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MESA-REDONDA: Comercialização dos produtos da agricultura familiar

Marca Jornal UFG 72

 

 

Comercialização dos produtos da agricultura familiar

Texto: Ascom, Rádio Universitária e TV UFG | Fotos: Guarany Neto

 

O último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2006, revelou que os agricultores familiares respondem por mais de 84% dos estabelecimentos agrícolas do Brasil. Eles ocupam 24% da área cultivada e empregam 74% da mão de obra do setor agropecuário. Mesmo com pequena disponibilidade de área cultivável, a agricultura familiar é responsável pela produção de 87% da mandioca, 70% do feijão e 58% do leite, sendo responsável por 32% do PIB do agronegócio brasileiro.

 

Apesar dos bons resultados, ainda é preciso incentivar a produção familiar e, principalmente, a comercialização de seus produtos. Para discutir o tema, a mesa-redonda dessa edição, realizada pelo Jornal UFG em parceria com o Programa Conexões da TV UFG e com a Rádio Universitária, convidou a professora da Escola de Agronomia da UFG, Graciella Corcioli, o especialista em cooperativismo, Mauro Pereira e o representante da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em Goiás, Luiz Carlos do Nascimento.

 

A agricultura familiar é responsável por uma parte significativa da produção agropecuária brasileira, mesmo assim parece ser “discriminada”. Por quê?

 

Graciella – Apesar desse tema estar sendo divulgado atualmente, inclusive por meio de esforços do Governo Federal para que a agricultura familiar cresça, nós ainda temos uma discriminação contra esses produtos, e esses agricultores familiares enfrentam sérias dificuldades na sua produção e comercialização. Embora a comunidade tenha interesse em consumir esses itens, o agricultor não consegue colocá-los na mesa do consumidor final da melhor maneira possível, não conseguindo, também, melhores rendimentos com a sua produção.

 

Luiz – Estamos trabalhando nesse sentido de divulgação desde 2003 e Goiás ainda está aquém em relação aos outros estados da federação. Vemos muita desconfiança por parte do poder público municipal, por parte do agricultor familiar em querer ser inserido no contexto da comercialização e até uma falha do próprio governo em divulgar mais a agricultura familiar.

 

Mauro Pereira

Mauro Pereira

"...o fato do mercado não ser totalmente voltado para o agricultor familiar, é um motivo para que ele não apareça tanto nas grandes discussões na mídia, porque tudo é voltado para o grande."

 

Mauro – Acreditaram, no final do século passado, após a Revolução Verde, na existência do agronegócio voltado para a grande produção, fato que fez com que vários agricultores deixassem o campo. No entanto, percebemos que a agricultura familiar continua existindo e é ela que coloca os produtos na nossa mesa. Os empresários do agronegócio produzem commodities. Hoje, todo o debate vem sendo retomado nas universidades. Por saberem da qualidade e do seu valor social, as pessoas querem consumir os produtos provenientes da agricultura familiar, o que é muito bom, pois os alimentos saudáveis e o trabalho que está sendo realizado no campo são cada vez mais divulgados. Na minha opinião, o fato do mercado não ser totalmente voltado para o agricultor familiar, é um motivo para que ele não apareça tanto nas grandes discussões na mídia, porque tudo é voltado para o grande. Então, não existe tecnologia para os pequenos, não existe maquinário para os pequenos, não existem formas de implemento para que eles possam trabalhar no coletivo, no associativismo. Creio que, retomando a discussão, isso será revertido ao longo do tempo.

 

Onde são comercializados esses produtos? Como é o mercado, principalmente para o consumidor individual?

 

Luiz – Hoje, institucionalizado na parte comercial, nós temos um programa e uma lei: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que é operacionalizado pela Conab, e a Lei 1947, de junho de 2009, a Lei da Merenda, do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), ou seja, esses são dois caminhos institucionais para a comercialização. Nas minhas palestras, eu falo sempre o seguinte: o PAA seria como o ensino fundamental do agricultor familiar, no entanto, a Lei da Merenda estaria em um patamar maior, como o ensino médio, e o caminho para que o produtor chegue ao seu ápice seria o mercado. Atualmente o agricultor tem dificuldades, mas acessa o mercado. O PAA, na minha concepção, tem ajudado bastante esse agricultor a entender o que é o mercado lá fora.

 

Graciella – Esses produtos da agricultura familiar, quando saem desses dois programas que o Luiz citou, vêm para a mesa do brasileiro da mesma maneira dos outros produtos, como o leite, o arroz ou o feijão, que são comprados no supermercado. Por exemplo, o leite: a maior parte do leite produzido que chega na mesa do brasileiro, advém da agricultura familiar, porém, o agricultor apenas fornece esse produto para uma empresa de grande porte, um laticínio ou indústria, que fica com a maior parte do rendimento. Dessa forma, o consumidor vai consumir um queijo que foi produzido com o leite proveniente da agricultura familiar, mas, como existe muita fiscalização e normas para esses produtos serem processados, quem fica com a maior parte do lucro é a grande empresa. Portanto, o agricultor coloca seus produtos no mercado, mas eles passam por um “atravessador”, que seria a indústria. A dificuldade do agricultor está em ter que passar por esse caminho. Se pensarmos no agricultor como um trabalhador ou um comerciante que vai inserir o seu produto diretamente na mão do consumidor final, poderíamos pensar nos dois programas que colocam o produto nas entidades – asilos, escolas, hospitais – e, também, através das feiras livres que ocorrem em todas as cidades. Mas esses canais ainda são pequenos, o que o agricultor precisa alcançar é o mercado comum, como os supermercados, aonde o consumidor final vai para adquirir a maioria dos produtos.

