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Entrevista

Esperança para resistir; resistir para ter esperança

Escritor belga percorre o Brasil para falar sobre a luta por um modelo sustentável de produção agrícola

Luiz Felipe Fernandes

Nada como um olhar externo para nos fazer enxergar nossa própria realidade. No caso do belga Luc Vankrunkelsven, um desses olhares é lançado para o modelo de produção agrícola brasileiro e os impactos em biomas como o Cerrado. Não que esse tema não esteja na pauta de pesquisadores e movimentos sociais de todo o país. Mas uma vez que a soja brasileira abastece mercados internacionais, Luc tem consciência de sua responsabilidade, como cidadão europeu, de problematizar a questão.

Militante junto à ONG Wevel, em Bruxelas, Luc Vankrunkelsven esteve na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) em junho para falar do seu mais recente livro, ocasião em que foi entrevistado pelo Jornal UFG. Entre os assuntos discutidos estiveram as alternativas sustentáveis de produção e a importância da esperança como ato de resistência.

Luc

Belga Luc Vankrunkelsven durante palestra na Faculdade de Informação e Comunicação da UFG (Adriano Justiniano)

Desde que começou a estudar a questão da soja no Brasil, o senhor consegue enxergar alguma mudança?

O principal problema é o avanço da soja, do algodão, do milho. O Blairo Maggi, o maior sojicultor do mundo, é agora ministro da Agricultura. Ele quer ampliar esse modelo até o Matopiba [território composto por áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia]. O Ministério do Desenvolvimento Agrário parou com este governo. Então é difícil para muitos movimentos sociais e para as pessoas que querem alternativas, mas eles continuam a luta. Eu participei em Belo Horizonte do quarto ENA [Encontro Nacional de Agroecologia], com 2 mil pessoas, no parque municipal. Foi muito bom e animado. Então nós, no Brasil, continuamos... Desesperados, mas ainda com esperança. Meu último artigo no livro é sobre a esperança, sobre o que é esperança. Não devemos nos paralisar, mas continuar. Inclusive espiritualmente.

O que você aborda neste seu último livro?

O título do livro é A rã que não se deixa ferver. A rã é uma metáfora para uma pessoa, um povo que não aceita tudo, que faz resistência, por exemplo, contra a mudança climática. O subtítulo é Clima em movimento – o clima mudando, mas também o clima espiritual entre as pessoas. Elas querem trabalhar juntas, cooperar para mudar o estilo de viver, seja sozinhas, seja em grupos, em sociedade. Todo ano eu faço um roteiro de cinco a seis semanas no Brasil, visitando escolas agrícolas e movimentos sociais, e os livros são instrumentos para dialogar internacionalmente. O foco, nesses nove anos, é o Cerrado. Ninguém conhece a importância do Cerrado na Europa. É o ecossistema mais velho do mundo, tem 40 milhões de anos. A Amazônia, em comparação, tem "só" 10 milhões de anos. A biodiversidade endêmica é muito especial no Cerrado, que é destruído para a soja, soja para a ração animal da Europa e da China. Eu sou europeu e sempre falo sobre a responsabilidade dos europeus. Meus livros são escritos em português, mas também em neerlandês, minha língua na Bélgica. Vamos lançar este livro também na Bélgica, no mês de setembro, para dialogar sobre como podemos mudar o rumo. Os textos são sempre crônicas. Aqui [na UFG] é um contexto acadêmico, mas não é um texto de doutorado, que muita gente não lê. Tento escrever em linguagem fácil, em crônicas, mas com muitos dados. E cada crônica, poderia dizer, é um livro, então é uma coletânea de livrinhos sobre diferentes assuntos.

Estamos assistindo a um movimento conservador ganhar força no mundo inteiro, incluindo o Brasil. Este é o momento da resistência em todos os sentidos, seja política, seja econômica, ou mesmo nas nossas convivências diárias?

Não só política, mas também política. Meu trabalho é também político. Não sou de um partido, mas tentamos influenciar a política internacional. Por exemplo, nosso escritório da Wervel, que reúne 400 pessoas de 40 organizações internacionais na Europa, está a 500 metros dos três poderes da Europa: a Comissão Europeia, o Conselho de Ministros dos 28 países e o Parlamento Europeu. Tem muito lobismo em Bruxelas: Monsanto, Bayer, Mercedes, Volvo... Todo mundo vai lá. Somos também lobistas, mas pelo outro lado. Não fazemos o nosso trabalho escondido, mas aberto na imprensa e de forma democrática. É uma resistência cultural também. Na semana que vem, por exemplo, vou para o Xingu. Tem diferentes culturas no Brasil, tem multidões de culturas no mundo, não pode ser só uma cultura americana ou europeia. Visitei o acampamento do Lula em Curitiba e vi uma manifestação de jovens de extrema direita. É assustador! Também sei que na greve de caminhoneiros houve infiltração da extrema direita. É um grande problema na Europa, nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Não sei como resolver, mas devemos continuar. Meu trabalho é falar, escrever, discutir em linguagem fácil para atingir muita gente.

O senhor acredita que a universidade é um dos últimos redutos de resistência? Que papel têm os jovens nesse cenário?

Em teoria, a universidade é um espaço de diálogo aberto. Cheguei aqui e vi escrito "resistir e ocupar". Esse pode ser um lema. Tem de resistir. Também na Bélgica é preciso. Vi que acadêmicos da Bélgica inteira fizeram uma carta aberta contra o governo pelas coisas ruins que fazem com os refugiados que querem entrar no país. É inumano o que eles fazem e os universitários reagiram. Tem de reagir. As universidades, para mim, são espaço da palavra livre.

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Fonte : Secom/UFG

Categorias : entrevista Edição 96

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