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Desafios da interação homem-máquina

Especialista no estudo da interação humana com diferentes interfaces, Aaron Quigley esteve na UFG durante SIIMI

Aaron Quigley

 

Aaron Quigley é especialista no estudo da interação humana com diferentes interfaces e professor da Escola de Ciências da Computação da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Ele também é co-fundador e diretor do grupo de pesquisa St. Andrews Computer Human Interaction (Sachi), que atua na investigação da interação homem-computador. O professor esteve na UFG para o Simpósio Internacional de Inovação em Mídias Interativas (SIIMI), realizado pelo Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mídias Interativas (Media Lab), quando conversou com o Jornal UFG.

Angélica Queiroz

 

Quais são os principais desafios da interação humana com diferentes interfaces?

Nosso principal desafio é superar o fosso digital-físico, aproveitando toda a gama de sentidos humanos. Hoje a computação permanece presa a dispositivos para fins especiais, ao invés de ser vista como uma parte natural no nosso mundo físico e material. É essa proliferação de dispositivos com diferentes formas de interação que dá origem a muitos dos desafios que vemos hoje. Cada dispositivo ou aplicativo nos oferece muito, mas quando tentamos combiná-los de um jeito reservado e pessoal, eles começam a falhar, como se tropeçássemos entre os diferentes paradigmas de interação, como se falhássemos em conectá-los facilmente ou como se fôssemos derrotados por regras de acesso a dados. A mudança mais importante é que cada usuário das tecnologias digitais comece a demandar mais, o que forçará novas pesquisas e desenvolvimentos em âmbito global. A manutenção do status quo irá limitar futuras capacidades humanas.

 

 

"Não é mais aceitável que nos mantenham presos em ilhas de interação"

 

Segundo suas pesquisas, vivemos em ilhas de interação que separam as pessoas e os sistemas uns dos outros. O que pode ser feito para minimizar esse problema e aproximar essas ilhas?

As ilhas de interação vêm de diferentes paradigmas computacionais, setores industriais e provedores de tecnologia. Hoje, muitas vezes faltam condutores socioeconômicos claros para uma melhor integração dessas ilhas. Há também uma explosão combinatória de possíveis tecnologias, aplicações, serviços e experiências. Nosso atual modelo de dispositivo físico, sistema operacional e aplicativo está quebrado.  Os dispositivos não estão cientes de outros dispositivos relevantes que estão sendo usados por perto. Dispositivos com diferentes sistemas operacionais não podem facilmente compartilhar dados, mesmo quando esses dados sejam nossos ou se refiram a nós. Os interesses comerciais podem, muitas vezes, manter esses sistemas separados, mesmo quando desejamos ter uma visão integrada e holística do que é importante. Podemos superar essas barreiras demandando mais de nossos provedores de tecnologia, nossos engenheiros de software, nossos projetistas de sistemas e até mesmo de nossos governos quando tratamos da legislação para dados abertos e a ausência de fronteiras para a integração homem-máquina. Não é mais aceitável que nos mantenham presos em ilhas de interação.

 

A tecnologia afasta ou aproxima as pessoas? Estimula ou prejudica as relações sociais?

Com a tecnologia há inúmeros desafios sociais, incluindo a manutenção da privacidade, a aceitação, a participação, a exclusão e o engajamento social. Hoje, o discurso cívico é impactado pelo isolamento que a tecnologia propicia às pessoas. Por exemplo, o “filtro bolha” decorre da personalização nos resultados da pesquisa apresentados para cada pessoa. Essas bolhas podem isolar socialmente uma pessoa de outra, dentro de seus próprios grupos econômicos, políticos, culturais e, consequentemente, ideológicos. Com os novos dispositivos podemos incentivar ainda mais as pessoas a “interagirem em bolhas”, o que pode isolá-las mais e desencorajar a interação interpessoal. Será que essas tecnologias exacerbam a estratificação social digital que já estamos testemunhando? Se os computadores se tornam entrelaçados em nossas vidas, talvez nossos dispositivos e telas fiquem menos no foco. Devemos esperar novos mecanismos e normas sociais de envolvimento interpessoal como forma de reduzir o nível de prioridade dos pixels em nossas vidas.

 

Em geral, estamos utilizando a interação com a tecnologia para nos limitar ou estamos dando o nosso melhor?

O uso da tecnologia define a sociedade humana. Em qualquer lugar que você olhe, da produção de alimentos à medicina ou da arquitetura à agricultura, verá que tecnologia é parte da nossa existência. É nossa capacidade de usar apropriadamente e gerenciar novas tecnologias que mostra a real força delas em nossas vidas. Por isso, é um processo constante de adoção, adaptação e mudança, onde nossos comportamentos e expectativas mudam. Não devemos olhar a tecnologia como limitadora de nossa interação social, mas sim estender seu alcance e ampliar seu impacto. Casar isso com nossos estreitos laços sociais é um desafio para cada um de nós e para a sociedade como um todo.

 

"É nossa capacidade de usar apropriadamente e gerenciar novas tecnologias que mostra a real força delas em nossas vidas"

 

Todos os dias surgem produtos com inovações e tecnologias mais avançadas. O que pode ser feito para democratizar o acesso, já que a maioria desses produtos são caros e, por isso, inacessíveis à grande parte da população?

As tecnologias digitais costumam ser de grande interesse da imprensa popular. As mudanças pessoais, íntimas e imediatas que estas tecnologias trazem, fornecem imagens tentadoras de um futuro que são inatingíveis hoje. Muitas tecnologias caras estão simplesmente testando o mercado e, caso se tornem populares e mesmo necessárias, a força do mercado deve torná-las mais acessíveis. No Brasil, tenho visto muitas tecnologias digitais a preços exorbitantes. O que as pessoas precisam fazer é forçar o governo a mudar sua visão sobre os impostos para garantir a liberação natural dessas tecnologias para todos, não apenas para os ricos.

 

 

Categorias : entrevista Edição 81

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