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Retranca Entrevista Anna

“A tecnologia, por si só, não é suficiente”

Em entrevista ao Jornal UFG, professora Anna Wieczorek, da Universidade Tecnológica de Eindhoven (Holanda), fala sobre a abordagem social na educação tecnológica

Luiz Felipe Fernandes

Por muito tempo, desenvolvimento econômico e sustentabilidade trilharam caminhos opostos. A utilização de recursos naturais cada vez mais escassos para gerar energia e combustíveis, realizar obras de grande porte e produzir alimentos, entre outras necessidades humanas, parece levar a um inevitável colapso do planeta. O cenário é preocupante e faz crescer entre pesquisadores de todo o mundo o interesse em investigar e propor práticas alternativas que façam que o desenvolvimento dos países ocorra de maneira sustentável, sem colocar em risco as condições de sobrevivência do próprio ser humano. Foi assim que surgiram os estudos em Transições para a Sustentabilidade.

No início deste ano, a UFG foi contemplada com um edital da Fundação Elsevier e da Academia Mundial de Ciências, que financiou a vinda da professora Anna Wieczorek, da Universidade Tecnológica de Eindhoven (TU/e), da Holanda. Referência nos estudos em Transições para a Sustentabilidade, a pesquisadora ministrou palestras e participou de discussões sobre o tema em Goiânia, além de ter concedido entrevista para o Jornal UFG.

Entrevista Anna W.

Professora Anna Wieczorek foi recebida na UFG pelo professor da Face/UFG, Marcelo Tete (Luiz Felipe Fernandes)

Como é o trabalho que você desenvolve na Holanda?

Sou pesquisadora da Universidade Tecnológica de Eindhoven, no Instituto de Engenharia Industrial e Ciências da Inovação, o único da universidade com um departamento de ciências sociais. O que fazemos é adicionar uma camada social à educação tecnológica. Tentamos dizer aos estudantes que a tecnologia, por si só, não é suficiente, tem de haver pessoas envolvidas, precisamos entender de regulações e de políticas públicas, elementos importantes para que a tecnologia faça o que queremos. Meu estudo é sobre os chamados sistemas tecnossociais e como eles são insustentáveis. A forma como provemos energia hoje, por exemplo, causa grandes problemas, então temos de mudar isso, o que não é fácil. Chamamos essa grande mudança de sistema de transição ou transformação. Dessa forma, meus colegas e eu desenvolvemos uma nova disciplina denominada “Transições para a Sustentabilidade”. Então, o que vocês podem mudar, aqui em Goiás, que tem luz solar abundante, para ter mais recursos renováveis? Como mudar, se todo mundo usa petróleo e etanol? Temos desenvolvido estudos sobre isso, temos várias publicações, trabalhamos com políticas e práticas, temos muitos projetos, aprendemos bastante e criamos uma grande comunidade na Holanda e na Europa. Meu trabalho, em particular, foi ver se ideias desenvolvidas por essa rede podem ser usadas em outros lugares, então a maior parte da minha pesquisa foi na Ásia, para onde viajei para testar algumas soluções. Marcelo [Tete, professor da Face/UFG] conheceu meu trabalho e me convidou para promover o campo das Transições para a Sustentabilidade por aqui e ajudar a estabelecer uma rede de pesquisadores, pensando em novos projetos que possamos fazer juntos, talvez aqui mesmo no Brasil, aplicando essa nova forma de pensar.

É desafiador pensar nessa transição, tendo em vista a lógica mercantil. Você acha que há espaço tanto para o mercado, para o capitalismo, quanto para a sustentabilidade?

Não vejo as duas coisas separadas. Podemos continuar desenvolvendo, mas de uma forma que não cause impacto ao meio ambiente. É disso que trata o campo das Transições para a Sustentabilidade. É também sobre o começo de uma discussão. Penso que aqui não há muita discussão pública sobre o que queremos. Esse estilo de vida é bom para nós? Estamos felizes com ele? Na Holanda, e globalmente, há uma grande discussão sobre as implicações do nosso estilo de vida, sobre o impacto  que o grande uso dos recursos naturais causa ao meio ambiente. Se você destrói as matas, você contribui para as mudanças climáticas, ocorrem deslizamentos de terra, pessoas morrem, a economia é afetada… É uma escolha que a sociedade tem de fazer. Mas, pelo menos, você precisa dar início à discussão, para as pessoas estarem cientes das implicações.

O mundo parece estar dando um passo para trás na questão da sustentabilidade, como a decisão do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Mesmo com esse cenário, você se considera otimista?

Sou otimista porque, mesmo com o Trump nos puxando para trás, creio que há muitas pessoas tentando mudar e fazer as coisas diferente. Na Holanda, o governo também não promove muito os recursos renováveis, porque temos combustível suficiente, como vocês aqui têm etanol e petróleo. Mas as pessoas não querem isso, não querem esse estilo de vida, então elas pressionam por mudanças, e isso vêm de baixo. É algo que deveríamos usar para adotarmos diferentes estilos de vida. Mas é claro que seria bom se houvesse acordos e mais políticas em nível global. Protocolos de mudanças climáticas ditam muitas coisas, abordam educação para a sustentabilidade e ajudam a conscientizar as pessoas. Mas, de novo, ainda não estamos lá porque realmente esse é um processo muito longo.

Qual a importância de trazer essa discussão para a universidade?

Tivemos uma discussão hoje e os estudantes estavam bastante pessimistas. Eles achavam que não é possível e eu disse a eles: eu vi coisas que são possíveis! Mas isso significa que não devemos esperar pelo governo ou pelos professores, temos de começar a fazer alguma coisa. Nossos estudantes, por exemplo, projetaram um ônibus movido a ácido fórmico que está sendo testado no câmpus. Eles também projetaram um carro solar e um drone que ajuda pessoas com deficiência dentro de casa. São estudantes que pensam sobre o que mudar no mundo, porque estão motivados e veem que algo está errado. E essas pessoas é que serão nossos líderes, elas que tomarão as decisões. Então, educação é muito importante.

Grupo de Sustentabilidade

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Categorias : Entrevista Edição 99

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