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MESA-REDONDA: Conceito tradicional de família não explica o contexto atual

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 64 – NOVEMBRO / DEZEMBRO – 2013

Conceito tradicional de família não explica o contexto atual

Texto: Ascom e TV UFG | Foto: Carlos Siqueira

 

 

 Eliane Gonçalves Marilúcia Lago Omar Borges

Eliane Gonçalves, Marilúcia Lago e Omar Borges

Há tempos as configurações familiares se diferenciam do modelo tradicional, no qual um homem e uma mulher se unem para viverem juntos e criarem seus filhos. Tornou-se cada vez mais comum a posição das mulheres como chefes de família, a diminuição do número de filhos, o aumento do divórcio, as uniões homoafetivas, entre outros. Diante desse contexto, nos perguntamos como estão sendo considerados os valores, a educação e o convívio dentro desses novos lares. Para falar sobre este assunto, a mesa-redonda do Jornal UFG, feita em parceria com a TV UFG, contou com a presença da professora da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), Eliane Gonçalves, da professora do curso de Psicologia da Faculdade de Educação (FE), Marilúcia Lago, e do conselheiro tutelar da região oeste de Goiânia, Omar Borges de Sousa.

É certo afirmarmos que o modelo de família tradicional não é mais hegemônico? Quais fatores interferiram na mudança do conceito de família?

Marilúcia Lago - A mudança do conceito de família é histórica, é a evolução do modelo tradicional, que pertencia a um mundo com outra configuração. No momento contemporâneo, temos novas formas de convivência e a ampliação dos modelos de família. A consequência natural é, portanto, a mudança do conceito tradicional de família, tanto quanto a evolução tecnológica, do conhecimento e da comunicação.

Eliane Gonçalves - Eu começaria dizendo que família tradicional é um conceito historicamente construído e a configuração do modelo de família tradicional também o é. Sempre existiram na história modelos plurais de família. A família nuclear, com pai, mãe e filhos, é um conceito moderno, recente, que somos convidados a entendê-lo como hegemônico, mas de fato, se olharmos empiricamente o mundo concreto, as famílias sempre foram plurais, mais ou menos extensas. Hoje, mais que no passado, os dados nos informam a existência de famílias que vão desde uma pessoa, chamadas domicílio unipessoal, até famílias compostas por pessoas cujas relações não são fundadas na consanguinidade. Os modelos de família são historicamente plurais e talvez, no momento atual, essa pluralidade esteja mais exacerbada do que costumávamos ver no passado.

Omar Borges - O que mudou hoje é que os pais têm se dedicado mais ao sustento da família e estão ausentes na criação dos filhos. Hoje é mais complicado estruturar uma família em todos os sentidos. A própria criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é criticada. Nós do Conselho Tutelar somos acusados de passar a mão na cabeça de adolescentes que cometem atos infracionais. Quem conhece o ECA bem, sabe que ele é perfeito para um país que tem interesse em fazer alguma coisa em relação às crianças e adolescentes. Alguns artigos do ECA não são conhecidos pela população. Se o estatuto fosse aplicado, talvez tivéssemos um país melhor.

Como podemos conceituar hoje uma família?

Eliane Gonçalves - Família é uma organização de pessoas ligadas por laços de afinidade e de sangue. E a afinidade hoje tende a ser mais importante do que a consanguinidade, porque ultrapassa o modelo da reprodução biológica, no caso pai e mãe, formando uma família por meio de modelos de coabitação, de pessoas morando juntas. É assim, inclusive, que o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vê a noção de família no Brasil.

Marilúcia Lago - A família é aquela que traz, que convida e integra o sujeito no mundo. É ela que dá significação e cria uma consciência, um sentimento de pertencimento à comunidade. Entendo família assim como a professora Eliane Gonçalves, acrescentando a ideia de integração da pessoa no mundo.

Eliane Gonçalves - A família é o lugar de significação e o primeiro lugar de normalização, onde aprendemos os primeiros conceitos, regras. Isso é o que a gente chama de primeira socialização, quando aprendemos a linguagem, que é estruturante das demais coisas. Com a família, nos tornamos seres capazes de compreender e significar o mundo.

