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Sociedade imigrantes

Trabalhadores imigrantes em Goiás aumentam 319% em 8 anos

Setores industrial e de serviços absorvem mão de obra estrangeira, proveniente sobretudo da América do Sul

Pedro Lopes

Manhã de junho, centro de Goiânia. Serigne Diop tenta driblar o vento forte na tentativa de manter intacto o guarda-sol sobre a banca de relógios e óculos. Em vão. Dali a pouco, a lufada o atropela de vez. Restam tecidos embaralhados entre as hastes brancas. "E agora? Já era?", questiona a reportagem. Em poucos minutos, o guarda-sol refeito está novamente lá, firme e imponente.

Refazer não é, nem de longe, atitude estranha para Serigne. Há cinco anos, o senegalês deixou seu país, mulher e família e, movido pelo anseio da descoberta, zarpou rumo ao Brasil. E decidiu ficar. Serigne engrossa as estatísticas que indicam o aumento de trabalhadores imigrantes em Goiás.

Entre 2009 e 2016, a população de estrangeiros empregados no estado aumentou 319%. É o que mostra a tese da pesquisadora Lilian Suzuki, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, cujo último levantamento foi feito em 2016.

Em 2008, eram 364 imigrantes trabalhando formalmente em Goiás. Já em 2016, este número aumentou para 1.528. Para a pesquisadora, o que mais surpreendeu, com a pesquisa intitulada Trajetórias ocupacionais de imigrantes no mercado de trabalho formal brasileiro, foi o aumento de trabalhadores estrangeiros provenientes do hemisfério sul. "Durante o período analisado, destacam-se os fluxos de imigrantes argentinos, bolivianos, paraguaios e uruguaios", explica.

Vida melhor
Apesar da forte escalada, imigrantes representavam apenas 1,32% da população goiana empregada em 2016, contra 0,74% em 2008. Suzuki explica que essas pessoas querem, principalmente, trabalhar e conseguir sustentar a família que ficou no país de origem ou que está aqui.

Nos últimos anos, o desenvolvimento industrial no estado, em setores como transformação, alimentos, fabricação de remédios e automóveis, atraiu grande parte desses imigrantes. O setor de serviços, assim como o de abate de suínos, aves e outros animais, também merecem destaque.

Outro ponto ressaltado pela pesquisadora é a formação de redes. "Como a quantidade de haitianos tem crescido bastante em Goiás, principalmente em Anápolis, Goiânia e Aparecida de Goiânia, quando um grupo vem e consegue obter êxito, começam a vir outros através das redes de contatos estabelecidas".

Serigne

Sengalês Serigne Diop dribla o vento para manter a cobertura de sua banca de camelô de pé (Pedro Lopes)

 

No Brasil, tendência é de queda

No Brasil vivem 700 mil estrangeiros, o que representa 0,5% do total da população. Segundo o professor Diego D'Ávila Magalhães, coordenador do curso de especialização em Diplomacia e Relações Internacionais da UFG, o fluxo migratório para o Brasil continua muito aquém do que foi antes dos anos 1950.

Entre 2015 e 2016 houve uma inversão da taxa de crescimento de imigrantes trabalhando no Brasil. Até 2015 esse aumento era linear. Para se ter uma noção, em 2014 eram quase 120 mil estrangeiros empregados em solo brasileiro. No ano seguinte, saltou para 131 mil. E, em 2016, caiu para 115 mil, quantidade menor que em 2014, uma queda de 11,5%.

Diego afirma que, historicamente, a migração contribuiu para a riqueza cultural, social e econômica do Brasil. "O papel do Brasil é marginal no contexto dos fluxos migratórios internacionais. Facilitar a imigração de sul-americanos beneficiaria o país e impulsionaria a integração regional".

Lilian Suzuki explica que há uma série de fatores envolvidos na diminuição desse fluxo. "A saída desses imigrantes não necessariamente se vincula à crise econômica. Pode ser que muitos deles estivessem no Brasil apenas como uma etapa de um projeto migratório", reflete.

Não é o caso do senegalês Alioune Niang, 29, que vive em Goiânia há três anos e trabalha como comerciante informal na Avenida Goiás. Ele sente saudades da família, mas não pode visitá-la por ora. Se sair do Brasil antes de obter o visto permanente, perde o provisório; e a saga para ter seu nome publicado no Diário Oficial da União como residente fixo recomeça.

Estrangeiros trabalhando no país não se traduz em perda de postos de trabalho dos brasileiros, embora haja uma tendência de culpá-los por parte do desemprego. "O migrante vem para assumir funções que os habitantes locais não querem desenvolver", afirma a professora de Sociologia da UFG, Andréa Vettorassi.

Alioune

Também de Senegal, Alioune Niang espera o dia em que obterá o visto permanente do Brasil (Pedro Lopes)

Remuneração
De 2008 a 2012, predominava entre as remunerações de estrangeiros no Brasil uma renda acima de 20 salários mínimos, concedida a profissionais que geralmente chegavam ao país para ocupar altos cargos em empresas. A partir de 2013, porém, houve uma brusca mudança: a maioria dos imigrantes passou a ter renda entre um salário e meio e dois salários mínimos.

O fenômeno ocorreu em razão da chegada, entre 2008 e 2012, de diversos imigrantes haitianos, bengalis, ganeses, entre outros oriundos de países do hemisfério sul. "Esses trabalhadores começaram a adentrar o mercado de trabalho em 2013 e é justamente nesse período que ocorreu o rebaixamento salarial", afirma Suzuki, explicando que esses estrangeiros foram inseridos em ocupações precárias.

Box imigrante


Origem étnica é via crucis

"Não que eu não esperava, mas um dado que me chamou bastante atenção foi perceber que a origem étnica é um aspecto muito importante e que pode aumentar ou diminuir as chances de um trabalhador imigrante ter uma trajetória laboral bem-sucedida no Brasil", destacou a pesquisadora.

Dados da tese mostram que houve uma intensificação do que já era sabido: existem claras barreiras para trabalhadores do sul global que limitam uma mobilidade ocupacional ascendente no mercado de trabalho formal brasileiro. Isso acontece independentemente da escolaridade, tempo de experiência e domínio do português dos estrangeiros.

Diego Magalhães explica que, em geral, a globalização transforma a maneira como o poder é exercido internacionalmente, modificando hierarquias de poder e criando riscos e oportunidades. Mas esse não é o caso do fenômeno migratório entre países do hemisfério sul. "Os fluxos culturais, sociais e econômicos entre países sul-americanos, incluindo a migração, são ínfimos em relação ao volume global desses fluxos. Por isso, geram poucos impactos nos padrões de hegemonia entre o norte e o sul globais".

Em meio a um cenário nebuloso, Alioune Niang se apega a algumas poucas certezas: acordará cedo todos os dias; montará seu camelô na Avenida Goiás, entre a Rua 4 e a Avenida Anhanguera; e levantará o dinheiro para ir sobrevivendo, na expectativa de que chegue o dia em que no Diário Oficial, ao lado de seu nome, esteja, enfim, escrito "visto permanente".

Lilian Suzuki

Lilian Suzuki defendeu sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFG (Arquivo pessoal)

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Fonte : Secom/UFG

Categorias : Sociedade Edição 96

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