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Retranca Mesa-redonda UFGInclui

A vida após o UFGInclui

Inserção no mercado de trabalho e preconceito são apontados como desafios pelos egressos do programa

Rádio Universitária e Secom

Criado em 2008, o programa UFGInclui estabelece a criação de uma vaga por curso e turma, quando houver demanda, para estudantes indígenas e quilombolas, além da reserva de 15 vagas para estudantes surdos no curso Letras: Libras. O programa cumpre um importante papel ao garantir a entrada de grupos historicamente excluídos no espaço acadêmico. Mas ainda há desafios a ser enfrentados. Entre eles, o espaço social e o mercado de trabalho.

Para discutir sobre o assunto, a mesa-redonda desta edição recebeu os egressos Marta Quintiliano, Marciano Alves dos Santos e Leonilson Canela. Marta é Relações Públicas e discente do programa de pós-graduação em Antropologia Social da UFG, Marciano é mestre em Química e Leonilson é advogado e mestre em Direito Agrário pela UFG.

 

Quais são os principais desafios enfrentados após a conquista do diploma?

Marta Quintiliano - Um dos desafios é o mercado de trabalho, porque quando a gente está formando, fica naquela perspectiva. Por exemplo, eu, nas Relações Públicas, eu tinha a impressão de que eu já iria trabalhar na área. Mas eu percebi que não, sendo um dos motivos o racismo institucional. Nós, como cotistas, de uma certa forma, nós não temos a visão ampliada de como vai ser lá fora. Até porque, dentro da universidade, a gente já se desgasta tentando permanecer. Eu fiz Relações Públicas, que já é um público mais elitizado. Eu negra, na turma de 50 pessoas brancas. Todas já tinham trabalho garantido. E eu, vinda de comunidade, não tinha esses padrinhos para poder inserir-se nesse mercado. Trabalhei na TV UFG por um período de três anos, que foi um período muito curto, mas que já me deu experiência e me possibilitou entrar no mercado de trabalho. Daí, então, eu vou para a Antropologia, seguir a carreira acadêmica, porque eu acho que esse é um caminho que estudantes indígenas e quilombolas podem ter, além do mercado de trabalho formal. Porque estar na universidade como docente também é importante, até para os quilombolas e indígenas que vierem para a universidade perceberem que podem seguir a carreira docente também. A minha experiência com o mercado de trabalho foi meio frustrante. Existe vida após o UFGInclui, então… ficou essa questão e eu acabei indo para o meio acadêmico.

Marciano Alves - O principal desafio hoje, quando se forma, é o mercado de trabalho, é a falta de experiência. Eu fiz licenciatura em Química. A minha trajetória foi diferente, porque a minha experiência eu consegui antes de formar, pois trabalhei em cursinho, em colégio particular, e entrei no Estado como contratado. Foi assim que eu comecei a ter experiência, porque, quando você sai da universidade, essa experiência faz diferença quando você vai disputar uma vaga com alguém. Isso depende de curso para curso. Com relação à minha experiência, o que me ajudou, também, foi a iniciação científica e a monitoria. Isso tudo ajudou no meu currículo. Quando eu formei, já estava dentro do mercado de trabalho. Mudei de estado e no Tocantins também consegui me inserir no mercado de trabalho. Só que o meu objetivo sempre foi fazer pós, mestrado, e fui para o Tocantins, comecei lá a trabalhar. Seis meses depois eu voltei, porque passei no mestrado.

Leonilson Kanela - Antes de tudo, queria dizer da importância de se falar sobre essa questão. Desde já a gente percebe que o programa é muito importante para inclusão de um segmento de pessoas que hoje se encontra de certa forma excluído da sociedade, como coletividade e grupo. Então, inicialmente, eu queria falar dessa importância do programa. Assim como a Marta, eu partilho dos mesmos desafios, porque eu também formei em um curso elitista, que é o curso de Direito. Sou indígena, sou Kanela, sou do Mato Grosso e vim para cá muito novo, com 17 anos, para poder iniciar o curso. Eu logo me deparei com essa questão que a Marta se deparou. Eu cheguei ali e me deparei com um know how de pessoas de família de juízes, advogados e eu era simplesmente um indígena. Eu não tinha esse know how todo de profissão e de expertise na família para ingressar na carreira. Com certeza, isso coloca grandes desafios, porque você vai ter de começar a construir a sua trajetória profissional sem nenhum conselho, OAB, ou auxílio extra. Obviamente este é um grande desafio. Eu, assim como os colegas, optei pela carreira acadêmica, até mesmo porque, quando eu comecei o curso, uma das grandes perspectivas que a gente se apaixona é pela academia, como a gente já não tem essa expertise, temos ali uma proximidade com a academia, até mesmo para tentar entender onde a gente está inserido, quais são os desafios e as propostas. Nesse sentido, eu também me aproximei da iniciação científica, espaços de discussão na UFG, do Núcleo de Direitos Humanos, que hoje já está consolidado. Eu ingressei em 2009. Tudo no sentido de ampliar as minhas perspectivas profissionais no campo do Direito.

