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Entrevista: Os múltiplos sentidos de ser jovem

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 58 – MAIO – 2013

Entrevista: Os múltiplos sentidos de ser jovem

Texto: Patrícia da Veiga | Fotos: Carlos Siqueira

Atualmente, ser jovem não é mais a passagem de determinada faixa etária para o mundo adulto, mas sim um “estilo de vida”. Algo, portanto, que se escolhe ser. Esse seria, de acordo com o professor do Programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luís Antônio Groppo, o “poder simbólico” da palavra juventude. Inspirado no conceito do sociólogo Pierre Bourdieu, que em 1978 declarou ser a juventude “apenas uma palavra”, ou seja, na época, um verbete esvaziado e criado para discriminar a ação dos jovens, Groppo defende que uma “construção social” é reelaborada de tempos em tempos. As mesmas instituições que tornaram os jovens incapazes no século XX, definem a juventude do século XXI como um grupo de pessoas flexíveis, felizes, vitais e dispostas a consumir, independentemente da idade. “Um jovem negro, gordo e pobre, por exemplo, não é considerado jovem, porque não está no padrão”, argumenta o professor. Luis Antônio Groppo esteve em Goiânia no mês de março para uma roda de conversa na Casa da Juventude. Nesta entrevista, ele fala sobre os dilemas dos jovens pobres e também sobre a educação formal e não formal que é destinada a eles.

Luis Antonio Groppo
Professor Luis Antonio Groppo


O que é ser jovem na contemporaneidade?
Em 1978, o sociólogo Pierre Bourdieu destacou que “juventude” seria um termo associado, inicialmente, à ideia de imaturidade e inexperiência, manipulado na sociedade para discriminar os jovens, diminuir seu poder do ponto de vista sexual, cultural, político e no mundo do trabalho. Atualmente, contudo, a palavra juventude tem outra conotação, passando a ser considerada algo como um estado de espírito, uma disposição pessoal, corporal, uma vitalidade desejada por todos. A aparência e o comportamento jovens passaram a ser partes de um ideal. A juventude se tornou, então, “juvenilidade”: foi da fase de maturação ao estado de espírito, algo a que se escolhe ser. Essa ideia da “juvenilidade” está ligada à valorização do consumo e à flexibilidade do comportamento. E o mundo econômico-produtivo de hoje exige mais flexibilidade dos sujeitos, para que eles possam consumir, ser felizes e ainda se adaptar à instabilidade do mercado de trabalho. Assim, a idade passou a não mais definir a juventude. Um jovem negro, pobre e gordo, por exemplo, até tem idade para ser jovem, mas não é considerado jovem, porque não tem o “perfil” dado pelo mercado.

É possível fugir dessa realidade?
Há possibilidades. Quando você coloca sujeitos próximos com idades e sensibilidades parecidas, dentro de um projeto que é controlado por adultos ou por uma instituição que tem seus objetivos definidos, há uma chance de esses jovens conceberem objetivos diferentes, irem contra o que está estabelecido, seja formando grupos alternativos, seja ocupando as “franjas” do tempo e do espaço. E algumas versões mais radicais dessas alternativas podem ser vistas como um “desvio”. Um sociólogo chamado David Matza fez um estudo interessante, mostrando “as tradições ocultas da juventude”. Ele, que é bastante conservador, definiu como “grupos desviantes” a boemia, o radicalismo e a delinquência. Eu, porém, mostro o contrário: são possibilidades de contestação juvenil que têm provocado transformações históricas importantes, seja no caso do movimento estudantil, vinculado ao radicalismo, ou no caso do movimento da contracultura, que está ligado à boemia. Já a “delinquência” é mais problemática, nem os sociólogos mais progressistas a têm compreendido bem. Normalmente, é associada a algo desesperado, anômico, autodestruidor. E muitas das ações rebeldes dos jovens pobres são assim rotuladas. Se os jovens de classe média queimam os carros em Paris, é movimento estudantil, se são os pobres, é “delinquência”.

