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CAMINHOS

Código de honra nas universidades: cultura da ética ou ética da cultura?

Em uma série de artigos para essa coluna, os membros do Comitê de Integridade da UFG (CIA/UFG) abordarão, nessa e nas próximas edições do Jornal UFG, alguns desses assuntos com o objetivo de fomentar o debate sobre integridade acadêmica na comunidade da UFG 

Wagner Gouvêa dos Santos, Unidade Acadêmica de Ciências da Saúde da Regional Jataí

 

Pode até parecer, mas não se trata de título de filme de cinema, o código de honra ou de conduta como referido por alguns, é uma prática usual em várias universidades americanas e de outros países. A primeira vez que me deparei com esse termo foi quando tive a oportunidade, como professor, de lecionar em uma universidade americana onde em todas as provas que aplicava aos estudantes de graduação era necessário incluir um pequeno texto na forma de uma declaração onde os estudantes assinavam se comprometendo a não cometer nenhum ato de cola incluindo passarem informações para os colegas durante a realização do exame.

A princípio, a prática institucional de se colocar um texto relembrando o “código de honra” em provas seja um “costume” estranho para a maioria de nós brasileiros e cause até certa surpresa. Talvez o motivo dessa surpresa seja o fato de não fazer parte da nossa cultura universitária e acadêmica, pelo menos até pouco tempo, refletir muito sobre as questões éticas e as possíveis implicações de uma “simples” cola em provas, na formação humana, cidadã e profissional do estudante. Ao contrário, estamos acostumados a visualizar a cola como uma situação comum, corriqueira e inconsequente, sendo muitas vezes tema de anedotas no meio acadêmico, a começar pela frase muito utilizada “quem não cola não sai da escola“, que parece conferir um caráter aceitável e ordinário para esta atitude. Esta constatação é corroborada pelo fato de se ouvir muitas vezes os comentários “orgulhosos” de quem conseguiu praticar este ato sem ser notado pelo professor. Sem falar nas técnicas mais inimagináveis que ouvimos por aí. Mais preocupante é a disseminação de técnicas para prática de cola pela internet onde dicas e formas de cola são ensinadas, inclusive sugerindo formação de quadrilhas em uma classe de alunos  supostamente “unida”. Vocês acreditam nisso? Até que ponto de sofisticação chegou tal atitude! Eu confesso que até escrever este artigo não tinha conhecimento da existência deste tipo de veiculação.

Na verdade o código de honra acadêmico não se limita apenas a situação de cola mas, agrupa um conjunto de princípios éticos que se espera da comunidade acadêmica baseado em ideais que definem o que constitui um comportamento que merece respeito ou de honra dentro da comunidade acadêmica. Geralmente o objetivo dos códigos de honra é impedir a desonestidade acadêmica.

O fato é que cola constitui-se em fraude ou, no mínimo, falta de ética, de respeito, além de uma desonestidade para consigo mesmo e com seus pares.  A visão de que a cola é algo corriqueiro e faz parte da cultura da vida acadêmica deve ser combatida e entendida como um meio ilícito que pode ser a base de corrupções em escala maior por parte de quem as comete. A honra está relacionada ao respeito que queremos e a que temos direito em uma sociedade e de acordo com o filósofo Kwame Appiah, professor da Universidade de Princeton e autor do livro “O código de Honra: como ocorrem as revoluções morais”, honra evolui junto com a sociedade e suas práticas. Ela é distinta de tendência moral, embora possa haver interseções onde um código de honra pode eventualmente apoiar um bem moral. Como exemplo, o autor cita o caso do artista Pablo Picasso que não era um grande herói moral mas, uma grande maioria de pessoas o honra como um artista.

Atualmente, fala-se muito em corrupção como se ela estivesse apenas no âmbito político e esquecemos que a cola pode ser considerada um tipo de corrupção e um caminho para prática de ilícitos mais preocupantes. Por isso, algo que a princípio parece banal como a cola e faça parte da “cultura” de uma sociedade, pode ser na verdade, a raiz de males maiores como a corrupção.  A situação sócioeconômica e política que atravessamos é uma grande oportunidade que temos para refletir sobre o que podemos ainda fazer para ter esperança em um futuro melhor, com menos corrupção, mais justiça e honestidade. Para atingir essa meta, agir agora é necessário e promover a (re)educação e exercício do respeito em todos os níveis, enfatizando sempre valores e atitudes éticas, parece ser um bom recomeço.

 

 

Categorias : Caminhos da Pesquisa Edição 82

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