Omar Borges - As famílias que não conseguem dar um mínimo de estrutura para os filhos, os perdem para o vício. As pessoas mais pobres têm grande dificuldade de criar os filhos, pois saem para trabalhar e os filhos não têm escola, não têm lazer, e ficam sujeitos a todo tipo de barbárie.

Marilúcia Lago - É interessante o que o Omar Borges coloca, porque a família não é um grupo fechado. Ela é ligada à uma realidade de mundo, que não é uma realidade única. As famílias são diversas e não são universais. A família pode ser universal enquanto conceito, mas não enquanto vivência e experiência da realidade. E quando tratamos da realidade brasileira, de extremas desigualdades, temos uma população mais desfavorecida com diversas realidades não só culturais, mas de experiências, em que o processo de socialização, integração, inclusão e sobrevivência se impõe para cada família dentro de suas realidades. São experiências muito diferentes e isso é uma situação grave.

A justiça e o Estado têm reconhecido modelos diferentes de famílias, como exemplo, uniões homoafetivas, filhos fora do casamento, mulheres que são amantes por anos. A sociedade tem reconhecido também esses modelos?

Eliane Gonçalves - Sim, isso prova que as relações materiais existentes vão provocando mudanças na legislação, na forma como se concebe essas instituições. É uma luta árdua para desestabilizar um conceito que nunca representou a variedade de organização, os arranjos existentes. Você aprende desde a escola que essa família nuclear tem o pai provedor, a mãe que tem o cuidado com os filhos e a casa, e você tem o modelo de socialização das crianças fora da casa, como se tudo fosse uma novelinha linear, construída com cada peça encaixada na outra, mas, na verdade, as coisas não são assim. É até interessante pensarmos em desestruturação familiar, porque se você tem um modelo tão estruturado, linear, com as peças todas funcionando, como na Teoria dos papéis, onde cada um tem sua função, você facilmente torna esse modelo uma normalidade e qualquer coisa que saia disso ganha a alcunha de modelo patológico, anormal e desestruturado. E a sociedade começa a ver um problema que, na verdade, não existe. Não quero contrariar o que o Omar Borges disse, contudo, entendo como a Marilúcia Lago falou, que a família é uma entre várias instituições, mas sobre ela recai muitas responsabilidades. Porque há uma ideia de que, no mundo privado, as relações se organizam em relação ao que se aprende e as responsabilidades, os deveres ficam muito restritos à instituição familiar, quando, na verdade, são relações sociais interdependentes. A reivindicação da ampliação de direitos, como a união de mesmo sexo, pessoas que não querem casar, mas querem ter filhos, filhos que nascem por tecnologias reprodutivas e não por reprodução biológica do casal, precisa ser acolhida e a sociedade precisa se entender e dizer quais normas éticas ela quer, para poder identificar onde se situam os problemas e quais esferas deles precisamos cuidar. Com isso vem a atenção à criança, ao adolescente, à relação de igualdade no trabalho entre homens e mulheres, questões da contemporaneidade, que sempre estiveram presentes, mas que agora estão mais agudas, que dizem respeito ao nosso papel de cidadãos.

Quais os reflexos desse novo modelo de família na educação dos filhos, no equilíbrio da paternidade e maternidade e em relação à dedicação das atividades profissionais e familiares?

Marilúcia Lago - Para ligarmos essa discussão entre mundo tradicional e contemporâneo, temos que pensar que o ser humano é ao mesmo tempo singular e plural. No mundo atual, temos um novo olhar sobre essas possibilidades, um novo reconhecimento. Estamos caminhando no sentido de reconhecer as diversas formas de ser e experimentar o mundo e, com isso, temos uma evolução dos direitos humanos e das liberdades individuais e a ampliação de alguns conceitos, tais como o de maternidade e paternidade. No passado, os homens, pais, ficavam fora muito tempo, porque iam para a guerra, porque navegavam, e as mães ficavam em casa. Hoje, temos uma outra divisão de papéis, até porque dentro da configuração afetiva, nem sempre é o pai e a mãe que exercem esse papel e, além disso, a criança tem uma vida coletiva mais intensa, passando mais tempo fora de casa, na escola, em atividades esportivas, cursos de línguas. Essa socialização da criança, o processo de chegada ao mundo, é partilhado por diversos atores. O que precisamos é harmonizar melhor esses atores e dar a todos condições para que tenham o mesmo nível de acesso à essas possibilidades e se tornar humano nas mesmas condições dignas.

