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Uma geografia do ensino superior

Pesquisador Carlos Walter Porto-Gonçalves critica o modelo de ações afirmativas adotado no Brasil

Mariza Fernandes
Foto: Carlos Siqueira

A geografia está se reinventando desde os anos 1970 para acompanhar as dinâmicas socioespaciais, cada vez mais rápidas. Um dos principais geógrafos brasileiros da atualidade, Carlos Walter Porto-Gonçalves tem um currículo marcado pela atuação junto aos movimentos sociais. Professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades (LEMTO), Porto-Gonçalves faz uma leitura crítica sobre algumas das pautas mais atuais da esquerda brasileira, entre elas as iniciativas de ação afirmativa no ensino superior.

Carlos Walter

Geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves participou do Seminário Integrado de Estudos Territoriais na UFG

As universidades brasileiras estão sofrendo uma série de transformações. Qual a sua análise sobre o ensino superior atual?

Primeiro você teve uma massificação do ensino superior. É um fenômeno que, de certa forma, está se passando no mundo inteiro. No Brasil, se você pegar os últimos anos, com os governos Lula e Dilma, explodiu o número de vagas. Agora, o que aconteceu? Ampliou-se o ensino superior, mas sem que se colocasse a universidade vinculada a algum projeto de país. Por exemplo, o programa Ciência sem Fronteiras, o nome é muito bonito, mas países como os Estados Unidos não fazem in- vestimentos em ciência e tecnologia em nome da ciência sem fronteiras. Faz parte de um processo estratégico de afirmação da sociedade norte-americana. A Alemanha não faz investimento em nome da ciência universal, da ciência sem fronteira. Além disso, temos uma universidade profundamente colonizada. Qual é a relação que a nossa universidade tem, por exemplo, com a realidade latino-americana? Parece-me que, quando a Capes fala em estimular a internacionalização, não se fala em aprofundar relações com a Colômbia, o México, a Venezuela. Ela está sempre com a visão de aproximar a relação com Harvard ou Cambridge, ou com Paris, não é? Os militares, por exemplo, no Brasil, foram um dos poucos setores da sociedade brasileira que, de alguma forma, pensaram um país. Até porque eles têm a responsabilidade de garantir a integridade territorial. E isso era mais sério ainda no século XX. O país era muito grande, com uma população relativamente pequena para o território e a única maneira de defender isso era ter uma certa inteligência, ou seja, um certo aparato técnico-científico capaz de assegurar que uma população pequena pudesse garantir a sua soberania sobre o território. Estou trazendo esse exemplo, não fazendo um elogio aos militares, embora nesse caso talvez até coubesse, mas é a preocupação de ter a ciência e a tecnologia associadas a um projeto nacional. Então, parece que, na verdade, estamos fomentando a ideia de que temos de nos inserir numa globalização sem que sejamos capazes de dizer que tipo de contribuição nós, brasileiros, podemos dar à globalização. Mesmo ao contribuir com um pouco de discriminação positiva, que é o sistema de cotas, qual é o compromisso que se tem com o Movimento Negro, com a comunidade negra? É só o projeto da ascensão social individual? E para os índios também. Parece que os indígenas foram um pouco mais hábeis, condicionando sempre a ida dos estudantes para a universidade à volta para a aldeia, para se colocar a serviço da comunidade, o que mostra também uma certa inteligência do movimento indígena.

Em uma de suas publicações, o senhor diz que os grupos que se sentem excluídos, os indígenas, quilombolas, negros etc., querem mais espaço. Depois de mais de uma década de ações afirmativas, o senhor acha que eles conquistaram mais espaço?

Não tenho uma opinião definitiva sobre isso. Eu já falei de outra maneira das limitações das cotas. Por exemplo, os "rolezinhos" em 2013. Eu acho que os "rolezinhos" eram a síntese do momento de mediocridade que marca o país, porque eram os pobres que subiram na vida e que ocuparam o espaço do shopping. E aqueles que sempre ocuparam o espaço do shopping ficaram incomodados porque havia pessoas que nunca foram acostumadas a estar ali. Na verdade, a disputa era em torno do shopping. Se isso significa ampliar o espaço, só revela o nível do rebaixadíssimo debate em que estamos. Confundimos direito ao consumo com cidadania e, com isso, se aceita a lógica do sistema mercantil. Então, para mim, não vejo como se tivéssemos ampliado o espaço para as diferenças se não formos capazes de enfrentar efetivamente as relações de poder que, na verdade, limitam a afirmação dessas diferenças.

No bojo das transformações que ocorreram nas universidades, com a entrada das camadas mais excluídas, ganhou força a proposta de se articular os saberes populares com a ciência acadêmica. Como o senhor vê isso?

Eu acho que isso até existiu, mas de maneira muito débil. Talvez a melhor formulação sobre isso tenha sido com o grupo que no início do governo Lula esteve junto com o Gilberto Gil no Ministério da Cultura, com intelectuais baianos que fazem uma discussão sobre a questão da diversidade cultural da universidade brasileira. É claro que isso teria de ser ampliado, mas me parece que não o foi com a densidade que necessitava. Parece que o problema do reconhecimento das diferenças não é simplesmente dizer que as diferenças existem, elas existem, mas que estão atravessadas por relações de poder que silenciam os grupos que, na verdade, não são hegemônicos. A Catherine Walsh, norte-americana radicada no Equador, faz a crítica do multiculturalismo em nome da interculturalidade. Ela pelo menos oferece um termo para questionar o multiculturalismo, para que não fiquemos simplesmente discutindo a diversidade cultural, mas enfrentando as relações de poder que silenciam os diferentes. Então, é preciso enfrentar a questão da colonialidade, que é a maneira de hierarquizar e discriminar os grupos subalternos. O esforço que houve, e até houve, me parece que foi muito débil e não enfrentou devidamente o tema do racismo, que impede, por exemplo, grande parte das comunidades indígenas e negras de se manifestarem, assim também aconteceu com outros temas que foram discutidos de maneira muito débil, como o patriarcado.

Na conferência ministrada na UFG, o senhor falou sobre os conflitos que envolvem a água, traçando um paralelo com os conflitos sobre a terra...

Na verdade, você não pode entender o conflito pela água como se a água fosse algum ente separado da terra. Ninguém planta o que quer que seja na terra sem água. Então terra e água são uma coisa só na sua diferença. O que está acontecendo no Brasil e no mundo é um avanço acelerado do processo de controle das terras e de seu uso. E ninguém consegue produzir o que quer que seja na terra sem água. Então, o que está acontecendo é uma mudança nas práticas sociais em torno da terra, modificando a forma de acesso à água. Portanto, não há uma crise hídrica, há uma crise agrária, fundiária, e do projeto societário que relaciona terra e água com a vida. O que está impedindo as pessoas de viverem porque a vida pressupõe terra e água. Não tem vida sem água. Eu diria até que a vida é o quarto estado da água, além dos estados líquido, gasoso e sólido. Na verdade, a água é uma condição da vida antes mesmo de qualquer direito reconhecê-la como tal, e deve sê-lo como um direito humano fundamental, enfim a água é um bem comum, e não mercadoria, porque senão vai ter água quem pode pagar por ela.

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Entrevista Edição 94

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