 

Mauro – A agricultura familiar talvez encontre ainda um grande espaço, que são as Ceasas. Todas as frutas e verduras que consumimos na cidade, não são produzidas por grandes proprietários mas, sim, por agricultores familiares. As cooperativas e associações são a forma que eles têm para acessar melhor esses espaços.

 

Com a comercialização como está hoje, o produtor consegue uma renda para manter a produção e, ao mesmo tempo, sua qualidade de vida?

 

Luiz – No caso específico do PAA, se levamos em consideração a necessidade do produtor, o valor de oito mil reais anual, disponibilizado pelo Governo Federal, não seria suficiente. Mesmo com a Lei da Merenda, o produtor ainda não conseguiu acessar, como um todo, essa política pública do Pnae. Os produtores reclamam do valor e eu, infelizmente, tenho que dizer a eles que fica difícil para a Conab solicitar um aumento sendo que, no ano passado, em função da falta de tecnologia e entendimento do cooperativismo e do associativismo, nós tivemos que devolver para a União cinco milhões de reais. Não tem como fazer encaminhamentos para aumentar o valor do programa, sendo que eu ainda estou devolvendo dinheiro para a União, mas, se você me perguntar friamente, eu afirmo que esse valor realmente ainda não é o ideal.

 

Graciella Corcioli

Graciella Corcioli
"É preciso considerar que a agricultura familiar produz cerca de 80% dos alimentos, mas menos de 15% do total de agricultores familiares produzem esses alimentos."

 

Graciella – É preciso considerar que a agricultura familiar produz cerca de 80% dos alimentos, mas menos de 15% do total de agricultores familiares produzem esses alimentos. A maioria dos agricultores está em situação precária no campo. Os recursos do PAA e do Pnae vêm para atender ao agricultor que ainda não encontrou nenhum canal de comercialização. Além disso, como o agronegócio exporta matéria-prima, o Brasil perde dinheiro porque a comercializa. Da mesma forma, a agricultura familiar comercializa matéria-prima, e é preciso beneficiar e industrializar esses produtos para agregar valor. Dessa maneira, acredito que o agricultor poderia ter uma renda melhor, mas tudo isso só vai funcionar bem o dia em que conseguirmos alcançar a maioria dos agricultores. Senão, fica uma agricultura familiar interessante, mas apenas para parte desses agricultores que produzem bem e conseguem comercializar. Apesar disso, a grande maioria não vive essa realidade.

 

As políticas públicas para esses produtores estão sendo bem aplicadas?

 

Mauro – Creio que os produtores que estão inseridos nas cooperações têm um pouco mais de conhecimento e as cooperativas conseguem fornecer uma assistência técnica para eles. Assim, os agricultores que estão juntos conseguem ter uma renda melhor. Fizemos um estudo em algumas cooperativas e encontramos agricultores que conseguem comercializar até R$ 10 mil mensais com leite, frutas, verduras e até nas próprias feiras locais, mas esses agricultores necessitam de uma assistência técnica tanto na produção como também na própria gestão dessas cooperativas. Atualmente, o estado não consegue oferecer essa assistência a todos e, a partir desse fato, temos alguns que conseguem uma renda que não ultrapassa R$ 300,00 por mês. Sobre esses R$ 8 mil que o governo oferece, é um valor muito baixo, é o mesmo que dizer para essa família continuar pobre. O agronegócio pode vender, por agricultor, até R$ 100 mil, sendo que o agricultor familiar só pode vender R$ 8 mil ao ano. Isso tem que ser discutido e mudado. A legislação tem que mudar porque senão esses agricultores vão continuar pobres no campo.

 

Luiz – O problema não é só a tecnologia, mas, também, a burocracia. Às vezes o produtor se sente intimidado a participar do PAA e do Pnae em função da aprovação da documentação, que é uma coisa que ele não está acostumado, ai é onde entra o cooperativismo e o associativismo, porque ele precisa ter alguém para ajudá-lo. Se você quer que uma política alcance o seu resultado, é preciso dar condições.

