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Mãe e acadêmica

Mãe e acadêmica

Estudantes relatam como conciliar filhos, trabalho e graduação

 

 

Kharen Stecca

Fotos: Ana Fortunato e Carlos Siqueira

Quando uma mulher torna-se mãe, toda a sua rotina também muda. Mesmo as que planejaram a maternidade vivem uma reviravolta em suas vidas. E quando a gravidez vem sem planejar? Ou a oportunidade de fazer uma graduação só aparece depois da maternidade? Como é conciliar vida de mãe com a vida acadêmica quando em nossa sociedade a responsabilidade sobre os filhos costuma recair sobre as mães? Essa é a realidade de diversas mulheres na UFG, que passam por inúmeras dificuldades, encontram apoio onde é possível e seguem em busca do sonho de concluir uma graduação.

 

Uma graduação, dois filhos e uma colação de grau

Persistência é o primeiro desafio que mães universitárias precisam enfrentar. “Pensei várias vezes em desistir, mas tive apoio da minha mãe, dos professores e dos meus colegas de turma. Além disso, sonhos exigem sacrifícios”, relata Kennia Gurgel, que acaba de se formar em Relações Públicas na UFG. Ela tem dois filhos que nasceram enquanto cursava a graduação: João Vitor, 4 anos, e Filipe Augusto, 2 anos e meio. Hoje, divorciada do pai de seus filhos, Kennia conta que não tem apoio dele, que vê os filhos a cada 15 dias.

Kennia conseguiu vaga para o filho mais velho aos cinco meses no Departamento de Educação Infantil do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada a Educação (DEI-Cepae), a antiga creche da UFG. Vaga essa bastante desejada por diversas pessoas da comunidade, já que a única forma de acesso ao DEI-Cepae é via sorteio, realizado uma vez ao ano. Já para o mais novo só consegui uma vaga em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) aos dois anos. Nesse meio tempo, Kennia conciliou as duas gestações com a graduação, o divórcio, o estágio e a monitoria, dividindo os cuidados dos filhos com sua mãe. “Eu só conseguia estudar depois que as crianças dormiam. Conciliar faculdade com maternidade é um tanto quanto complicado, e exige sacrifícios, como trocar o sono pelos livros”.

Por conta da maternidade, Kennia acredita ter perdido algumas oportunidades, como por exemplo, participar de mais congressos, eventos e também de ter conseguido estágio ou emprego na área. “O caminho vai ser um pouco mais longo do que os dos meus colegas de turma”, afirma. Mas, contrariando as dificuldades, Kennia ingressou na Pós-graduação em Assessoria de Comunicação e Marketing da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG e hoje procura por um emprego como Relações Públicas.

 

"Pensei várias vezes em desistir, mas tive apoio de minha mãe, dos professores e dos meus colegas de turma. Além disso, sonhos exigem sacrifícios"

 

Kennia Gurgel  com seus dois filhos

Trocar o sono pelos livros foi um dos sacrifícios de Kennia Gurgel 

 

Do intercâmbio para a vida de mãe universitária

Lohany Arnos, aluna do curso de Jornalismo, é mãe de Mayra, 1 ano. A gravidez, não planejada, ocorreu quando acabava de voltar de um intercâmbio e estava cheia de planos. Durante sua gestação, novo baque: a separação de seus pais. Trancou sua matrícula na universidade e só voltou no quinto mês de gravidez. Ao contrário de muitas mães, Lohany afirma ter apoio do pai da criança, agora seu marido. “Ele sempre esteve ao meu lado, me ajuda no que pode, mas trabalha o dia todo e só pode ficar com nossa filha à noite”, conta. Hoje a filha vai ao CMEI, porém, entre os 3 e 8 meses de idade, esteve com a mãe na universidade várias vezes, quando não havia com quem deixá-la. “Assistir as aulas com ela agora é bem complicado, pois não para mais quieta. Os professores são bem compreensivos, desde que engravidei tive ajuda de vários deles. Ganhei um carrinho de bebê para ela não ficar no colo o tempo todo. Tanto os alunos como os professores sempre me ajudaram”, afirma.

Sobre conciliar maternidade e universidade, Lohany reconhece a dificuldade, mas afirma não ser impossível. “Dá um trabalho danado. Tentei dar o melhor nas duas tarefas, mas uma sensação de não ter conseguido sempre me acompanha. Agradeço por ter tido professores compreensivos e uma mãe que me ajudou muito nessa jornada. Sempre tive muita ajuda. A UFG é um exemplo, em vista de outras instituições por aí. Algumas nem permitem levar as crianças”, ressalta. Para Lohany, o ideal seria facilitar o acesso à creche da Universidade, e, também, adaptar banheiros ou criar espaços para mães e bebês descansarem nos intervalos de aulas.