Mesa-redonda UFGInclui

Marta Quintiliano: É preciso pontuar o preconceito contra a mulher negra no mercado de trabalho (Natália Cruz)

A partir do que vocês expuseram, das próprias experiências, o que precisa se feito para que esses enfrentamentos sejam minimizados?

Leonilson - Eu sempre pensei, na verdade, em toda a minha trajetória ⎼ até conversando há pouco com os colegas que entraram pouco depois que eu, que saíram da academia um pouco depois ⎼ que a UFG, na construção dessa política de inclusão do UFGInclui, ela tem que pensar um pouco também na permanência. E eu acho que uma das grandes propostas da permanência é criar espaços que efetivamente preparem esses estudantes para o mundo do trabalho. Claro, existe uma etapa que é a permanência, que é saber como esse aluno vai lidar, vai se desenvolver no curso. E aí existe uma série de dimensões sociais, econômicas e até psicológicas, porque realmente é um choque, um outro mundo que você passa a vivenciar e que você não tinha nenhuma noção. Mas também trabalhar na perspectiva de informação para a profissionalização e o direcionamento das opções. Por exemplo, no meu curso, que é o curso de Direito, você tem um leque amplo de opções. Mas como isso é apresentado e trabalhado especificamente para os alunos do programa UFGInclui? Seria uma questão que poderia ajudar aí na construção, ampliação e implementação do programa.

Marta - Em 2013 surgiu um coletivo chamado “Coletivo de União dos Estudantes Indígenas e Quilombolas”. Esse coletivo tinha o intuito de demandar, explicar para a Universidade o que nós estávamos precisando, que ela não estava conseguindo enxergar. Assim como o colega disse, a gente tem, lá no documento está dizendo “permanência a garantir”, mas só que as informações não chegam para a gente quando a gente está de forma espalhada dentro da universidade. As informações não chegam. Elas começaram a chegar a partir do coletivo. Juntamos. Aí, começaram as pessoas a dizer: “Olha, essas informações não estão chegando até a gente. Qual é o mecanismo de comunicação que a UFG está usando para que a informação chegue ao estudante e ele tenha acesso a ela?”. Eu, por exemplo, não tive bolsa permanência MEC. Era um direito meu, e eu não fiquei sabendo por conta de falta de informação. Tive de trabalhar na casa dos outros como empregada doméstica durante mais de três anos da universidade. Como vou concorrer por igual, se eu não tenho condições de permanecer na universidade, com uma pessoa que faz estágio? Então, assim, uma questão vai puxando a outra, que é a questão de permanecer, de ter o dinheiro para ficar dentro da universidade, de comer, se alimentar. Eu estou no mestrado e a mesma coisa continua a se repetir, que é a questão das bolsas. Quando a bolsa atrasa, como que eu vou estudar com fome? Isso já ocorreu comigo. Tive 20 dias de atraso e eu não tenho condições, pois não tenho família com condições financeiras, e eu só vivo praticamente da bolsa. Então, são questões que precisam ser de fato garantidas. Não é só estar no papel. Mais uma vez, o UFGInclui é muito importante. Somos 300 estudantes, entre indígenas e quilombolas, e temos quatro mestres ⎼ dois indígenas e dois quilombolas ⎼ e alguns que estão fazendo pós-graduações. É importante conquistar esses espaços, mas, mais uma vez, é importante que percebam isso: como essa pessoa vai permanecer, como ela vai concorrer, de igual para igual, com uma pessoa que está, às vezes, com uma qualificação um pouco acima da gente por esses motivos? E outra coisa que a gente tem de pontuar é o preconceito. Ainda mais o preconceito contra a mulher negra. Porque eu já fui em algumas entrevistas. Por mais que o meu currículo tivesse tudo o que eles queriam, eu sou uma mulher preta e o mercado é racista. A gente tem de pontuar isso. Não tem como a gente ignorar isso. Porque se a universidade é uma formadora de opiniões e pessoas, é necessário que a sociedade também comece a pensar e a abrir espaço para esse estudante que está ali dentro da universidade e que, quando vai para o mercado de trabalho, se depara com esse racismo, muitas vezes velado, mas que existe e que exclui. Porque nem todo mundo vai voltar para comunidade. Às vezes você quer ajudar sua comunidade daqui. Porque lá não tem emprego. Então a gente precisa de políticas públicas. Eu sei que as dificuldades existem e precisam ser, de alguma forma, pensadas para que esses estudantes tenham futuramente trabalho. Porque não adianta só formar massivamente e não ter espaço de trabalho para esses estudantes.

