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Pecuária sustentável: é possível aplicar novas práticas de produção?

Mesa-redonda discute o que o mercado tem feito para se adaptar a essas demandas

Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

 

Quando iniciou-se a discussão sobre a crise hídrica no país, uma das primeiras atividades a serem apontadas foi a pecuária. A crescente preocupação com o meio ambiente, o aquecimento global e até o crescimento do número de adeptos ao vegetarianismo fez com que a produção pecuarista começasse a ser questionada. Da quantidade de água gasta com a produção, até o bem-estar animal, tudo tem sido alvo de discussão. No entanto, seguimos com a produção animal como importante atividade para o país e o Brasil como grande mercado consumidor e exportador destes produtos.

Diante dessa perspectiva, o que o mercado tem feito para se adaptar a essas demandas? É possível pensar em uma produção com critérios mais rigorosos para a sustentabilidade? Para debater o assunto, a mesa-redonda desta edição convidou o professor da Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG (EVZ), Juliano José de Resende Fernandes; o coordenador técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) Goiás, Marcelo Penha; e o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados no Estado de Goiás (Sindicarnes), José Magno Pato.

 

Hoje, quando se fala em produção de carne e leite, imediatamente há uma associação da produção com o custo ambiental dessa atividade. Problemas como degradação do solo e alto consumo de água para produção são alguns dos problemas levantados. É possível a produção bovina sustentável? Ela já é feita no nosso estado? É caro produzir de maneira sustentável?

Juliano Fernandes – Na verdade, existe uma preocupação muito grande por parte da sociedade rural em preservar e procurar produzir de maneira sustentável. Lembrando sempre que sustentabilidade não é só a parte ambiental, existe também a sustentabilidade social e a sustentabilidade econômica. Sendo assim, não adianta frisar apenas o lado ambiental, se não há viabilidade econômica para produção, se o sistema torna inviável. A comunidade científica vem buscando isso cada vez mais. Com relação ao questionamento que se tem sobre a produção animal prejudicar o meio ambiente, estamos procurando achar formas de ter produtos mais sustentáveis. Eficiência de produção é ser sustentável, porque é produzir mais com menos recursos naturais.

Marcelo Penha – Temos experimentado um crescimento em relação ao conhecimento, pois os produtores e os trabalhadores do campo têm se preocupado bastante. Paralelamente, a sociedade que vive no meio urbano e algumas pessoas que não estão por dentro da proposta de produção do campo, criticam. Essa crítica às vezes é um pouco injusta. Temos que conhecer os lados para ver qual poderá atender a todos, lembrando que a pecuária em Goiás emprega muito e devemos ter em vista o cuidado e o zelo para que isso não pese para um lado ou para outro, fazendo com que consigamos buscar equilíbrio para todos.

José Pato – A sustentabilidade na pecuária vem sendo discutida há muitos anos e nós temos conseguido alguns avanços. Recebemos muitas críticas, alguns pesquisadores dizem que para se produzir um quilo de carne bovina, são gastos mais de 100 mil litros de água. Achamos que isso é realmente um exagero. Nós temos que procurar orientar e apoiar pesquisas no sentido de reduzir o consumo de água como, por exemplo, reduzindo a idade de abate e, também, promover determinados ajustes na criação. Temos ainda uma pecuária muito extensiva, que tem gastos muito grandes. Precisamos concentrar mais para que a sustentabilidade seja alcançada.

 

Recentemente, um programa de culinária em que o apresentador abateu um animal em frentes as câmeras gerou muita polêmica. Atualmente o abate leva em consideração o bem-estar animal?

Juliano Fernandes – Sim, hoje existe um trabalho, até dentro da EVZ, com disciplinas voltadas ao bem-estar animal. A qualidade do produto final, que é a carne, está totalmente relacionada com a forma de abate. Polemizaram uma coisa que não se conhece. As pessoas criam polêmicas sem conhecer o sistema de produção brasileiro, pegam pontos e acham que aquilo é geral. As pessoas criticam, mas o animal tem que ser abatido para ser consumido. Eu gosto sempre de frisar que o nosso maior problema é a fome. Somos da cadeia produtiva e estamos gerando pesquisa e ciência, mas estamos preocupados em matar a fome das pessoas. Às vezes as pessoas criticam, mas não se conscientizam que algumas pessoas precisam desse abate para comer. A mídia bate muito em cima disso porque é muito simples para uma pessoa ir ao supermercado, pegar na gôndola e exigir uma carne boa, sem pensar o sistema produtivo. As pessoas querem a facilidade e a vida moderna traz isso: você pode ir ao supermercado, pegar a parte boa do negócio e criticar o produtor que está lá no campo trabalhando de sol a sol para produzir essa carne de qualidade.

