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ENTREVISTA: Compartilhamento de saberes retoma essência da comunicação

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ENTREVISTA: Compartilhamento de saberes retoma essência da comunicação

Texto: Silvânia Lima | Foto: Camila Caetano

Entrevista  Graça Monteiro

Alfabetizar é a essência da comunicação pública, sem imposição sobre um conhecimento ou uma visão de mundo, mas de reconhecimento do outro como uma fonte de saber e de compartilhamento de conhecimentos.

 

Desde as incipientes práticas da comunicação pública nas praças da antiga Grécia, sua função é a mesma: dar voz aos diversos segmentos sociais na discussão de temas de interesse público. Desvirtuada ao longo da história, a comunicação pública parece ter condições nos tempos atuais, com o apoio da tecnologia, não só de reaver sua verdadeira função, mas de promover o empoderamento. Maria da Graça Miranda de França Monteiro, professora da Universidade de Brasília (UnB), convidada a participar do Seminário de Comunicação Pública e Cidadania, realizado na UFG no final de 2015, falou sobre a nova perspectiva da comunicação pública, onde ela é praticada no Brasil, bem como o papel dos profissionais e dos órgãos públicos nesse contexto.


Como você define hoje a comunicação pública?

A comunicação pública é aquela que se dá no espaço público e, além da mídia e das redes sociais, nas ruas, praças, sobre assuntos de interesse público e que visam o empoderamento. Mas não é o empoderamento, por exemplo, do professor que dá a disciplina para o aluno, porque ele, como professor, sabe mais do que o aluno. É claro que ele tem uma trajetória diferenciada, mas o aluno traz experiências, expectativas, vivências cotidianas próprias e o professor tem de estar atento a isso. É aí que está o empoderamento: em uma visão de troca, que resgata a essência do termo comunicação, que é o compartilhamento de experiências, de saberes, de conhecimentos.


Onde mais está a comunicação pública?

Há três dimensões em que se vê, atualmente, a prática da comunicação pública. No âmbito governamental, a encontramos nos portais de transparência e nas emissoras públicas de TV e de rádio, ou nas agências de notícias. A segunda dimensão são os movimentos sociais, que têm usado a comunicação pública para se mobilizarem, para conversarem entre eles e com a sociedade, pressionando-a em prol de seus direitos. A terceira vertente, menos conhecida, é a comunicação pública da ciência, que, além da divulgação institucional sobre o que fazem os institutos de pesquisa e as instituições de educação superior, objetiva alfabetizar cientificamente o público leigo. Alfabetizar é a essência da comunicação pública, sem imposição sobre um conhecimento ou uma visão de mundo, mas de reconhecimento do outro como uma fonte de saber e de compartilhamento de conhecimentos.


Qual o papel da imprensa nesta perspectiva?

A comunicação jornalística precisa apresentar as diferentes vozes e visões da sociedade. É esse o fundamento da comunicação pública quando falamos no viés jornalístico. No entanto, há uma tendência no jornalismo, e isso é comprovado cientificamente, de as vozes oficiais terem a primazia ao falar quanto à descrição da realidade. Cerca de 70% das notícias que chegam hoje nas redações proveem de assessorias de comunicação. Os estudiosos dizem que há uma predominância da fonte oficial, o primeiro a falar, quem a emissora geralmente procura. A partir dessa visão da fonte oficial é que são construídas as falas das demais vozes, não necessariamente são daqueles que ocupam posições dominantes na sociedade. A importância da comunicação pública por meio do jornalismo é justamente dar primazia a esses outros atores que hoje estão excluídos, mas têm o que falar, têm reivindicações, têm visão de mundo.


A senhora concorda que o exercício da comunicação pública ultrapassa o conceito de meio e chega a ser fim, no sentido de contribuir para a democratização do país?

Concordo plenamente. Eu trabalhei muitos anos no Ministério das Comunicações e acompanhei bem de perto essa legislação, essa noção de comunicação pública como complemento da comunicação privada, dos grandes detentores dos meios de comunicação, das emissoras de rádio e televisão. Sem dúvida alguma, mais do que um meio, a comunicação pública é um fim, para mostrar o que não é mostrado normalmente. Ao trazer a público realidades diferentes do que estamos acostumados a ver, ou o que nos é divulgado pelas grandes emissoras, a comunicação pública está permitindo ao cidadão comum fazer escolhas, decidir seu próprio destino. E, ao fazer essas escolhas, temos a comunicação pública como um fim, e não como um meio.


Então, ela deveria estar embutida nas políticas públicas?

Sim, e mais do que isso. Existe uma política de comunicação do país? No Brasil, que eu saiba, não existe. Existe legislação de telecomunicação, que permite, por exemplo, as rádios piratas estarem legalizadas como rádios comunitárias. A inclusão da comunicação pública no conteúdo das políticas públicas contribui para tornar visíveis e oficializadas as iniciativas que não são oficiais. Isso é essencial para institucionalizar a comunicação pública.

 

Ao trazer a público realidades diferentes do que estamos acostumados a ver, ou o que nos é divulgado pelas grandes emissoras, a comunicação pública está permitindo ao cidadão comum fazer escolhas, decidir seu próprio destino.

 

Os órgãos públicos, tanto em nível municipal, estadual ou federal, não deveriam manter uma rede de comunicação entre si?

Sem dúvida, deveria haver encontros periódicos entre os comunicadores do sistema de governo para, não só manter atualizados os gestores de comunicação pública, como difundir as melhores práticas; informativos que circulem entre todos os profissionais de comunicação que trabalham em órgãos públicos, para saber o que cada órgão faz. Em alguns órgãos, há profissionais que se sentem totalmente isolados. Penso que deveria existir uma rede de comunicadores públicos, em nível governamental, que fizesse essas trocas de experiência.


Qual o papel da universidade na formação de profissionais que vão exercer a comunicação pública?

Sobre a formação dos profissionais, a tarefa é árdua porque a nova geração de estudantes que chega às universidades, particularmente na área de comunicação, é muito impaciente e não está habituada a ler. É uma geração imediatista, que muda de ideia muito rapidamente, se mobiliza e se desmobiliza com muita facilidade. Critica muito, mas é pouco receptiva à crítica. É uma geração que tem muita informação, mas não reflexão ou um posicionamento crítico a respeito das informações. As universidades passam por esse desafio de criar essa reflexão crítica sobre a realidade e a proposta de soluções para futuros profissionais.


Como você define o perfil do profissional que quer trabalhar na área?

Em geral o comunicador tem que saber escrever, saber falar em público e dominar as técnicas atualmente existentes no mercado. Para a comunicação pública, além disso, ele tem que, principalmente, gostar de gente, saber ouvir, respeitar o outro e ter a capacidade de sentar em uma mesa e negociar, até conseguir chegar a um consenso com o outro – seu interlocutor, que pensa diferente ou tem uma posição hierárquica diferente. É articulação e o foco é o coletivo. Nesse ambiente de comunicação pública, é preciso saber que o diferente faz parte da realidade, discutir com quem pensa de forma diferente, ouvir a argumentação do outro, explicitar o seu argumento e, juntos, chegarem a uma negociação com foco na sociedade.

 

Para ler o arquivo completo em PDF clique aqui

 

Fonte : Ascom UFG

Categorias : entrevista comunicação pública

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