Leonilson - Só uma questão, o que ela coloca sobre o racismo. Essa questão é muito presente. Embora a minha profissão seja liberal, não tenha um chefe, nem patrão, você tem também todo esse espaço institucional sendo reproduzido, tanto como negro, indígena, enfim, todos procuram esses espaços. É o exemplo que a gente teve da advogada do Rio de Janeiro que foi algemada, passou por uma situação degradante justamente, penso eu, por uma questão racial. Eu queria pontuar, porque isso na sua fala é muito importante.

Marta - E não é o fato de ela não ter conhecimento, ela tem o conhecimento. Muitas vezes nós temos o conhecimento além dos que não são negros ou indígenas. Na verdade, a gente sempre tem de ter esse conhecimento a mais, se o meu colega sabe A, eu tenho de saber B e C, porque, mais uma vez, é como se a gente não pudesse saber menos. É como se as pessoas colocassem na cabeça que os cotistas sempre têm de ser auxiliados, e não é assim. Eu, por exemplo, fui e sou cotista e não tenho inteligência menor do que ninguém na minha sala, e é assim que se mostra o racismo institucional. Eu não acho correto se pensar assim.

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Leonilson Kanela: Como advogado, contribuo para manter nossos direitos na demarcação de terras (Natália Cruz)

Como foi a inclusão no mercado de trabalho?

Marta -  Eu não entrei no mercado de trabalho, mas fiz um estágio na TV UFG quase no final da graduação e depois trabalhei como técnica audiovisual por três anos. Posteriormente, trabalhei como secretária no UFGInclui. Foi na comunicação junto com o professor Jean [Baptista] que estávamos tentando melhorar. Porque nós temos que pensar nos estudantes que vêm lá da zona rural, que às vezes tem a barreira da vergonha. Porque quando você está na comunidade, professor é aquele que está acima de você. Sem contar que muitos, na comunidade, são professores e, quando chegam aqui, o conhecimento deles não vale coisa alguma. Então, assim, temos de pontuar quem são esses alunos. Porque muitos alunos estão na cidade e tem facilidade de falar com professores para iniciação científica, mas tem também aqueles que vêm lá das comunidades e têm vergonha. Até vencer essa barreira e passar essa etapa demora um pouco. E o coletivo ajudou muito nisso, porque quando eu estou no coletivo, nós conversamos “gente, não vamos deixar a vergonha ser uma barreira para nos tirar oportunidades”. Mas a gente percebe que alguns espaços são conquistados por vontade. Por exemplo, olha o caso do Marciano, que teve o esforço do professor em poder ajudá-lo. Não podemos dizer que é mérito dele, não disse que ele falou isso, mas percebe que não é mérito só nosso, é uma vontade. As ações afirmativas nas universidades, em mestrado e doutorado, como fala José Jorge, pesquisador das ações afirmativas, são funil, e alguns professores escolhem os alunos que eles querem escolher. E eles vão escolher alguém que demanda mais tempo? Por exemplo, eu demando mais tempo no Inglês, e esse professor está afim, ou ele vai pegar alguém que já fala inglês fluentemente? Enfim, já têm todos esses entraves. No mestrado eu estou estudando os entraves que fazem que a gente não acesse esses espaços.

