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História e futuro de nossa universidade

Confira novos trechos da mesa-redonda que tratou da história da UFG, suas ações no presente e as perspectivas da instituição.

A mesa-redonda sobre o cinquentenário da Universidade Federal de Goiás teve a participação de personalidades ilustres da comunidade universitária, como o professor Edward Madureira Brasil, reitor da UFG, o professor aposentado Orlando Ferreira de Castro, que teve o privilégio de participar do processo de criação da UFG; o Servidor Emérito Paulo Afonso de Araújo Carvalho e o diretor da Faculdade de Filosofia, professor André da Silva Porto. Confira novos trechos da mesa-redonda que tratou da história da UFG, suas ações no presente e as perspectivas da instituição.

Professor Orlando de Castro, pode nos contar como se deu o processo de criação da UFG?

Orlando de Castro – Antes de falar sobre o processo de criação da nossa universidade, que é muito complexo, eu gostaria de fazer uma comunicação que talvez seja a primeira vez que se dê em público. Eu tive a oportunidade de estudar um pouco superficialmente a história de diversas universidades do mundo e verifiquei que todas elas surgiram de decisões que vieram de cima. As primeiras foram criadas pelo Papa, pelos bispos, pelos reis; no Brasil, foram criadas pelo imperador, pelo presidente, por governadores ou por empreendedores do ensino. Depois da universidade criada, eles chamavam os alunos, o povo. Pelo que sei a Universidade Federal de Goiás é a única que veio de baixo, criada pelo povo, principalmente pelos estudantes, em um processo relativamente complexo, que consumiu dez anos de intensa campanha dos estudantes. Não só esses dez anos iniciais, desde 1949, quando foi realizado o I Congresso Estadual dos Estudantes de Goiás, mas até 1960, quando a universidade foi criada em 14 de dezembro, pela Lei n. 3834-C.
Mas o início da universidade é bem remoto. Em 1832, o presidente da Província de Goyaz baixou um ato de ofício criando uma escola de medicina na cidade de Cavalcante e, ao mesmo tempo, criou um curso de Farmácia no Hospital São Pedro de Alcântara, na cidade de Goiás. Elas não foram instaladas, ficou apenas no papel. Mas ficou arraigado na convicção do povo goiano que era necessário criar de uma instituição pública de ensino superior. Em 1898, o Coronel Miguel Albernaz sancionou a Lei n. 186, em 13 de agosto, criando a Academia de Direito de Goiás, que não foi instalada imediatamente. Naquela época, os rapazes da cidade retiravam-se da cidade para fazer seus cursos superiores no Rio de Janeiro ou São Paulo – os que podiam naturalmente. E por lá a maioria deles se casava e retornava com as esposas, só alguns poucos retornavam solteiros. Isso acabou gerando um “movimento” entre as moças de Goiás para que a academia fosse instalada e elas pudessem procurar casamento entre os goianos que ficavam em Goiás. Elas fizeram um grande movimento, com comícios, passeatas. Em 24 de fevereiro de 1903, o fundador da Academia de Direito instalou-a no Salão Nobre do Lyceu. Ela começou inicialmente com 16 alunos e o número foi diminuindo, até em 1909 ela tivesse uns dois ou três alunos. Então, ela foi fechada provisoriamente. Em 1916, os estudantes de Goiás reuniram-se novamente e fizeram um movimento – que, mais uma vez, veio de baixo – para se recriar a antiga Academia de Direito. Mas um grupo de professores particulares tomou a iniciativa foi criada a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais de Goiás.

Essa faculdade veio com uma certa dificuldade, mas formou várias turmas de bacharéis em Direito. Esse pessoal teve depois grande projeção na história de Goiás, ocupando os cargos mais elevados no estado, nos três Poderes. De modo que ela representou um grande benefício para o estado. Mas viveu diversas crises, mudou de nome várias vezes e no fim ficou se chamando Escola de Direito. Porém, por uma série de questões políticas muito arraigadas na época, o governo recriou, em 1921, a antiga Academia de Direito de Goiás, desta feita com o nome de Faculdade de Direito do Estado de Goiás. Com o passar do tempo, o termo Estado caiu e ficou apenas Faculdade de Direito de Goiás. As duas conviveram juntas com muita dificuldade, poucos alunos e rivais. A particular foi perdendo terreno, porque o governo dava mais força para a instituição pública. Até que, em 1937, em Goiânia, Pedro Ludovico assinou um decreto encampando a Escola de Direito de Goiás, que era particular, e transferiu todos os alunos e professores para a Faculdade Estadual de Direito de Goiás, que perdeu o qualificativo Estadual e ficou apenas Faculdade de Direito de Goiás. Os estudantes da Faculdade de Direito de Goiás fizeram uma grande campanha para o reconhecimento, porque, em 1931 o presidente Getúlio Vargas havia baixado o Decreto n. 19.851 no dia 11 de abril de 1931, dizendo que todos os cursos superiores e seus estabelecimentos deveriam ter o reconhecimento do governo federal. Então, iniciou-se a campanha pelo reconhecimento da Faculdade de Direito, que foi obtido em 11 de maio de 1936. A partir desse dia, o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito de Goiás mudou o nome para Centro Acadêmico 11 de maio, que permanece até hoje. Nessa época já funcionava também em Goiás a Faculdade de Farmácia e Odontologia, que também prestou grandes benefícios ao estado. Mas o pessoal da faculdade de farmácia e odontologia não teve a iniciativa de procurar o reconhecimento e veio uma ordem específica do ministro da Educação e Saúde, na época, para que Pedro Ludovico a fechasse. Ele nomeou uma comissão que fez o balanço da faculdade, levou toda a documentação, entregou ao interventor e ela foi fechada.

