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Brincadeira no céu

Pesquisa revela que hábito de soltar pipas sofreu alterações ao longo do tempo

Criança brincando na praça de soltar pipa

Com o crescimento da cidade, praças e parques são opções para empinar pipa

 

Luiz Felipe Fernandes

Dias ensolarados e vento forte são a combinação perfeita para uma prática que resiste ao crescimento das cidades: empinar pipa. Passada de geração em geração, a brincadeira é bem mais que divertimento para crianças, adolescentes e até adultos. Ela também contribui para contar a história da capital, como ficou demonstrado na pesquisa História e Memória da Pipa em Goiânia, da Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás (FEFD/UFG). O estudo integrou o projeto de extensão Educação e Culutra na História das Práticas Corporais em Goiânia (1935-2005): o corpo entre a cidade e o sertão.

A investigação baseou-se em relatos de moradores, pesquisas em livros de memórias e no noticiário urbano, comparando dois períodos da história de Goiânia: a década de 1940 e a de 1990. Um dos aspectos observados foi a mudança do nome usado para designar o brinquedo: raia, papagaio e pipa. Uma hipótese é a influência da cultura escolar e da mídia para a popularização do termo “pipa”, embora a denominação “raia” ainda seja comum entre as crianças de Goiânia. Outro aspecto observado foi a mudança no material utilizado para confeccionar a pipa. No início era usado o grude, uma cola artesanal feita com farinha branca e água. Depois passou-se a usar uma cola de madeira comum na construção civil, progressivamente substituída pela cola plástica de origem industrial.

A professora da FEFD/UFG, Rubia-Mar Nunes Pinto, explica que a mudança no material colante guarda estreita relação com a história da cidade. “Nas primeiras décadas, a quase ausência de produtos industrializados impelia a produção artesanal da cola; posteriormente, o uso de um material colante típico da engenharia e da arquitetura mostra-se coerente com a expansão privilegiada da indústria da construção civil em uma cidade planejada. E, por fim, a substituição deste material pela cola plástica industrializada revela o processo de industrialização e circulação de mercadorias vivenciados no estado de Goiás e em sua cidade-capital”.

A pesquisa também abordou as relações entre a pipa e o ordenamento espacial de Goiânia ao longo da história. Uma delas se refere ao modelo da pipa. A pesquisa traz o relato de um morador dos anos 1990, que diz que Goiânia poderia ser dividida em duas grandes regiões a partir do predomínio de dois modelos: flechinha (formato de losango) e arraia (formato de hexágono). “Neste aspecto, a história da pipa em Goiânia diz respeito à história da ocupação urbana e das relações entre bairros e setores”, explica Rubia-Mar. Nas décadas iniciais da capital, havia grandes espaços vazios entre os bairros, criando grupos “rivais” com características próprias.

 

 

Cerol

Outra abordagem é o uso do cerol. Os vazios urbanos possibilitavam que a mistura de cola e vidro na linha fosse usada sem riscos e perigos para a circulação de pessoas e veículos. As distâncias entre bairros e setores permitiam que as “guerrinhas” de cerol fossem travadas entre crianças de regiões urbanas distintas. No céu das fronteiras entre bairros, separados por distâncias seguras, as crianças de um lado “toravam” as pipas das crianças de outro. O processo de urbanização fez do cerol um problema devido aos acidentes causados principalmente a ciclistas e motociclistas, embora os efeitos prejudiciais do uso deste tipo de linha revelem que há cada vez menos espaços públicos de lazer para a população goianiense, sobretudo para as crianças.

Há quatro anos fabricando e vendendo pipas, o comerciante e pipeiro Cleuber Fernandes explica que é preciso diferenciar o uso da linha com cerol em vias públicas com o que é feito em locais seguros e apropriados, sem risco de acidentes. Trata-se da modalidade esportiva da pipa. “A prática esportiva se diferencia da prática indevida de bairro, que é perigosa. A nossa prática é em local seguro”. Segundo Cleuber, Manaus e algumas cidades do interior de São Paulo, por exemplo, já possuem locais adequados, longe do trânsito, em que é possível usar a linha cortante com segurança.

É essa conscientização que o comerciante busca levar nas oficinas e palestras educativas das quais participa. Para ele, a brincadeira de empinar pipa é saudável e precisa ser mantida. “Percebo que muitas brincadeiras vêm sendo deixadas de lado porque a criança gosta mais de videogame e computador, mas a pipa continua. As crianças gostam de pipa”, comemora Cleuber. Ele ressalta ainda que, a exemplo de sua própria experiência, muitas pessoas trabalham e vivem do comércio de pipa.

 

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Categorias : pesquisa última hora Edição 82

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