 

Juliano Fernandes

Juliano Fernandes

As pessoas querem a facilidade e a vida moderna traz isso: você pode ir ao supermercado, pegar a parte boa do negócio e criticar o produtor que está lá no campo trabalhando de sol a sol para produzir essa carne de qualidade.

 

Marcelo Penha – O próprio Ministério de Agricultura e Pecuária e Abastecimento e a Agrodefesa se preocupam muito com essa questão. Estamos evoluindo com relação ao abate humanitário e temos que nos preocupar com isso mesmo, para fazer com que consumamos essa proteína, mas com zelo para com os animais.

José Pato – Uma das preocupações da indústria da carne em geral é que haja um abate humanitário, porque o animal não pode sofrer stress. Isso, inclusive, faz parte das avaliações da carne, animal que é abatido com stress, a carne não tem boa qualidade, fica dura, com as fibras rígidas e perde parte do sabor. O abate humanitário é bastante observado. O animal não pode ser julgado, sujigado, ser espetado como era antigamente. Inclusive outros animais, por exemplo, o suíno, são anestesiados para serem abatidos. Com o bovino isso ainda não acontece, mas tem um sistema de abate que não o leva ao stress, preservando o sabor da carne.


O que é o projeto “Boi na Sombra” e como ele pode contribuir para a sustentabilidade da atividade e bem-estar animal? Ele tem sido aplicado em Goiás?

Marcelo Penha – O projeto, que conhecemos pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), visa aproveitar as florestas nativas de cada região do Brasil e desmatar o mínimo possível de árvores no pasto. A ideia dele nada mais é do que favorecer a questão da sombra para o bem-estar do animal e do número de matéria orgânica no solo, fazendo com esse solo seja mais aproveitável pela gramínia, produzindo o pasto. Tem pessoas que veem isso de forma difícil, porque você tem que fazer as manutenções do pasto e isso atrapalharia um pouco, mas outras pessoas veem essa ideia com bons olhos, porque contribuiria para o bem-estar animal e ambiental, diminuindo o efeito estufa e fazendo com que o carbono fique no solo, aumentando a sua fertilidade. Em Goiás, ele tem sido aplicado mais na forma da integração lavoura-pecuária e floresta, porque, neste caso, utiliza o eucalipto como forma de produção de madeira e as culturas de soja e milho para fazer a instalação da pastagem, melhorando, desta forma, a produção de pasto e diminuindo o impacto dos gases do efeito estufa na atmosfera.

 

José Pato

José Pato

A necessidade de alimento da população mundial é muito grande e o Brasil é um país que tem possibilidades de contribuir muito nos próximos 20 anos. Precisamos explorar direito. Não podemos nos render a determinadas filosofias que não trazem bem-estar para o homem.

 

José Pato – Essa prática de integração lavourapecuária e floresta já vem sendo implementada há alguns anos no Brasil, inclusive, com alguns projetos interessantes em Goiás, porque essa forma melhora a rentabilidade da propriedade e faz também uma exploração sustentável, reduzindo o efeito estufa. Existe muita crítica em relação ao bovino dizendo que ele é o responsável pela grande emissão de carbono na atmosfera, há uma corrente de pesquisa que acha que o boi é o culpado por tudo e que temos que acabar com a sua criação. Mas não é bem assim. Precisamos procurar, dentro de um processo de sustentabilidade, ter um desfrute econômico porque ninguém vai criar nada e gastar dinheiro por boniteza. Isso não existe mais. Antigamente até existiam alguns “filósofos” que soltavam o gado em criação extensiva e reunia uma vez por ano um grupo de bois para matar e para vender. Isso não existe mais. A necessidade de alimento da população mundial é muito grande e o Brasil é um país que tem possibilidades de contribuir muito nos próximos 20 anos. Precisamos explorar direito. Não podemos nos render a determinadas filosofias que não trazem bem-estar para o homem.