 

Graciella – Se nós considerarmos o mapa do Brasil, é possível observar que é descendente a maneira como os recursos públicos são colocados dentro das regiões. Temos as regiões Sul e Sudeste pegando boa parte dos recursos e das políticas públicas disponibilizadas para a agricultura familiar, depois o Centro-Oeste e, por último, o Norte e o Nordeste. Isso acontece muito em função da falta de outras políticas mais importantes como, por exemplo, a educação básica. Existem estudos que falam que a baixa utilização de tecnologia pelo agricultor está diretamente ligada ao seu grau de escolaridade. Quanto menor é a educação que ele tem, maior a dificuldade para o acesso à assistência técnica e a programas que viabilizariam a sua produção. Se nós temos problemas na educação do meio urbano, no meio rural é muito pior. Dessa forma, é preciso mexer em uma série de questões para que o agricultor tenha acesso a essas políticas que estão disponíveis. Cerca de 40% dos recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), por exemplo, ficam no Sul e Sudeste, sendo que a maioria dos agricultores familiares estão no Nordeste. Portanto, quem recebe esses benefícios é quem está mais apto a responder a toda essa burocracia que é imposta.

 

Mauro – Eu acredito que o recurso federal não é mal aplicado no campo, a equalização do recurso para os grandes e pequenos produtores é que não está sendo feita.

 

Os cursos universitários de ciências agrárias formam profissionais para trabalhar com a produção da porteira para dentro, mas a principal demanda dos agricultores é por assessoramento da porteira para fora, principalmente na busca de mercados. O que um profissional de ciências agrárias precisa saber para apoiar as cooperativas da agricultura familiar na busca por mercados?

 

Mauro – Acredito que os estudantes ainda precisam ser preparados para trabalhar com gente, que é o fundamental de tudo. Percebo que a universidade deixou um pouco de trabalhar com pessoas, os técnicos começaram a pensar em máquinas e em produtos que resolvem os problemas da lavoura e deixam de conversar com as pessoas. Da porteira para fora, esses técnicos têm ainda que ter conhecimento da legislação, porque as cooperativas e as associações estão inseridas dentro do arcabouço jurídico também. Esses profissionais precisam entender o mercado e trabalhar pensando, também, na agricultura familiar. O grande negócio não precisa tanto disso porque tem alguém que pensa para ele. Dessa forma, para a agricultura familiar, esses profissionais têm que pensar em produtos diferenciados. Isso é o que o cooperativismo traz hoje: novos desafios para esses técnicos que estão saindo das universidades, porque existem novos fatores que vão exigir muito deles.

 

Graciella – É um desafio porque temos um Brasil gigantesco, com diversos agricultores. Nós temos, por exemplo, agricultores familiares no sudeste e sudoeste de Goiás que são extremamente diferentes dos do norte do Estado. É um universo muito diverso, e formar profissionais que vão trabalhar com esses agricultores é um desafio muito grande para a Escola de Agronomia e, principalmente, na UFG, que está inserida em uma região que é muito voltada para o agronegócio. Temos uma dificuldade grande em fazer com que os alunos se interessem pelo tema da agricultura familiar, para mostrar que existem oportunidades de emprego nessa área e políticas voltadas para esse agricultor, mas temos professores que trabalham nessa temática e tentam formar um profissional que tenha um horizonte muito maior que o agronegócio.

 

Luiz Carlos do Nascimento

Luiz Carlos do Nascimento
"Se você quer que uma política alcance o seu resultado, é preciso dar condições."

 

Luiz – Eu fico muito satisfeito quando chega um agrônomo ou técnico para conversar comigo sobre o PAA, disposto a entender o produtor, o que ele quer produzir, como ele quer produzir, quais são as dificuldades, quer dizer, ser um amigo. O campo é grande, com muitas oportunidades acessíveis.

 

A Agro Centro-Oeste Familiar, que acontece na UFG de 13 a 16 de maio, consolidou-se como a maior feira de exposição dos produtos da agricultura familiar de Goiás. De que forma o evento pode apoiar a comercialização dos produtos da agricultura familiar?

 

Graciella – A função desse evento é expor os produtos da agricultura familiar para que o consumidor possa conhecê-los. Sendo assim, durante os quatro dias de Agro Centro-Oeste receberemos o público em geral para conhecer esses produtos e verificar o que é que a agricultura tem para oferecer para o consumo familiar. Além disso, o evento visa buscar discussões a respeito dos temas mais relevantes para a agricultura familiar que temos hoje. Vamos ter seminários, cursos, mesas-redondas e uma programação cultural muito apropriada que reverencia a agricultura familiar regional e a comida tradicional. É um evento para diversos públicos e deixo aqui um convite para todos participarem, porque será um evento muito rico que dará voz ao agricultor e para a comunidade urbana saber o que é essa agricultura familiar da qual muito se fala, mas ninguém vê.

 

Mauro – A exposição também propicia mercados futuros. Além da dona de casa, os empresários podem vir conhecer os produtos industrializados desses produtores. Assim, além dos debates que são muito importantes, o evento também proporciona a abertura de possíveis mercados para esses agricultores.

 

Mais informações sobre a Agro Centro-Oeste acesse o site www.agro.ufg.br/agrocentro 

 

Você pode participar das próximas mesas-redondas enviando sugestões de temas e convidados pelo telefone: 3521-1311 ou jornalismo.ascom@ufg.br

 

 

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