Seria então os critérios subjetivos…

Marta - Sim. Por exemplo, as comunidade indígenas são bilíngues. Daí eu tenho de falar a minha lingua, a lingua dele, o Inglês, e no doutorado mais duas línguas. Quem é que está aí desqualificado? O aluno ou o professor que não sabe a língua dele? Temos um professor que não sabe e não quer reconhecer essa estrutura colonizante. Ou seja, a gente tem de pensar essa cultura que exclui as pessoas desses espaços, e muitas vezes é a própria estrutura que acaba excluindo. Por isso que existem os coletivos, para estar pontuando essas questões. Se a gente não tivesse esses espaços, não estaríamos provocando a discussão. Talvez se fosse na sua época, ou na minha também, dois anos isolados, sem saber muita informação, e quando ia perguntar alguma coisa era sempre o “Ah, depois você volta aqui”. Eu não sei o que era esse “depois você volta aqui”. Porque eu não era uma pessoa como eu sou hoje. Porque o coletivo me deu possibilidade de falar o que eu penso. Porque, na época, muitas vezes eu ia para casa chorando, pensando: “ah, eu vou ficar trabalhando o dia inteiro na casa dos outros”. E eu sempre ficava me perguntando “será que eu vou ter de trabalhar na casa dos outros porque a sociedade é racista?”. E indo para a vida acadêmica, você vai fazer outro tipo de coisa, que às vezes nem é o que você queria fazer, mas é a alternativa para não voltar para aquele trabalho subalterno que a sociedade nos impõe, nos empurra o tempo todo, mesmo a gente tendo mestrado, doutorado, pós-doutorado, duas línguas… Infelizmente o racismo é muito forte.

Marta, você citou o coletivo. Que coletivo é esse?

Marta -  O coletivo é o de estudantes indígenas e quilombolas UFG-UNEIQ. Ele foi criado em 2013 e a gente se reúne uma ou duas vezes ao mês. O objetivo é reivindicar da universidade algumas demandas, como, por exemplo, aulas de Português, porque se dizem que temos problemas de Português, nós queremos aulas de Português, Química, Física, Matemática,… Mas também queremos casa para morar. Quando nós chegamos na universidade, acabamos não tendo espaço na casa, e acho que o Serviço Social pode falar sobre isso. Porque o Serviço Social acha que 900 reais dá para morar tranquilamente em Goiânia, pagar aluguel, comer. Acreditam nisso. Então, na época, a gente fazia essas reuniões com frequência. Quando nós nos reuníamos, reivindicávamos a questão da moradia e das bolsas emergenciais, porque a bolsa demora de 30 a 90 dias, depende muito. O que acontece é que você chega na universidade e acaba tendo de voltar porque o seu pai não tem dinheiro para lhe manter nesse tempo. E você volta para casa desistindo de um sonho coletivo. Eu acredito que isso é um sonho coletivo e não individual. De alguma maneira, nosso sonho está sendo sonhado com outras pessoas. O meu sonho está junto com o sonho da minha comunidade, eu acredito que dessa forma a gente consiga acessar o UFGInclui. E eu sei que parte desse sonho eu consegui realizar com esse grupo que foi trazer mais indígenas e mais quilombolas para a universidade. E o sonho é que essas pessoas também se formem e superem o desafio do mercado de trabalho, porque eu acredito que esse desafio é bem grande, se as pessoas não começarem a se abrir para essas questões.

Leonílson - Nesse sentido do que você falou, eu concordo com tudo, mas o que queria reforçar é que o mercado de trabalho é exatamente esse: você que é indígena, negro ou quilombola precisa mostrar mais do que o normal para ter um local e uma posição nessa sociedade o no mercado de trabalho. Então mais do que saber A, B ou C eu preciso saber A, B e C e ainda dar uma pirueta no final. Então, o preconceito é muito maior. Isso porque nós vivemos em uma sociedade colonizadora, colonial, que reproduz valores eurocêntricos e que coloca, portanto, aqui um massacre constante dessas minorias. Claro que o UFGInclui é extremamente importante, mas qual é o mercado de trabalho? Lá nós vamos ter dificuldades. Alguns falam: “Ah, mas você conseguiu fazer mestrado e trabalhar”, mas isso se dá no dia a dia, e só sabe quem sofre na pele. Você pode fazer um balanço com dados e números, mas a gente sabe o que sofre na pele. É o “não”, é o fechar a cara, fechar o olho, é o estranhamento por você estar ocupando um espaço que muitas das vezes não era para você estar. Eu não sei a realidade de todos os cursos, mas no Direito, que é um curso elitista, enfrento isso desde o primeiro dia de aula e venho enfrentando até hoje, porque vivemos em uma sociedade colonizadora que reproduz o discurso de que o negro e o índio ocupam esse espaço marginalizado. Marciano colocou a questão que nós começamos mais cedo, com acompanhamento. Em 2009, quando surgiu o programa, nós éramos tratados na esteira. Então, eu também peguei a bolsa permanência, morei na CEU, mas ainda bem que eu consegui ocupar o espaço no Núcleo de Direitos Humanos, eu tive tanto a perspectiva do local que eu estava sendo inserido como a percepção de que eu não estava ocupando uma vaga de alguém, mas eu estava tomando posse de um direito histórico. Não sei como está hoje, mas isso não era o que se discutia, então, você trazia ali, desde a inserção, uma inclusão meio sem permanência e sem outras discussões, trazia esse estigma de que você não deveria ocupar esse espaço, isso em 2009. Hoje, a realidade é outra, porque a universidade está muito mais diversificada. Com certeza, promover espaços de discussão e conscientização dos direitos das pessoas que estão ali irá municiar as pessoas ⎼ claro que não vai resolver o problema do mercado ou da sociedade toda ⎼ mas vai municiá-las para enfrentar isso. Porque o importante é enfrentar isso. Vai melhorar? Eu não sei, mas o importante é continuar enfrentando. O que nós estamos sofrendo é o movimento conservador ao contrário, e o mercado é isso aí. O que vamos fazer? Acho que o espaço é municiar para o enfrentamento na academia, mas também no mercado de trabalho.

