Weby shortcut
Youtubeplay
soft icon

Somos livres?

Uso de software livres na Universidade traz liberdade ao usuário e muitos outros benefícios, mas implementação ainda é desafio

software livres

Imagem: Freepick

 

Camila Godoy

Em tempos de internet, é muito comum associar informática à liberdade. Afinal, a rede mundial, acessada por dispositivos digitais, possibilita que o usuário se conecte a uma gama de informações, compartilhe dados, disponibilize conteúdos e escolha quando e como acessar tudo isso. Um verdadeiro avanço ao compararmos com outros meios em que, praticamente, a única opção existente é a de utilização ou não desse veículo. Contudo, essa “liberdade” que parece ser a maior conquista da sociedade nos últimos tempos é bastante questionável ao se pensar no que está por trás das tecnologias, ou quem está, visto que na maioria das vezes utiliza-se programas e ferramentas desenvolvidos por grandes empresas. Assim, ainda que seja possível acessar, os dados já têm donos.

Segundo o professor do Instituto de Informática da UFG (INF), Marcelo Akira, até a década de 1970, nos primórdios da computação moderna, as ferramentas existentes eram predominantemente software livres. Ou seja, programas de computador que tinham seu código-fonte aberto aos usuários. Assim, por meio de uma linguagem computacional, era possível acessar todas as instruções necessárias para compreender e modificar o programa. No entanto, o professor explicou que, com o advento do computador pessoal, o cenário mudou e várias empresas resolveram comercializar programas sem disponibilizar o código-fonte, surgindo assim o software privativo.

“Praticamente, todos os usuários eram programadores e compartilhavam entre si seu conhecimento por meio da distribuição do código-fonte, sem restrições. Assim, quatro liberdades essenciais eram garantidas aos usuários, que podiam executar o software para qualquer propósito, estudar e adaptar o programa, redistribuir cópias do sistema e redistribuir novas versões da ferramenta”, explica o professor. Além disso, para ele, o software livre garante outros direitos, como segurança, portabilidade de dados, controle do sistema e compartilhamento de conhecimentos.

Marcelo Akira afirma que, com a liberdade de editar o código-fonte, o usuário pode verificar se o programa executa ações maliciosas como propagandas indevidas, espionagem ou roubo de dados, pode estudar o formato dos dados produzidos e assim facilitar sua portabilidade e pode também programar a comunicação com outros softwares. “O software privativo oferece uma falsa sensação de propriedade. Quem o compra, na verdade, licencia um software para uso restritivo. Quem compra software livre estimula o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, segura e com mais livre concorrência”, defende.

 

Uso na UFG

Com pensamento parecido, o professor do Instituto de Física da UFG, Salviano de Araújo Leão, incentivou o uso de programas com código-fonte aberto em todos os computadores do Instituto. “Transformei o nosso laboratório para que todos os computadores só rodassem software livre. No início foi um problema, todo mundo reclamou, depois perceberam que nosso laboratório estava cheio de alunos. Eles vinham até mesmo de outras unidades para usar nossas máquinas, porque todas elas funcionavam, não tinham vírus”, relata. Segundo o professor, a resistência quanto ao uso de software livre muitas vezes surge devido ao desconhecimento: “As pessoas estão acostumadas com determinados ícones sempre nos mesmos lugares, mas não podemos nos prender a um botão que faz aquilo que eu posso fazer de outra forma, às vezes até melhor ou mais fácil. Os sistemas operacionais livres nos oferecem maior liberdade, permitindo que façamos a mesma tarefa de diversas maneiras”.

Salviano de Araújo explica ainda que, em tempos de crise, a adaptação a esses programas renderia uma grande economia para a universidade. “Com as pesquisas, é muito comum fazer tratamento de dados e, para isso, é necessário utilizar diversos recursos, que nos software proprietários custam valores absurdos. Além disso, posso automatizar tarefas pela linha de comando do sistema, economizando tempo e evitando erros. Tudo isso ocupando menos espaço na máquina e customizando a ferramenta de acordo com as minhas necessidades”.

