior da Bahia e de Minas Gerais para aprender a cultivar orgânicos, trabalhando voluntariamente algumas horas do dia em troca de alojamento e comida, uma rotina totalmente diferente do seu ritmo de vida até então, em que não tinha hora para sair do trabalho. Essa história, que mais parece comercial de banco e narrativas de blogs, aconteceu de verdade com uma mulher que queria mais do que um emprego. Ela precisava de algo em que acreditasse e que a fizesse se sentir útil.

“Me dei conta de que eu não sabia fazer mais nada a não ser jornalismo e, de alguma forma, isso não me completa mais. Quero aprender outra profissão, outro ofício, algo que traga, além da sobrevivência, satisfação profissional. Meu desejo é conseguir me sustentar em outra lógica, a não ser a do consumo. Para tanto, vou viver essa experiência até fevereiro de 2017. Eu brinco que vou descobrir nesses meses o que eu quero fazer de verdade. Pode ser que decida voltar a trabalhar em redação de jornal, ser repórter full time. Não sei ainda. Esse é um tempo para descobrir”, afirma.

 

Lis Lemos na praia, tirando fotos

Lis Lemos deu um tempo na carreira acadêmica e de jornalista para aprender um novo ofício 

 

Quando se tem certeza do que gosta

No outro extremo da questão, sabendo exatamente o que quer, está Leandro Reis, administrador regional de uma empresa especializada em terceirização de frota de veículos.  Para chegar ao atual cargo, ele trabalhou como técnico em segurança do trabalho, se destacou, passou a lidar com rotinas administrativas, acumulou responsabilidades, construiu networking e concluiu sua graduação e pós-graduação. O maior reconhecimento veio quando recebeu um convite de sua atual empresa para assumir uma operação em quatro estados da federação, dirigindo sua própria equipe.

Desde então, Leandro Reis lida diariamente com uma rotina de viagens,  planejamento e controle de diversas áreas, coordenando operações em sete estados brasileiros. “Todos os dias busco me reinventar no trabalho, procurando deixar os processos cada vez mais flexíveis e objetivos, reduzir custos, aumentar a lucratividade, encantar, manter e prospectar novos clientes. Uma rotina que para muitos pode ser pesada, mas que para mim é dinâmica e desafiadora. Gosto de exercer minhas atribuições com eficiência e dedicação, pois tenho certeza que serei reconhecido. Tenho bastante orgulho do que já conquistei”, comemora.

 

Leandro Reis estudando

Para garantir o sucesso profissional, Leandro Reis aposta na qualificação, dedicação e competência


A pluralidade da questão

O professor da FCS, Nildo Viana, explica que os elementos que trazem satisfação no trabalho, além de serem bastante subjetivos, como mostram as histórias dessa reportagem, são alcançados apenas por uma minoria. Segundo ele, a saúde, a qualidade no ambiente de trabalho, o coleguismo, o salário, a complexidade da tarefa realizada e o reconhecimento pelos colegas, chefe e sociedade, são alguns dos principais fatores. No entanto, Nildo Viana destaca que a grande massa dos trabalhadores procura um emprego para sobreviver. “A competição, mercantilização e controle burocrático do mercado tornam ainda mais difícil viver essa satisfação”, lamenta.

O empreendedorismo, apontado por muitos como a melhor alternativa para alcançar a realização profissional, é visto com receio pelo docente da FCS, Revalino Freitas. Segundo ele, a ideia de um mundo mais aberto e moderno, em que “não é necessário trabalhar para mais ninguém”, apesar de bastante sedutor, não é a melhor solução para os problemas do mercado de trabalho. “No capitalismo não existe empreendedorismo para todo mundo. O capitalismo precisa da mão de obra para produzir em proveito de uma minoria. Quando você propõe o empreendedorismo, de certa forma, a proposta é a repartição de receitas, algo que o sistema não permite, pois é da sua essência a acumulação e a concentração, não existindo assim as mesmas possibilidades para todos. Dessa forma, para cada caso de sucesso, centenas são absorvidos”, completa.

 

 

 

Fonte : Ascom/UFG

Categorias : Comportamento Edição 83 realização profissional

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