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Marciano Alves: quilombola formado pela UFG que hoje disputa vaga como professor no Instituto Federal (Natália Cruz)

E como que ficou o contato de vocês com a comunidade de origem? Após a conclusão do curso.

Leonilson - No meu caso, temos passado por um processo de conflito de demarcação de terra, e, nesse sentido, o que eu represento como advogado tem servido para as ações que a gente precisa mover para manter o direito garantido, embora eu não tenha retornado diretamente para lá. Porque como você disse, a UFG trata a gente assim: forma e volta. Como se fosse uma exclusão, é como se dissesse “eu vou lhe incluir por cinco anos e depois você tem de voltar”, como se não houvesse uma comunicação com o mundo “indígena e branco”. Infelizmente, essa é a perspectiva tanto da UFG como da sociedade. Eu, particularmente, tenho trabalhado nessa frente. Eu chamo a responsabilidade para mim como advogado, porque a minha comunidade é carente de ter informação quanto às áreas indígenas. E eu fiz o meu mestrado nesta área no Direito Agrário. A gente tem um embate grande nesse sentido. A gente tem também outra parente da nossa comunidade formando em Direito, o que é muito importante, obviamente, porque vem compor esse espectro, que pode garantir muito na questão de Direito. E não só na nossa comunidade, a gente participa disso e de outros coletivos.

Marciano - O meu contato depois da graduação, a minha volta é mais em férias, janeiro e julho. Também, como eu fui um dos primeiros a entrar no UFGInclui, com as cotas em 2009, eu também, muitas vezes..., muitos, depois, se espelharam em mim, na vontade de estudar. Outros jovens da minha comunidade vieram, e também ingressaram no ensino superior na Universidade Federal do Tocantins. Hoje somos mais de 50 e eu fui o primeiro. Eu dei palestras na época, sobre a UFG, falei de outras universidades também com cotas para quilombolas. Nós servimos de exemplo.

Marta - É importante mesmo, porque estamos acessando esse espaço. Eu, pessoalmente, fico muito sentida, porque eu gostaria de fazer mais para a comunidade. Mas, de toda forma, eu entendo que, estando aqui, igual o Marciano falou, a gente acaba dando esse exemplo para as pessoas seguirem. É igual a Vercilene fala, uma colega quilombola que também está na pós-graduação: “Nossa família não é só a minha, mas é uma família que aumenta”. Então, quando eu penso isso, eu sei que a minha comunidade não é mais só a de Trindade, ela se estendeu. Por mais que eu ache que eu deveria estar fazendo mais coisas lá, eu sei que aqui na UFG eu estou fazendo coisas que beneficiam a minha comunidade e outras comunidades também. E eu acho que é bem isso, não é só fazer para a sua, quando você está no universo coletivo. Não é chegar na UFG e achar que as ações afirmativas são só para mim e colocar tudo em uma caixinha, como muitas vezes eu vejo ocorrer com as políticas de permanência. Porque quando você tem 3 indígenas e 4 quilombolas, ótimo, porque tem bolsa e casa para todo mundo. Mas e quando tem 300? Aí começam os problemas. Então a minha atuação, apesar de ser mais na UFG, eu tenho também em Trindade, viabilizando as informações. Porque a gente acredita que todo mundo tem informação, que todo mundo tem acesso a internet. Mas não é assim. Eu, por exemplo, tive acesso à internet na minha casa este ano.