O técnico da Tecnologia da Informação do Centro de Recursos Computacionais da UFG (Cercomp), Marcello Moura, afirma que a Universidade busca esclarecer a comunidade universitária e incentivar o uso de software livres. “Pela facilidade, na maioria dos casos as pessoas acham melhor utilizar software privativos e se esquecem que a compra de licenças de empresas estrangeiras escoam o capital para fora do país não gerando emprego e renda”. Na tentativa de mudar essa hábito, a UFG criou, em 2015, uma Comissão de Implantação de Software Livres, com diversos profissionais. Além disso, o Cercomp, em parceria com a Pró-reitoria de Assuntos Institucionais e Recursos Humanos da UFG criou a campanha “Seja Livre”, que divulga o conceito e a importância do uso de sistemas operacionais livres. Informações podem ser obtidas no endereço eletrônico.

Participante dessa Comissão,  Salviano de Araújo faz um alerta para problemas que vêm antes do uso de software em si: a falta de padrões para documentos. Segundo ele, a era digital exige ainda mais que se pense em gestão da informação, de forma que qualquer usuário consiga entender a organização e localizar os arquivos que necessita. “Essa prática criará uma memória institucional, evitando a perca de arquivos com o tempo”, afirma.

 

Tainacan

Taincan: uma inciativa que tem dado certo

“Imagine um belo dia em que uma das principais redes sociais da atualidade, como o Facebook, apague todos os registros que você fez em sua linha do tempo. Ele vai apagar parte da sua história”. A fala é do professor da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, Dalton Martins, ao analisar a importância de preservar objetos digitais a longo prazo por meio de repositórios confiáveis. Dalton Martins faz parte de um projeto da Universidade em parceria com Ministério da Cultura que tem feito sucesso entre aqueles que estão preocupados com essa questão. Fruto de um trabalho de uma equipe multidisciplinar, a UFG criou o software livre Tainacan, uma plataforma de gestão de arquivos digitais diferente das existentes até então, proporcionando interatividade e maior participação social. Segundo o professor, em linhas gerais, o sistema criou uma interface que simplifica trabalhos de classificação de objetos e de organização de coleções, que antes seriam feitos por profissionais da informação, museólogos, arquivistas, bibliotecários, entre outros.

O professor da FIC, Marcel Ferrante Silva, que também participou do projeto, explica que o Taincan é um espaço para compartilhar e disponibilizar objetos digitais, em diferentes arquivos, que possibilita ao usuário trazer dados das redes sociais e classificar a relevância daquilo que é colocado. Segundo ele, já é possível utilizar o Tainacan, mas ele ainda é um projeto de pesquisa que precisa de apoio para expandir. “Estamos tentando evoluir com cuidado, devagar, para que ganhemos escala na medida em houver condições para isso ”, detalha. O professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG, Ravi Passos, lembra que as vias para possibilitar o uso podem ser: hospedagem no site do Ministério da Cultura, utilização do código-fonte do programa e utilização por meio de outras instituições que usem essa ferramenta e deem o suporte necessário. Essa terceira opção, segundo ele, tem dado muito certo.

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)  fez uma cooperação técnica com a equipe do Taincan para aperfeiçoar o sistema e implantá-lo nos museus brasileiros. O Instituto, que é um órgão ligado ao Ministério da Cultura e que formula políticas públicas para área, vai testar o software em alguns museus e, caso o resultado seja positivo, recomendará seu uso.  Além disso, ele fará o inventário de todos os museus com um sistema integrado, usando o Tainacan. “Temos apostado nossas fichas nisso. Estamos apoiando a inciativa de criação do Museu da Ciência da UFG. O Tainacan será o sistema  utilizado pela própria iniciativa para que possamos conhecer o acervo da universidade”, destaca Dalton Martins.

 

Categorias : Tecnologia Edição 82

Listar Todas Voltar