Depois disso, correu uma notícia distorcida, dizendo que por arbítrio, puro mandonismo, Pedro Ludovico havia fechado a Faculdade de Farmácia e Odontologia. Isso circulou e circula ainda em obras sobre o assunto e isso não corresponde à realidade. Ele decretou o fechamento da Faculdade, mas obedecendo ao decreto, à ordem do Ministério da Educação para fechá-la. Depois em Goiânia, o pessoal da antiga faculdade reagrupou-se. Mais uma vez os estudantes enfrentaram e recriaram a Faculdade de Farmácia e Odontologia, que hoje são duas unidades da UFG. Depois veio a história da Faculdade de Engenharia: 90% do trabalho de criação foi dos estudantes. Isso eu afirmo, porque eu fazia parte da Comissão dos Cinco, uma organização dos estudantes que criou a Escola de Engenharia. Os engenheiros que a criaram fizeram uma ata e a criação ficou só na ata. Eles levaram um grande susto quando atenderam a um convite nosso e nós entregamos o Diário Oficial do dia 6 de janeiro de 1954 que trazia o decreto autorizando o funcionamento da Escola de Engenharia do Brasil Central. Depois a escola passou por uma crise, por renúncia da diretoria e de diversos professores. É necessário fazer justiça, porque eles lecionavam para nós gratuitamente. Fiz um curso de seis anos e nenhum dos professores ganhou nada na época.

Na atualidade o que representa a UFG para o estado de Goiás e para o sistema brasileiro de ensino superior? E o que se espera para seu futuro?

Edward Madureira – A UFG vai se consolidando cada vez mais como uma instituição que tem um papel importante no sistema de pesquisa, pós-graduação e ensino do país. Hoje já podemos com tranquilidade, de uma grande universidade. São poucas universidades que tem 54 cursos de pós-graduação stricto sensu neste país, 265 grupos de pesquisa inscritos e consolidados no CNPq. A universidade hoje interage com os grandes centros, produzindo pesquisa, conhecimento, qualificando pessoas para todo o país. Ela faz parte de um grande sistema das universidades federais e é uma peça muito importante desse sistema e vem ocupando cada vez mais espaço no cenário nacional, na graduação, na pós-graduação, na extensão e na pesquisa.


Para seu futuro, pessoalmente, eu quero estar presente em 2060 para a abertura da urna que lacramos em 2007, quando lançamos a pedra fundamental, no aniversário de 47 anos da UFG. Lacramos uma urna com jornais do dia, alguns aparelhos eletrônicos e eu espero estar lá com 97 anos, se Deus quiser, com saúde, para presenciar este momento. Institucionalmente, espero que a UFG se consolide como uma instituição que movimenta o estado de Goiás, movimenta o pensamento. A movimentação cultural que a UFG tem produzido no estado com o Música no Câmpus, o Cine UFG, o Centro Cultural, com a participação no Goiânia em Cena, no Fest Cine, no Fica, dá uma medida de como ela mexe com a cultura, o conhecimento, a pesquisa e o desenvolvimento de nosso estado. Quero uma universidade cada vez mais atuante e presente na sociedade e quero que a sociedade se orgulhe de ter uma instituição do porte da UFG.

Em que medida a universidade está comprometida com o enfrentamento do problema da precariedade da educação básica?

Edward Madureira – Nós temos uma escola básica que vem se recuperando, o Ideb está subindo, mas precisamos de ações que acelerem esse processo. Precisamos convencer nossos governantes de que investir numa carreira de magistério é fundamental, porque senão a universidade oferece cursos de graduação na área de licenciatura mas os estudantes não querem mais ser professor. O professor Orlando pode contar que antigamente as autoridades da cidade eram o prefeito, o juiz de direito e o professor ou professora.

Hoje banalizamos o trabalho do professor, diminuímos a sua importância e se nós não resgatarmos isso estamos fadados a desperdiçar a maior janela de oportunidades da história deste país, a janela em que o país dá um salto para a condição de um país desenvolvido, influente na economia mundial, um país que possa diminuir as desigualdades sociais. Mas, para isso preciso ter educação de boa qualidade em todos os níveis. Esse é um desafio em que a universidade tem o seu papel. Ela precisa refletir para saber como contribuir com isso.

Fonte : Ascom e Rádio Universitária

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