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Retranca Pirenópolis

Pirenópolis inspira pesquisas em diferentes áreas

Cidade goiana levou pesquisadores de programas de pós-graduação da UFG a estudar o turismo, a culinária e a moradia

As riquezas históricas, culturais e naturais que atraem milhares de pessoas todos os anos a Pirenópolis também despertam o interesse de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Na Universidade Federal de Goiás (UFG), a cidade foi o pano de fundo para pesquisas nas áreas da Antropologia, da Arquitetura e das Ciências Ambientais, que revelam aspectos ligados ao trabalho das quitandeiras, às moradias de comunidades alternativas e à Festa do Divino Espírito Santo, respectivamente. Além dos novos olhares lançados a Pirenópolis, a seus costumes e tradições, as investigações acadêmicas refletem a diversidade de temas que emergem do lugar.

 

Quitandas que aguçam o paladar e transformam a dinâmica social

Gustavo Motta

Quitandeiras

"Em Pirenópolis, as quitandas participam da dinâmica social", destaca a mestre em Antropologia Social Katia Karam Toralles, que pesquisou os modos de vida e o trabalho das quitandeiras no município. "Perceber os alimentos é uma tarefa fácil e gostosa, uma vez que eles estão nas refeições dos lares pirenopolinos e são encontrados à venda pelas ruas. No entanto, muitas vezes, as mulheres que os preparam ficam invisíveis, com suas histórias de vida e trabalho", lamenta Katia.

O estudo, realizado na Faculdade de Ciências Sociais da UFG, problematiza essa invisibilidade e destaca o trabalho das quitandeiras como atividade de empoderamento e de mudanças na dinâmica urbana. O consumo de quitandas produzidas localmente faz parte do dia a dia da cidade interiorana, onde as mulheres geram renda e movimentam a economia por meio do preparo e venda de biscoitos, doces e bolos.

Com o auxílio de moradores e de placas comerciais nas ruas da cidade, foi realizado um mapeamento que identificou mais de 30 quitandeiras, das quais nove foram entrevistadas. "Busquei conversar com mulheres que estavam nessa atividade há tempos distintos", pontua. Além das entrevistas, o recolhimento de dados contou com o registro audiovisual e a observação do processo produtivo, de modo que a pesquisadora pudesse participar da atividade, interagindo com o ambiente criativo.

"Acompanhando as quitandeiras em sua lida no espaço de trabalho que, muitas vezes, é o local de moradia, recolhi depoimentos vivazes sobre suas histórias de vida", rememora. Foi no espaço doméstico que a investigadora passou a entender a linguagem estabelecida na produção – das falas à organização do espaço, dos utensílios e do tempo. "Os discursos apreendidos falam de histórias de vida, de receitas passadas de geração em geração, da vivência em uma cidade em transformação, e de um saber que se tornou fonte de renda".

Katia Toralles percebeu ainda que existem diversos arranjos de conhecimentos e meios produtivos, que variam conforme cada quitandeira. Sendo assim, as receitas permanecem submetidas a um processo de construção e reconstrução, por meio de experiências sensíveis, individuais ou coletivas. A pesquisadora concluiu, com base nessas experiências, que “se revelam dinâmicas que conjugam o tempo presente, em transformação, mas que também estão ligadas com o passado, de uma cidade histórica que resguarda sua herança culinária”.

Quitandeiras

Irma Oliveira, quitandeira que aprendeu o ofício com gerações anteriores, em seu ambiente de criação (Marisa Vaz)

Transformação
"Inicialmente, eu acreditava que a comida estava deixando de ser 'tradicional', à medida que passava por mudanças nos ingredientes ou no modo de preparo", lembra. No entanto, com o processo de investigação, foi percebido que os sujeitos locais participam dos novos fluxos de informações, produzindo transformações no imaginário social sobre a alimentação, em contraste à ideia de tradição como algo rígido e imutável.

No âmbito das transformações na dinâmica econômica local, a produção de quitandas tem acompanhado as mudanças vividas na cidade nos últimos 20 anos, relacionadas ao crescente turismo e à chegada de novos moradores. Como exemplo de novos tempos, a produção das quitandas tem deixado de ser exclusivamente doméstica para conquistar espaços no mercado turístico.

Nesse contexto, muitas mulheres passaram a ocupar espaços além do âmbito exclusivamente doméstico. Sendo assim, o contato do mercado com a herança culinária propiciou o empoderamento dessas mulheres, cujo trabalho, antes legado ao privado, passou a ter o reconhecimento pelas ruas históricas da cidade.