 

Lohayne Arnos amamenta seu bebê

“Conciliar papéis é difícil, mas não impossível”, afirma Lohayne Arnos

 

Trabalhar, estudar, maternar

Giovanna Silveira Santos é aluna do curso de Museologia e tem uma filha, Yasmin, de quatro anos. Ela engravidou no 3º ano do Ensino Médio, com 16 anos. Tentou terminar os estudos, mas não conseguiu conciliar maternidade, estudos e o trabalho, que precisava para manter-se. “Trabalhei até a semana que ela nasceu e, assim que terminou meu resguardo, voltei a estudar. Quando terminou a licença maternidade voltei a trabalhar. Jornada de 44 horas por semana no trabalho, acordava cedo, tirava leite e deixava ela com minha avó, saia às 18h do serviço, passava em casa correndo, tomava um banho, amamentava e ia para a escola até as 22h. Quando eu chegava ela já estava dormindo”, lembra Giovanna.

A estudante conta que foi um ano difícil, pois pouco convivia com a filha. “Quando as aulas eram de uma professora que não se importava, a levava a escola para poder ficar um pouco mais perto dela, mas isso também diminuía minha concentração nas aulas”. Do pai da criança não tem apoio. Hoje, casada, Giovanna afirma ter o apoio do atual marido, que a filha tem como pai, mas ele também estuda à noite, da mesma maneira que ela. Ela sabe que não é fácil conciliar papéis: “Trabalhar e estudar ao mesmo tempo já é difícil, sendo mãe então... não fazemos nada 100%. Essa sobrecarga resulta em poucas horas de sono, alimentação inadequada, ansiedade, pouco tempo para dar atenção e cuidado para uma criança que está em fase de desenvolvimento. Criança sente falta da mãe, cobra presença, tempo e dedicação. Conheço muitas mulheres mães que estudam e trabalham e têm essa mesma reclamação, falta de tempo para realizar todas as demandas, o que resulta em notas baixas, reprovações, desistências e jubilações”.

 

Giovanna Silveira Santos acompanha sua filha na leitura

“Não fazemos nada  100%”, afirma Giovanna sobre a sobrecarga de papéis

 

Universidade e o apoio possível

Segundo a coordenadora em substituição do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude do Ministério Público do Estado de Goiás (CAO/MP-GO), Simone Disconsi, não há norma legal que proíba ou permita expressamente a presença de crianças em sala de aula. O ordenamento jurídico prevê a licença de três meses, a partir do oitavo mês de gestação, para que a estudante possa realizar suas atividades em casa e se submeter às avaliações finais (Lei n.º 6.202/75). Por outro lado, segundo a coordenadora, existe o direito da mãe e da criança à amamentação, bem como à proteção integral à primeira infância (Lei n.º 13.257/16 – Marco Legal da Primeira Infância), que precisam ser interpretados de forma ampla.

Também é preciso, segundo Simone, considerar que, muitas vezes, a presença da criança em determinado ambiente e horário é prejudicial para ela. “Evidente que os estudos são importantes e o esforço comum deve ser feito no sentido de que a mãe não abandone a faculdade. Mas, em qualquer caso, é preciso verificar outras possibilidades que possam ser mais vantajosas para a criança. O ideal é que as universidades pudessem contar com espaços adequados para amamentação e descanso, bem como permitissem a presença de acompanhantes para ajudar a mãe estudante, em especial as mães que ainda amamentam”, afirma a coordenadora.

Segundo a professora da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, Angelita Lima, que trabalha a temática do feminismo e que também já recebeu mães estudantes em sala de aula, há várias questões envolvidas que precisam ser contempladas na discussão. “A mãe que leva um filho para a sala de aula o faz por não ter outra alternativa viável e a universidade não tem o que oferecer a ela como apoio. Quando essa mãe entra na universidade, ela não deixa simplesmente a vida dela lá fora, ela a traz consigo”.

