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Intercâmbio UFGInclui

Intercâmbio contempla acadêmicos do UFGInclui

Edital Abdias Nascimento incentiva acadêmicos negros, quilombolas, indígenas e com deficiência a estudarem no exterior

Gustavo Motta

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) oferece, por meio do Edital Abdias Nascimento, uma oportunidade para que acadêmicos autodeclarados pretos, pardos, indígenas e com deficiência possam realizar intercâmbios no exterior. “É uma iniciativa pioneira, pela qual podemos encaminhar três alunos neste semestre, sendo dois de graduação”, comemora o professor da UFG, Roberto Cunha Alves de Lima, que coordena, na Faculdade de Ciências Sociais, o projeto responsável pelo encaminhamento dos discentes, promovido por uma parceria entre a Universidade e o Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (Ciesas), instituição mexicana presente em várias cidades do país latinoamericano.

O primeiro graduando intercambista da UFG foi José Henrique Cavalcante Silva. Contemplado pela iniciativa, como ingressante quilombola, o graduando viajou em 31 de agosto em direção ao estado mexicano de Yucatã, onde está desempenhando uma pesquisa, com duração de 12 meses. O jovem cursa o oitavo semestre do curso de Relações Internacionais e acredita que a oportunidade traz maior confiança com relação ao futuro acadêmico e profissional. “Paralelamente à alegria, surgem outros sentimentos, como ansiedade e preocupação ⎼ por se tratar de uma viagem com longa duração, o peito também aperta pela saudade de casa, da família”, afirma.

Intercâmbio no México

Primeiro intercambista do UFGInclui foi para Mérida, maior cidade do estado Ycatã, no México (Arquivo Pessoal)

Em sua diligência ao México, o graduando está desempenhando uma pesquisa sobre a inserção dos imigrantes haitianos nos campos social e de trabalho no país, com o fim de realizar um estudo comparativo entre as condições encontradas por esses indivíduos no Brasil e no país norte-americano. Com o objetivo de combinar Antropologia e Relações Internacionais, José Henrique tem investigado as políticas migratórias, levando em consideração a perspectiva étnico-racial, como fator que exerce influência sobre os processos de migração e inserção em outro território nacional.

“A imigração haitiana trouxe, aos estudos sobre migração, novos desafios e perspectivas, e Brasil e México figuram como peças importantes, seja como destino final, seja como rota de trânsito”, avalia. Ao entrar em contato com a realidade mexicana, José Henrique afirma que “conhecer as nuances dos processos migratórios pode fornecer instrumentos para a proposição de novos caminhos ao estudo sobre migração, além de novos caminhos para as políticas migratórias do Brasil”. Visto que o intercâmbio ocorre em cooperação com o Ciesas, o estudante vai contar com o amparo estrutural da instituição, que tem reconhecimento internacional em pesquisas sobre migração, política e áreas afins.

 

Um kalunga na terra dos maias

Intercâmbio

Além da formação acadêmica, José Henrique Cavalcante também quer conhecer a cultura local (Arquivo Pessoal)

A unidade do Ciesas em Yucatán está localizada em Mérida, capital do estado, com cerca de 800 mil habitantes. Construída sob ruínas da civilização maia, a localidade ainda guarda heranças ameríndias no vestiário e abriga, nos arredores, o que restou de três pirâmides erguidas pela civilização pré-colombiana. Sendo assim, José Henrique espera obter um aprendizado ⎼ além do possibilitado pela pesquisa ⎼ sobre a cultura, o idioma e os modos de vida locais. O graduando destaca a representatividade contida na relação entre as suas origens e sua nova trajetória: “Não é todo dia que um estudante quilombola do interior de Goiás faz intercâmbio internacional, conhecendo nossas estruturas excludentes. Espero que essa experiência possa repercutir entre os kalungas”.

Originário da comunidade Kalunga, o rapaz conta que o acesso à Universidade possibilitou o contato com um mundo mais amplo, diferente do pacato clima interiorano. Os kalungas são quilombolas assentados nas proximidades da Chapada dos Veadeiros, no Norte Goiano. José residia no município de Cavalcante. Essa população é contemplada, no acesso e na permanência, pelas ações do UFGInclui ⎼ a exemplo da disponibilização de vagas nos cursos, via política de cotas. Sendo assim, o acadêmico acredita que a experiência dele pode inspirar mais pessoas, negras e quilombolas, a entrarem no espaço da academia. “Que sirva como exemplo de ocupação dos espaços e de novas perspectivas e sonhos, cada vez mais altos para estudantes negros”, espera.

 

Um negro que ousou pelos outros

O professor da UFG, Roberto Lima, pontua que o Edital Abdias Nascimento homenageia uma importante figura na luta contra o racismo no Brasil: o economista, escritor, dramaturgo e intelectual responsável pela criação de uma das mais notáveis experiências de valorização do negro na arte nacional ⎼ o Teatro Experimental do Negro (TEN). Nome importante sobre as discussões e reflexões acerca da negritude na sociedade brasileira, Abdias do Nascimento (1914-2011) esteve à frente do TEN por 24 anos, desde a sua fundação em 1944.

Com o endurecimento das políticas repressivas do Regime Militar, decidiu se exilar nos Estados Unidos por dez anos. Ao retornar, em 1978, ingressou em atividades políticas, chegando ao posto de Senador da República entre 1997 e 1999. Uma de suas mais relevantes atuações foi o apoio ao movimento de instituição do 20 de novembro como o Dia Oficial da Consciência Negra. Sua trajetória de vida e luta ainda é exemplo aos que militam pelas questões de recorte étnico-racial no Brasil. “Assim como Abdias Nascimento teve sua vida de lutas e resistências, espero que a minha experiência possa servir de exemplo”, afirma o estudante José Henrique.

 

 Edital

Rodapé

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Ensino Edição 98

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