Juliano Fernandes – Lembrando que o nosso animal predominante, o Nelore, tem adaptabilidade muito grande ao Cerrado, então trabalhamos com um animal já bem adaptado. E essa questão do desmatamento, precisamos quantificar melhor. A integração lavoura-pecuária e floresta precisa de mais estudos para mostrar a sua eficiência em números, porque não existe modelo na produção animal e agrícola. Cada caso é um caso. Tem muita gente fazendo isso bem feito, mas existem pessoas que tentam copiar esse modelo e não estão fazendo de maneira correta. Se pararmos para pensar, precisamos calcular se é melhor integrar ou se especializar em determinadas áreas do sistema de produção. Então, existe uma tendência muito grande de pesquisar e botar número em cima disso. Essa história de que o “pum” da vaca é o grande vilão, a própria comunidade científica já mostrou que não é bem assim. Existe uma controvérsia muito grande porque as pessoas não querem que intensifiquemos a pecuária. Só que toda vez que você intensifica um sistema de produção, a planta cresce mais e há mais sequestro de carbono na atmosfera. E essa planta pode ser utilizada pelo próprio boi. O sistema de produção de bovino utiliza o que o bovino produz em questão de gases, especialmente o CO2. Acho que a comunidade científica foi muito eficiente em achar formas de diminuir o efeito estufa e mostrar que o bovino não é o grande vilão da história. É muito fácil usarmos sozinhos, na cidade, um carro feito com motor e espaço para cinco pessoas, ar-condicionado e falar que o boi é o grande culpado de tudo.

Como o consumidor tem acesso a uma carne produzida de forma mais sustentável? Existe um selo? O consumidor vai ter que desembolsar mais para ter acesso a uma carne de melhor qualidade, que respeite o meio ambiente?

José Pato – O Brasil está caminhando lentamente nesse processo. Nós temos exemplos, como a Austrália, onde hoje é produzida carne certificada e qualquer lugar do mundo que compre essa carne tem todas as informações sobre o processo de produção através de um sistema de certificação. O Brasil ainda está na fase de commodities. Vendemos carne por tonelada e vai tudo quanto é carne. Já tivemos a oportunidade de levantar alguns processos de discussão para ver se conseguimos colocar Goiás num programa desses de qualidade, porque nosso Estado é hoje responsável por mais de 10% da exportação de carne no Brasil. Nós precisamos qualificar essa carne para poder ter um valor agregado melhor e também dar uma garantia, muito exigida pelo consumidor. A Europa, por exemplo, exige algumas normas, que nós que ainda somos meio novatos no sistema de qualificação do produto achamos exagero. Mas é um povo que passou por necessidades grandes, guerras, doenças, falta de alimentos e, por isso, começaram a exigir bastante. O mercado diz que é preciso produzir para quem compra e nós não podemos dizer que a nossa carne é boa, se o consumidor mundial diz que não é. Eu já estive, por exemplo, em restaurantes famosos na Europa conversando com os responsáveis e questionando porque eles não compram a carne do Brasil e compram da Austrália, da Argentina e, recentemente, o Uruguai tem sido a grande estrela em produção de carne. A resposta unânime é a de que o Brasil não tem um padrão de carne e os pratos produzidos nesses restaurantes tem um padrão. Isso porque nós produzimos commodities, então nossa carne não vai com certificado de garantia. Esse é o grande problema e nós precisamos avançar.

Marcelo Penha – Algumas associações já têm conseguido fazer isso. O pessoal do Pantanal e do Angus, por exemplo, já certifica sua carne, e outros estão buscando melhorar a imagem da questão do bem-estar e da pecuária sustentável. Isso está sendo feito, mas é preciso aumentar para poder atender as exigências dos consumidores em relação a nossa carne bovina.

 

Marcelo Penha

Marcelo Penha

Estamos evoluindo com relação ao abate humanitário e temos que nos preocupar com isso mesmo, para fazer com que consumamos essa proteína, mas com zelo para com os animais.

 

O que é possível fazer para diminuir a água gasta na criação bovina?

Juliano Fernandes – Na verdade, temos que lembrar que a água não desaparece. O que está diminuindo é a água potável e o boi não é o culpado disso, não é o sistema produtivo. O grande culpado disso é a cidade, onde se produz muito lixo, falta educação e falta conscientização. No nosso sistema de produção é muito difícil você pegar um boi de 600kg e dizer que ele deve consumir menos água. O leite, por exemplo, é 87% de água. Então, não tem como diminuirmos o sistema fisiológico do animal. Podemos diminuir desperdícios de água, tratar bem as nascentes e o sistema de captação de água. Isso faz parte das preocupações atuais do produtor e ele é muito mais preocupado com a água do que a pessoa que está na cidade. A pessoa que está na cidade culpa o órgão concessor da água. O produtor não. Se ele prejudica a água da propriedade dele, ele é o responsável, ele paga por aquilo, legalmente ele é o responsável por aquela água. Hoje o sistema produtivo está preservando a água, porque isso é vital para ele próprio.

Marcelo Penha – A questão da água vai muito além disso. Precisamos fazer um estudo atendendo a todas as frentes de observação: cidade e campo. Isso precisa ser bem mais delineado, melhor construído. Precisamos fazer com que as obrigações de cada um na cadeia produtiva estejam bem definidas.

Categorias : Mesa-redonda Edição 79 #Mesa-redonda

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