E quais seriam os “grupos desviantes” da atualidade?
Entre os movimentos estudantis ainda há alguns grupos mais radicais à esquerda, alguns anarquistas, por exemplo. Um dos mais interessantes recentemente foi o Movimento Passe Livre, que em muitas cidades teve uma força grande, como em Florianópolis, Campinas e Salvador, salvo engano. O movimento, com o tempo, abarcou outras reivindicações que não só a tarifa de ônibus gratuita. Também há muitas iniciativas interessantes entre os jovens vinculados à cultura Hip Hop e à capoeira. Destaco ainda o uso que os jovens têm feito da Internet. Há uma tradição. Em 1999, o movimento antiglobalização de Seattle foi todo organizado por e-mail. O partido mais votado nas eleições italianas de 2013, o Movimento Cinco Estrelas, organizou-se pela internet e fez comícios nas ruas. Então é isso que nos dá esperança, que mostra que as pessoas são inquietas.

Sendo assim, considerar a juventude contemporânea individualista e despolitizada é uma falácia?
A política institucional e partidária destina pouco espaço ao cidadão – e não somente ao jovem cidadão. Além disso, tem sido regulamentada e cooptada. Isso sem contar que quando os espaços se institucionalizam ou se formalizam demais, os jovens perdem o interesse. Mas, de modo geral, a nossa sociedade, a nossa cultura, é extremamente despolitizada. Ou a política é vista como algo sujo, espúrio ou é encarada de forma técnica, tecnocrática, voltada para especialistas. “Eles sabem resolver as coisas”, dizem. Há ainda o agravante de que, no cotidiano, temos que nos preocupar com a nossa empregabilidade. Nós somos “marretados” com essa mensagem o tempo todo. Então se os jovens são despolitizados, não é porque são egoístas, individualistas e isolados, como dizem, é porque são ensinados a isso. Aliás, todos nós somos ensinados que o mundo do trabalho é o único possível e que temos que nos tornar empregáveis. Então, diante disso, ser despolitizado não é uma coisa absurda. Ainda assim existem pessoas que criam projetos alternativos, que sejam politizadas.

O senhor afirmou em sua palestra que o Ensino Médio está em crise, oscilando entre a formação tradicional e elitista e a formação massificada. O que acontece?
A Lei de Diretrizes e Bases, de 1996, tornou o Ensino Médio um direito do cidadão. Esse foi um marco interessante, importante, o Estado passou a ter de ampliar a escolarização. Ou seja, se as pessoas buscavam o Ensino Médio, o Estado teve de criar as vagas e não mais fazer “vestibulinho” para formar um seleto grupo. Isso mudou um padrão de formação anterior que funcionava da seguinte maneira: conforme a criança crescia nos níveis de ensino, se não acompanhasse, ela ia evadindo, repetindo e, quando chegava ao final da oitava série, já estava automaticamente fora da escola. Muitos filhos dos trabalhadores desistiram ou por repetência ou pela necessidade de ingresso no mercado de trabalho. O problema causado foi que, com essa massificação do Ensino Médio, o currículo não mudou. O currículo ainda é elitista, é do ensino propedêutico, está descolado da realidade. Fora que os jovens precisam de canais de participação e de inserção no mercado de trabalho mais imediatos. E então, atualmente, houve uma queda no número de jovens presentes no Ensino Médio. As vagas foram ampliadas, mas as pessoas ainda estão fora da escola.