E para finalizar, eu gostaria que vocês dissessem qual a importância de um programa como o UFGInclui no combate às desigualdades históricas?

Marta - Eu acho que o exemplo, mais uma vez, é nós estarmos aqui, mestres e alguns no doutorado. Isso é importante não só para a comunidade externa, que são os indígenas e negros, porque provoca uma discussão na sociedade e, mais uma vez, vem a questão de uma reparação social para povos que foram historicamente massacrados. Então, a gente estar aqui neste espaço e ter a viabilidade dessa política, quer dizer que essa política está no caminho certo. Nós temos muitas críticas, mas eu acredito que essas críticas são necessárias para que funcione melhor para quem estiver vindo. Aproveitando a oportunidade, eu gostaria de convidar a todos para acessar o site de um evento:o 1º Encontro Nacional dos Quilombolas, que vai acontecer em Cavalcante (GO), em que vamos discutir sobre os 10 anos das ações afirmativas nas universidades e vamos falar, também, sobre permanência no ensino superior. Então, o que as cotas fizeram: provocaram a nossa união como estudantes e nossa articulação, até mesmo para poder exigir alguns direitos que são nossos e que, às vezes, não sabemos. O UFGInclui é exemplo para outras universidades, principalmente na pós-graduação. Por mais que tenha várias críticas, a UFG é uma universidade que tem cotas em todos os programas de pós-graduação, e cursos de outras universidades estão pegando a UFG como exemplo. Eu tenho, não sei se a palavra certa é agradecimento, mas eu acho que o UFGInclui me deu a oportunidade de poder sonhar uma outra vida, por mais que a gente chegue no mercado de trabalho e se depare com todas essas questões, mas fez a gente se potencializar e dizer “aqui vocês não vão nos colonizar, porque aqui nós somos a resistência”. E a resistência agora está se formando: advogados, engenheiros, químicos, relações públicas… nós estamos nos formando. O que faltava para a gente era abrir esse espaço. A UFG está muito plural, o que ela era em 2011 e o que ela é hoje, eu posso dizer que mudou bastante. Eu tenho certeza absoluta que foi pelas ações afirmativas.

Leonilson - Eu vejo assim a importância desse programa, e não só na UFG, mas também em outras instituições. É ver a possibilidade de um médico indígena, um advogado indígena… ver quilombolas, também, ocupando esses espaços de decisão e de poder. Quando falamos em formar o profissional, nós estamos falando, também, de uma disputa de poder. É o comunicador, é o advogado que vai pleitear, o juiz que vai decidir. É possível pensar em um espaço que vai ser ocupado por quilombolas, indígenas, brancos… ou seja, compor o que temos como diversidade nesse país. Então, eu creio que o programa avança nesse passo e nesse sentido. Porque, antes de 2009, pensar essa pluralidade, especificamente na minha área, por exemplo, pensar em negros, mulheres no STF e, por que não, composto por indígenas e quilombolas. Ou seja, ter de fato uma representatividade nas esferas de poder do povo que efetivamente compõe esse país, eu acho extremamente importante e necessário, e o programa tem se constituído nesse sentido. Claro que têm problemas, coisas que podem ser apontadas, e nós temos justamente esse papel de falar, criticar e analisar. Mas a importância está posta: distribuir o poder. E o poder não está só nos cargos de estado, mas eu poder estar efetivamente participando da sociedade e não estar aí relegado a um espaço de exclusão. Isso é extremamente  importante, tanto na graduação como na pós-graduação.

Marciano - O UFGInclui, no meu caso, foi de extrema importância, na trajetória de quilombola. Nossa trajetória é semelhante, fomos os primeiros a fazer o curso superior. Podemos pensar que, se não fosse o UFGInclui, nós não estaríamos aqui. E eu posso dizer que esse espaço que nós ocupamos a partir de 2009, jamais teríamos a possibilidade de ocupar. Hoje mesmo já estou disputando vaga como professor no Instituto Federal. Se não fosse o programa, nem eu e nem ninguém da minha família poderia ter ocupado. Hoje nós já estamos disputando e ocupando esses espaços. Antes jamais poderia se pensar, por exemplo, de um quilombola como secretário de Educação, por exemplo. É uma questão de ocupação de espaço. Apesar das falhas, desde a criação e algumas que permanecem até hoje, ele possibilita que muitas outras pessoas venham e ocupem esse espaço.

Rodapé

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Mesa-redonda Edição 98

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