Visibilidade
"Há muito tempo, pessoalmente e profissionalmente, tenho me ocupado tanto com o preparo e o consumo dos alimentos, quanto com as relações de gênero", destaca. Desse modo, a produção desse conhecimento vai ao encontro da necessidade de se discorrer sobre as transformações no mercado alimentício e nas dinâmicas urbanas, além de ser um aporte para o reconhecimento das próprias quitandeiras como sujeitos e agentes das mudanças sociais e históricas, no âmbito da localidade.

"Compreender o seu papel e a sua importância no contexto social amplifica sua autoridade, projetando as mulheres como cidadãs participantes no desenvolvimento da cidade, e possibilitando uma reflexão sobre novos arranjos domésticos e de mercado que a produção artesanal de quitandas tem produzido". Sendo assim, a autora destaca que a pesquisa sobre o trabalho das quitandeiras cumpre a função social de colocar a mulher como agente fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e harmônica.

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Refúgio e aconchego nas comunidades alternativas de Pirenópolis

Da Redação*

Moradias alternativas

Ouvir o canto dos pássaros, observar o crescimento das plantas, respirar ar puro, contemplar um céu estrelado. Essas ações são cada vez mais raras nas grandes cidades, onde seus habitantes têm um cotidiano agitado e pouco contato com recursos naturais. A vida na natureza pode ser uma alternativa para quem deseja morar em um ambiente aconchegante e fugir da sensação de insegurança cada vez mais presente no meio urbano.

Uma pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade, da Faculdade de Artes Visuais da UFG, mostra a dinâmica de pessoas que saem de grandes cidades e vão para localidades menos urbanizadas. Neste caso, a partir do contexto das comunidades alternativas de Pirenópolis. O objetivo do estudo foi mostrar espaços de refúgio existentes no município e quais elementos materiais e simbólicos trazem uma atmosfera de aconchego e paz aos seus moradores.

A pesquisadora Maria Cristina Furtado, que realizou o estudo durante o mestrado em Arquitetura e Urbanismo, conta que, durante o levantamento de campo de espaços de refúgio nos arredores de Pirenópolis, foram identificadas várias casas que fizeram parte de antigas comunidades alternativas, que surgiram no município a partir da década de 1980.

"Hoje, esses lugares não existem mais como espaços de vida coletiva, como eram quando foram criados. Porém, algumas pessoas que fizeram parte dessas comunidades ainda habitam essas casas e, com base em seus depoimentos, foi possível contar a história desses espaços", explica. A pesquisa foi orientada pela professora Eline Maria Moura Pereira Caixeta, professora da FAV.

Além do registro histórico do contexto ligado à contracultura e ao movimento hippie em Goiás, a pesquisa fez uma análise dos elementos da arquitetura, dos interiores das casas e do modo de vida desses moradores, por meio de uma metodologia baseada na Fenomenologia da Arquitetura e em autores ligados à Filosofia. Outras casas que não têm ligação com o movimento alternativo também fizeram parte do estudo. As informações foram coletadas através de relatos dos moradores, visita presencial e fotografias. Foram usados também arquivos de jornais da década de 1990 e anos 2000 sobre as comunidades alternativas.

Moradias alternativas

Durante a pesquisa, Maria Cristina conversou com moradores e produziu fotografias dos ambientes (Arquivo Pessoal)

Aspectos materiais e simbólicos
A maioria dessas casas se originou de processos de autoconstrução e com o uso de materiais naturais e de baixo custo. Há a presença de tijolos de barro, feitos por meio de técnicas como o adobe, e de madeira retirada de demolição ou de árvores caídas nos bosques. Nas paredes de algumas casas são encontradas garrafas de vidro e para-brisas de carros, que foram reaproveitados. Além de decorar, formando desenhos, levam luminosidade aos interiores. "Muitas vezes os ambientes de dentro da casa são escuros em razão da grande presença de plantas no exterior", conta a pesquisadora.

Muitas dessas edificações não seguem normativas da construção civil, como altura de janelas, tamanho mínimo para o pé direito (altura entre o piso e o teto) ou padrões estéticos. O mobiliário presente é simples e a decoração é feita com objetos afetivos, como imagens religiosas e fotografias de família. O artesanato também figura nos espaços. "Observei que a maioria desses moradores tem uma relação afetiva com esses objetos e os ambientes em que vivem. Há preocupação estética sim, mas isso não está relacionado com 'o que os outros vão achar'", analisa.

