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A UFG de olho no Cerrado

Universidade participa do monitoramento oficial do bioma e as notícias não são boas: avanço do desmatamento e das queimadas ameaçam a biodiversidade do ecossistema  

UFG de olho no Cerrado

 

Camila Godoy

Fotos: Alexandre Camargo Coutinho, Carlos Terrana e divulgação

 

Quase todas as notícias sobre o Cerrado são catastróficas. E não é para menos, afinal, segundo o Ministério do Meio Ambiente, mais da metade da cobertura vegetal desse bioma já se perdeu e o que resta está fragmentado. A situação preocupante fez com que os pesquisadores da ONG Conservation International classificassem o Cerrado como um dos 34 hotspot do planeta, ou seja, um ambiente em um ritmo elevado de degeneração que pode não ter condições de se restabelecer. No entanto, ainda que os olhos do mundo estivessem sobre essa área, até 2013 o Brasil não monitorava oficialmente esse ecossistema.

A história só mudou quando o Governo Federal lançou o  projeto TerraClass Cerrado, com a participação da UFG, entre outras instituições. O trabalho envolveu pesquisadores e profissionais para diagnosticar a cobertura e a ocupação do bioma por meio da análise de imagens geradas pelo satélite Landsat8, equipamento da Nasa que envia imagens detalhadas da Terra. Hoje, o dado mais confiável e atual do Cerrado é fruto desse trabalho.

A professora do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (Iesa) da UFG, Elaine Barbosa da Silva, coordenou regionalmente o projeto. Segundo ela, o monitoramento é fundamental para a criação de políticas públicas de preservação. “O Cerrado tem mais de dois milhões de quilômetros quadrados e quando falamos, por exemplo, que o desmatamento nessa área é, em média, 5% ao ano, precisamos saber onde está concentrando essas taxas, porque não é o bioma todo. Então, quais são os principais municípios onde o governo precisa concentrar seus esforços?”, questionou.

 

Fronteiras agrícolas

Elaine Barbosa da Silva estuda a ocupação do Cerrado e suas fronteiras agrícolas há bastante tempo. Para ela, as modificações nesse cenário ocorrem em consonância com os interesses econômicos e políticos do país. “Até a década de 70,  a região sul do bioma, principalmente o sul goiano, era a parte mais ocupada e onde havia maior incidência de agricultura e pecuária, muito disso por estar mais próximo ao Sudeste brasileiro. Com o projeto do governo militar de explorar o potencial de todas as regiões do Brasil, o Cerrado, por ter certa infraestrutura, além de uma topografia plana e de fácil mecanização, passou a ser destinado à produção agropecuária”, explicou.

De acordo com a pesquisadora, o centro goiano foi a segunda área a ser explorada. Agora, segundo ela, a expansão caminha para o norte do bioma, abrangendo as bordas da Amazônia e uma região denominada Matopiba, formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “Os incentivos e a implantação da agropecuária no Cerrado deram muito certo, ao ponto de que em quatro décadas tivemos aproximadamente 50% de conversão dessas áreas para a implantação dessas atividades”, disse.

No entanto, os dados que podem parecer bons para a economia, não têm sido vistos com bons olhos pela ciência. Segundo Elaine Barbosa da Silva, para criar grandes pastos e plantações, os produtores desmatam a vegetação nativa, sendo esse o pontapé inicial para outros grandes problemas, como uma menor captação de gás carbônico da atmosfera e as consequentes mudanças no regime climático, um menor abastecimento dos lençóis freáticos, assoreamento dos rios e perda da biodiversidade de fauna e flora, entre outras questões.

Ainda assim, para ela, esse ciclo catastrófico pode ser interrompido. “Nossa melhor opção é otimizar a pecuária, que utiliza cerca de 70% do solo ocupado. Assim, se tivermos um pasto melhor, onde o gado precise se espalhar menos para se alimentar e onde o pecuarista possa colocar mais cabeças em menos áreas, poderemos investir na recuperação da terra e inserir agricultura nas pastagens sem precisar expandir para as áreas de vegetação. É possível sim, que agricultura cresça sem que derrubemos nenhuma árvore”, destacou.   

 

Mapa mostra  estados que compõem a região do Matopiba

Mapa mostra estados que compõem a região do Matopiba

 

Você sabe o que é Matopiba?

Com nome estranho, que une as iniciais de quatro estados brasileiros: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, Matopiba é uma região brasileira que tem ganhado destaque mundial pelo seu potencial de produção de grãos e já é considerada por alguns como a última fronteira agrícola da Terra. Os 337 municípios dos quatro estados que a compõem têm clima favorável à atividade, além de áreas chapadas, solo desenvolvido e abundância de águas.

A região ficou ainda mais propícia para a agricultura quando, em 2015, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou o  Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba. O projeto deu legalidade para a abertura de novas áreas de cultivo e tem atraído diversos investidores. No entanto, para além dos ganhos econômicos, a proposta representa também uma ameça à sobrevivência de 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas, 745 assentamentos e 36 comunidades quilombolas localizadas na área.

 

Árvores queimando no Cerrado

Cerrado é o bioma mais afetado por queimadas

 

Quando a natureza vira fumaça

Monitoramento realizado pelo pesquisador Fernando Moreira de Araújo, do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (Iesa) da UFG, revelou que o Cerrado é o bioma brasileiro mais afetado por queimadas. Além da tendência natural para a propagação do fogo, um fator tem preocupado o pesquisador: o avanço da agricultura na região conhecida por Matopiba. Com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da  Nasa, o pesquisador detectou que o avanço agrícola e seu consequente desmatamento e aumento das queimadas ameaçam a biodiversidade da região.

O estudo comprovou que nos últimos quinze anos a área queimada na região soma mais de 67 milhões de hectares, representando, aproximadamente, 52% do total de área incendiada em todo o Cerrado. “Há uma cultura de recorrer às queimadas para ‘limpeza’ de pastos, afinal esse recurso é o mais barato. No entanto, elas trazem fortes consequências ao solo, vegetação, atmosfera e a toda  biodiversidade”, afirmou o pesquisador.    

Categorias : pesquisa Edição 82

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