Angelita afirma que a creche ou espaços específicos para estudantes são importantes e constituem a principal bandeira de luta para as mães estudantes. No entanto, a professora acredita que há alternativas enquanto a creche não se torna realidade: “A universidade poderia repensar o Regime Geral dos Cursos de Graduação (RGCG) de forma a contemplar mais situações em que a mãe estudante tivesse flexibilidade no atendimento por parte dos professores. Hoje ele contempla atendimento especial apenas no período do parto e primeiros meses, mas quem é mãe sabe que um filho demanda mesmo após os dois anos de idade”. A professora explica que, ainda que, via de regra, a criança não deva estar em uma sala de aula, até porque não é o ambiente adequado para o seu desenvolvimento, em determinados momentos os professores fazem uma série de rearranjos por conta própria para apoiar essas mães, e não há como condenar nem a aluna, nem o professor. No entanto, mesmo que a mãe alegue que assistir aula com a criança não atrapalha seu aprendizado, isso não vale para todas elas: “a mãe acaba tendo interferências em algumas situações”.

 

Juliana e Taís Krahô com a prima Simone, que ajuda no cuidado das crianças

Juliana e Taís Krahô com a prima Simone, que ajuda no cuidado das crianças

 

Indígenas: um exemplo do apoio familiar

Há um ditado que diz que é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança. Não por acaso os indígenas são um bom exemplo de como o apoio de pessoas próximas pode auxiliar as mães no sucesso dos estudos. Os estudantes indígenas do curso de Educação Intercultural vêm até Goiânia  durante alguns meses no início e no meio do ano para as aulas. Nesse período trazem suas crianças, mas também pessoas que os auxiliam nos cuidados, em especial daquelas crianças menores, que ainda amamentam. Esse é o caso  de Juliana Krahô, mãe de Emilly, 2 anos; e, também, de Taís Krahô, mãe de Lucas, 4 anos. As duas estão cursando desde 2014 o curso de Educação Intercultural. Juliana começou o curso ainda grávida de Emilly. Elas contam com a ajuda da prima Simone Krahô, que veio para Goiânia  para auxiliar no cuidado com as crianças. “Ficamos mais tranquilas, mais concentradas e conseguimos captar melhor o que os professores nos passam, estando perto das crianças”, explica Taís. Ainda assim, elas percebem que não é realmente o melhor lugar para eles: “Seria bom se houvesse um lugar próprio para eles, com brinquedos e atividades”, ressalta Juliana.

O coordenador do curso, Carlos Bianchi, explica que a orientação da coordenação é que as crianças maiores fiquem na aldeia ou que os pais se organizem para buscar alternativas. “As crianças menores, em especial as que dependem de amamentação, em geral ficam com cuidadores que são familiares que vêm com os estudantes das aldeias”, explica. “Precisamos nos adaptar e ser compreensivos com a forma de cuidado deles com as crianças e a maior parte dos professores já entende isso. As crianças indígenas também são bastante independentes, o que facilita o cuidado”, afirma o professor.

Silivan Apinajé e Percília Dias também são alunos do curso de Educação Intercultural. Trouxeram o pequeno Ângelo de 1 ano e 8 meses com eles para Goiânia e a sobrinha Ana Carolina para auxiliar nos cuidados. No entanto, deixaram na aldeia as outras duas filhas de 4 e 9 anos. “O coração fica apertado de estar longe”, explica Percília. Ângelo ainda é amamentado e, por isso, os pais escolheram trazê-lo para a Universidade. O pai afirma que com o apoio da sobrinha fica mais fácil concentrar-se nas aulas, mas acredita que é necessário pensar em alternativas para que as crianças tenham  um local mais apropriado.

 

Silivan e Persília com o filho mais novo e a sobrinha Ana Carolina

Silivan e Persília com o filho mais novo e a sobrinha Ana Carolina

 

Por que a UFG não oferece mais reservas de vagas para estudantes e servidores da UFG na creche?

Uma questão que inquieta os estudantes e também servidores e foi, inclusive, pauta do movimento de ocupação da Reitoria realizado por estudantes em junho, é o por que de a creche (hoje Departamento de Educação Infantil do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada a Educação – Dei/Cepae) não oferecer vagas para mães estudantes e mães servidoras. Segundo a coordenadora pedagógica do Dei/Cepae, Ana Rogéria de Aguiar, a mudança ocorreu em um processo histórico de construção da educação infantil nas universidades e no país e culminou com a Resolução nº 1 de 2011, do Conselho Nacional de Educação de 2011. Uma das exigências dessa resolução é o acesso universal a essas unidades. Para atender essa demanda, o DEI oferece vagas via edital de sorteio, realizado uma vez por ano, no início de cada ano letivo do Cepae/UFG.

 

 

Categorias : Universidade Edição 82

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