Em muitas casas, privacidade e intimidade nos ambientes também fogem dos padrões normalmente encontrados nas cidades. É comum ver nesses espaços de refúgio elementos como quartos coletivos, onde os moradores compartilham o momento do sono com os visitantes, e janelas baixas nos banheiros.

Conexão com a natureza
Um importante fator identificado durante a pesquisa foi a relação dos espaços de refúgio com a natureza. Para Maria Cristina Furtado, esse movimento de busca pelo contato com elementos naturais pode ser observado em diversos lugares do mundo. "Talvez, hoje, não seja mais a natureza o lugar que inspira medo ao homem devido aos animais 'ferozes' que a habitam, mas a vida agitada das grandes cidades, onde predomina a insegurança e o cumprimento de obrigações sociais que não condizem com a sua essência", explica Furtado.

A maioria dos moradores que participaram do estudo buscou um lugar menos urbanizado para ter uma melhor qualidade de vida, para se conectar com a natureza e para viver um pouco afastado de obrigações sociais. "Elas gostam de observar os animais, as plantas, buscam uma convivência harmoniosa com este meio. Falam com naturalidade, por exemplo, que de vez em quando, precisam tirar cobras de dentro de casa ou que morcegos entram nas casas", relata a pesquisadora.

* Com informações da pesquisadora.

 

Turismo na Festa do Divino valoriza saberes locais

Carolina Melo

Pirenópolis

Prática mercadológica, o turismo pode contribuir para a valorização de outros saberes e modos de vida, diferentes daqueles apreciados pela sociedade capitalista e ocidental. A conclusão é de uma pesquisa que investigou a Festa do Divino Espírito Santo, em Pirenópolis. De acordo com o estudo, realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFG, o festejo goiano gera interesse em razão de suas práticas populares, da vivência entre as pessoas, da sociabilidade e até da forma de se produzir alimentos. Desse modo, o turismo gera o desenvolvimento da cultura e dos saberes locais.

"Entrevistei pessoas de São Paulo, do Rio Grande do Sul e percebi a presença até de estrangeiros. Estavam ali exclusivamente por causa da festa popular, baseada em tradições seculares. Posso dizer que, minimamente, o turismo tem a capacidade de gerar o reconhecimento de produções locais e, ainda assim, trazer desenvolvimento econômico", afirma o pesquisador e servidor da UFG, Marco Aurélio Fernandes Neves.

De acordo com o pesquisador, antes da década de 1970, o evento no interior goiano era esporádico, ocorria um ano sim, outro não. Somente depois do interesse turístico é que o festejo foi retomado anualmente. "Outro dado sintomático é que a parte cultural do casório de Pirenópolis é mais preservada do que a parte do casório colonial de Corumbá de Goiás, cidade que se desenvolveu no mesmo período, durante a exploração do ouro em Goiás", afirma.

Marco Aurélio faz, porém, uma ressalva. O turismo pode promover o reconhecimento e o desenvolvimento de novos saberes e novos modos de vida, mas também pode inviabilizá-los. "Por exemplo, quando gera impactos socioambientais irreversíveis, decorrentes de uma compreensão deturpada do valor turístico ou mesmo imediatista e meramente econômica", explica.

Pirenópolis

Casarões históricos de Pirenópolis tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional na década de 90 (Adriano Justiniano)

Sustentabilidade
A pesquisa está inserida em uma discussão mais aprofundada sobre como o turismo pode, mesmo fazendo parte de uma racionalidade econômica e ocidental, colocar em funcionamento outras racionalidades e saberes, ditos ambientais. Ou seja, como pode ser um espaço para reunir elementos, pensamentos e modos de vida diferentes daqueles valorizados pela cultura ocidental e capitalista.

De acordo com Marco Aurélio, o turismo tem características potenciais que podem colocar dois tipos de racionalidades e modos de vida em contato. "Ou seja, alimentado pela racionalidade ocidental, ele pode ser um espaço de manifestação de uma sustentabilidade que caminhe junto com a valorização de outros modos de vida e diferentes saberes".

Entre as contribuições da pesquisa, na avaliação do professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG e orientador, Fausto Miziara, há a identificação da trajetória das manifestações populares e de seu interesse turístico, capaz de propiciar a adequada intervenção local e institucional. "Aliado à cultura popular, o turismo pode promover a geração de riquezas e o reconhecimento pelo poder público da necessidade de preservação do ambiente das comunidades e do ambiente natural".

Rodapé

Fonte : Secom/UFG

Categorias : destaque Edição 97

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