Omar Borges - Eu já sou contrário a alguns comentários. Hoje as famílias estão entregando os filhos para a internet, para as escolas e esquecendo os laços familiares. Percebo muito a carência dos adolescentes. Outro dia um garoto de 14 anos chegou ao Conselho Tutelar, rebelde, e eu perguntei há quanto tempo ele não dava um abraço no pai. Ele disse que tinha uns oito anos. Dei um abraço nele e ele chorou. Quando os pais chegaram, ele os abraçou, chorou. As pessoas estão esquecendo de destinar parte de seu tempo para a família, para um abraço, um carinho. As pessoas estão atrás de dinheiro e se esquecem disso.

Marilúcia Lago - O lado humano deve vir antes das coisas. Eu entendo o contexto, mas eu penso que não é por conta da internet que os pais não estão abraçando seus filhos. Porque eles poderiam estar tirando proveito da internet junto a eles. Internet é um recurso, assim como tantos outros instrumentos do mundo. A questão é que não são os recursos ou os objetos que nos regulam, os homens constroem, fazem o objeto.

Omar Borges - Vamos voltar então à minha época. Eu não dava atenção para meu tio ou minha tia que iam me ver jogar futebol, mas quando acabava o jogo, eu dava atenção. Hoje os meninos entram na internet de manhã e ficam até a noite, e ali se aprende de tudo. O pai e a mãe chegam em casa e o filho nem percebe. A família tem que se concentrar mais em controlar o uso da internet. As pessoas estão perdendo os laços familiares.

Eliane Gonçalves - O Omar Borges nos mostra uma realidade muito presente. Mas falamos do nosso tempo com relação aos problemas que nos são contemporâneos. Ele mencionou a questão do distanciamento pelo uso dos recursos tecnológicos e o problema das drogas, como alternativa para essas objeções somos nostálgicos de um tempo do passado, “no meu tempo”, “no tempo dos meus avós”, e nos tornamos saudosistas de um tempo que, provavelmente, tinha seus problemas e era saudosista de um outro tempo. Talvez tenhamos que nos perguntar se essa falta de afetividade, se as relações humanas empobrecidas não têm a ver com outras coisas, com nossas formas de concepção de felicidade, alegria. Todas as nossas observações sobre o mundo são cercadas de moralismo, sempre temos um conceito para comparar com o outro e estamos achando que existe um lugar melhor que o que habitamos. Sabe aquele ditado de que a grama do outro lado é sempre mais verde? Ao olhar assim, perdemos a oportunidade de pensar as nossas problemáticas de acordo com a nossa cultura, a nossa história. E eu não posso deixar de dar razão para o Omar Borges de que as relações estão empobrecidas, mas não apenas pelo tempo que se gasta na internet. Até porque estamos longe de saber que tipo de inteligência, subjetividade, mentalidade teremos por causa da interferência dessas tecnologias.

As famílias desestruturadas são realmente as responsáveis pela violência, pelo desencontro dos adolescentes? A culpa recai muito sobre as famílias. É isso mesmo?

Omar Borges - Volto de novo à internet. De cem adolescentes na internet, um está acessando um livro, algo interessante, os outros ou estão acessando a jogos violentos ou estão nas redes sociais, sujeitos aos pedófilos, às pessoas que usam da inexperiência desses adolescentes e da fragilidade das famílias, que deixam a disposição as redes sociais para os filhos. Eu não tenho nada contra, mas isso precisa ser supervisionado pela família. Até drogas são vendidas na internet. Voltando ao tempo tradicional, acredito que ele tinha seus problemas, mas as famílias tinham mais controle sobre seus filhos.

Marilúcia Lago - Sobre a questão das drogas, a humanidade sempre conviveu com elas. As drogas sempre existiram, não foram inventadas hoje. O crack é uma novidade, mas convivemos com outros tipos há muito tempo. Não penso que o problema seja a droga em si, mas como convivemos com ela, de que forma ela tem entrado e que papel ela exerce para cada realidade, sociedade, grupo e adolescente específico.