Na sua opinião, o que mais desestimula os jovens a deixarem os estudos?
Normalmente, as camadas populares enxergam o valor do Ensino Médio, mas o custo financeiro para cursá-lo é alto. Também, se o jovem ingressa no mercado de trabalho logo, ele traz mais recursos para casa. As famílias pobres têm que racionalizar seus projetos de vida de uma forma diferente. A classe média converge capital financeiro para capital cultural, que significa mais tempo de escolaridade. E isso vai ter depois um retorno interessante que garante ascensão social para a família. Mas, para os jovens pobres isso é mais difícil e mais demorado, mais incerto. No meio do caminho, as pessoas descobrem que gastaram muito e que perderam muita energia. As classes sociais fazem a conta e projetam o futuro de acordo com os recursos e as expectativas que têm. Então, o pensamento de que não dá para investir em educação não é tolo. O hoje para as famílias pobres é muito importante. É por isso que as expectativas com relação à escola são outras. Então, quando se obriga a família a deixar seu jovem no Ensino Médio, é preciso perguntar: Ensino Médio para quê? É o caminho da sobrevivência? É um ensino propedêutico que forma para o ingresso na universidade? O Ensino Médio não deve ser organizado somente para preparar para a universidade ou somente para o mercado de trabalho. É preciso repensar a escola e também o mundo do trabalho. O mundo do trabalho é cruel com os jovens, no caso de uma crise econômica, o desemprego sempre é maior entre os jovens. Isso quer dizer que não adianta pensar que a escola resolve tudo. A escola é uma parte da sociedade. Se a escola for interessante, mas o mundo do trabalho for excludente, não adianta. Isso requer transformações estruturais mais amplas.

Como seria um modelo de educação voltado para a autonomia e para o protagonismo?
Seria como mostrar aos jovens os seus direitos e também os espaços de rebeldia. Seria ainda trazer os movimentos sociais, a militância, os coletivos juvenis para dentro da escola e dialogar com todos. A escola deveria ser um espaço aberto para a sociedade. No entanto, a escola é tradicional e tem medo de perder o controle. No caso da educação não formal, das medidas socioeducativas e dos programas de transferência de renda, ao invés de colocarem os jovens para varrer as ruas, deveriam mostrar para os jovens que há certos direitos e equipamentos sociais, serviços públicos etc., que não existem no seu bairro e que, portanto, se deveria lutar por isso. Afinal, só sabemos que existe ensino público massificado e precário porque os movimentos sociais estão denunciando isso. Caso contrário, não saberíamos.

A educação não formal serve, atualmente, como um complemento à escola?
Alguns objetivos que a escola não consegue realizar, como ocupar o tempo livre, “civilizar” e gerar certo servilismo entre os jovens, ou seja, orientar para o mercado de trabalho, talvez esses cursos não formais, teoricamente, resolvam. Talvez sim, no sentido de que há funções sociais que a escola por si só não cumpre em relação aos jovens pobres. Mas, alguns conflitos, tensões e problemas do mundo escolar estão aparecendo na educação não formal. Sinal de que as coisas não estão dando certo e de que, de repente, ninguém escuta os jovens ou sabem o que eles querem. Os jovens são objetos de ação, mas não sujeitos.

A educação não formal também está em crise?
No passado, a educação não formal teve um papel importante entre as camadas populares. Há relatos riquíssimos com a experiência da Educação Popular, por exemplo, onde muitos jovens se encontraram, definiram um rumo para suas vidas e também se tornaram educadores. Hoje, a educação não formal, de fato, está em conflito, porque também foi transformada em mercado, foi criada uma “pedagogia social” para atender as camadas populares enquanto que as pessoas que cresceram nesse espaço não estão sendo consultadas. Um problema grande é que as atividades realizadas fora da escola passaram a depender cada vez mais de verbas oficiais para se manter. Criou-se hoje um mercado social e esse é o principal agente da educação não formal. São empresas, empreendedores, profissionais, institucionais, fundações empresariais, empresas que precisam “maquiar” o desconto dos impostos de renda, empresas que têm programa de responsabilidade social, assessorias especializadas, enfim, há um mercado voltado para a busca de projetos socioeducativos. A crise ocorre porque, muitas vezes, quem quer praticar educação não formal tem de entrar nesse mercado social. O momento é difícil mas é preciso fugir disso ou tentar rupturas.

Como?
Uma das coisas a se fazer é cultivar a memória da Educação Popular e da educação não formal, nas suas experiências positivas. Cultivar essa tradição, retomar valores e ideais de transformação e cidadania. Outro caminho é valorizar experiências alternativas de vida, que conseguem romper com o padrão estabelecido pela ordem hegemônica. Há experiências anarquistas, socialistas, enfim, experiências políticas e culturais diversas que se dão sem os recursos privados ou do estado. Isso tem de ser valorizado.

Categorias : juventude educação comportamento

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