Omar Borges - Na minha época, a droga era bebida. A droga lícita. Hoje o crack está acabando com as famílias. A professora Marilúcia Lago conhece o efeito do crack, pois trabalha com adolescentes viciados.

Marilúcia Lago - Eu penso que o álcool ainda é um problema maior que o crack. A convivência com as drogas depende de outros fatores sociais, de uma responsabilidade social maior. Como a Eliane Gonçalves citou, a gente tem essa nostalgia e essa ideia de pensar que em outros países tudo é melhor. Esse lugar melhor está para ser construído dia após dia, com nossa responsabilidade ética e política. O Estado somos nós. O ECA tem que estar presente na mente e no agir de cada um de nós.

Eliane Gonçalves - Essa ideia de desestruturação da família é muito pesada. Isso faz com que as pessoas se sintam culpadas. Quem pode dizer que possui uma família desestruturada? Talvez o Estado e as políticas públicas sejam desestruturados. A família faz o que pode, o que está a seu alcance. Eu tenho a impressão, senão certeza, que essa ideia de desestruturação tem a ver com a entrada das mulheres no mercado de trabalho e uma culpabilização de que a mulher trabalhando fora, no mundo formal e ganhando dinheiro, deixou seus filhos aos cuidados da rua. Há outro discurso também perverso que diz que a escola está sendo sobrecarregada com aquilo que é obrigação da família. As famílias fazem o que podem dentro de sua competência, dão afeto, se tiverem condições, dão segurança material, mas as outras instituições não estão sendo convocadas a essa responsabilidade. O que me preocupa é que isso não é um conceito do senso comum, isso está na ciência, e o fato de as mulheres serem culpadas de praticamente tudo. Tudo o que dá errado as mães são culpadas, “elas deixaram os filhos”, “se embrenharam no mundo das drogas”. Temos que parar de considerar isso uma culpa pessoal, estamos em uma organização social, precisamos repartir as responsabilidades.

Como vocês entendem a interferência do Estado nas questões familiares, usando como exemplo a "Lei da Palmada". De que forma questões familiares devem ser preocupações de governos ou instituições?

Eliane Gonçalves - Lei da Palmada! Eu usaria a palavra de Dom Evaristo, "tortura nunca mais". Depois das lições de Michael Foucault, em Vigiar e Punir, e depois de toda a nossa história, da genealogia de nossa história de dor, fico surpresa e revoltada. Dor corporal, não, nunca mais.

Marilúcia Lago - Concordo com a professora, temos que pensar nas diversas formas de violência. Estamos falando da palmada. Será que a palmada é entendida por todos da mesma forma? Será que isso é necessário para um processo educativo? O Estado tem que interferir no processo de proteção. Falamos do ECA, mas também há a Lei Maria da Penha, a guarda familiar. Todas são interferências no sentido de proteger. Temos de pensar que o Estado é construído por nós e que essas leis surgem de necessidades que a realidade expõe.

Eliane Gonçalves - Ao Estado cabe o monopólio da violência. Então se não formos vigilantes, vamos aprovar leis que tornam o Estado cada vez mais violento. Chamo atenção para repensarmos isso. Ninguém apenas bate nos outros, porque vem à tona diversos mecanismos psiquícos e emocionais. A violência, embora faça parte de nossa humanidade, precisa ser vigiada. Precisamos vigiar o que entendemos como punição.

Omar Borges - Essa Lei da Palmada, "palmada pedagógica". Quantas crianças e adolescentes estão sendo espancados?

Falta uma intervenção séria do governo?

Marilúcia Lago - Isso que o Omar Borges disse é uma realidade. Será que não temos um Estado violento? Essa Lei da Palmada mostra que existem diversas formas de violência e ela é construída coletivamente também. Temos uma questão grave quando pensamos o Estado em suas funções de base. Nossa realidade de Estado se constituiu de uma maneira errada, porque temos o Estado, como uma estrutura de lei e de força, e uma estrutura muito violenta, e a gente não tem abaixo a figura do cidadão que faz o controle social. Por que só algumas instituições fazem fiscalização, enquanto o controle social é uma questão do coletivo? Pensar o Estado é pensar em como ele se estrutura, em como as responsabilidades são partilhadas e como nós nos implicamos nessa responsabilidade.

Categorias : Mesa-redonda família sociedade

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