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É possível evitar testes em animais

Métodos inovadores desenvolvidos na UFG reduzem ou eliminam essa prática, melhoram tempo e custo de produção e fornecem melhor previsão de toxicidade

Testes em animais

Vinícius Paiva

A Ciência utiliza diversos métodos de investigação. Ao olhar para a dinâmica histórica, constata-se que os animais são utilizados em testes desde o século XX. Cães e coelhos já foram utilizados no tratamento contra a raiva, macacos no tratamento de artrite reumática, tatus no tratamento contra lepra e gatos no desenvolvimento de anticoagulantes. O objetivo é produzir conhecimento aos seres humanos para ser utilizado na elaboração de novos fármacos, métodos cirúrgicos, vacinas e terapia gênica. Abandonar esse modelo de experimentação para a geração de conhecimento é uma certeza para o futuro, mas, sobretudo, um grande desafio para a Ciência.

Como vários métodos são úteis, mas nem sempre éticos, a Ciência debate com frequência os diferentes modos de se obter conhecimento. Em especial, quando, a utilização de animais não é a forma mais humanizada nem segura para a geração de dados. A luta contra a não utilização de animais em pesquisas começou em 1980, a partir de protestos organizados por ativistas contra o Teste de Draize, desenvolvido em 1940, que aplica substâncias nos olhos de coelhos para avaliar a toxicidade ocular, o que pode levar esses animais à cegueira. As manifestações culminaram em um anúncio idealizado pelo ativista Henry Spira no jornal The New York Times: "Quantos coelhos ainda ficarão cegos em nome da beleza?".

O anúncio no jornal alavancou o primeiro movimento americano em defesa dos direitos dos animais com consequente boicote dos produtos cosméticos de empresas como a Revlon. O prejuízo financeiro impulsionou as empresas a buscarem soluções para testar seus produtos sem o uso de animais. A área de cosmético é a mais avançada na luta pela apropriação de tecnologias inovadoras na Toxicologia, sem o emprego de animais.

Por que não utilizar?
Substituir animais em pesquisas é o caminho natural da Ciência, do progresso tecnológico e do respeito à vida. Por isso, o Laboratório de Toxicologia e Farmacologia Celular LFTC/FarmaTec da Faculdade de Farmácia da UFG vem realizando esforços para reduzir e até mesmo eliminar o uso de animais em pesquisas, norteados pela "Toxicologia do Século XXI". Isso exige um refinamento científico embasado em simulações computacionais; técnicas in vitro e engenharia de tecidos – ramo da ciência que utiliza conhecimentos de biologia, química e física para desenvolver tecidos humanos.

Segundo a coordenadora do laboratório, Marize Campos Valadares, a crueldade chama a atenção da população, pois a maioria dos testes é praticada sem anestesia e com a introdução de substâncias tóxicas nos organismos, o que causa um sofrimento longo e contínuo. Mas a ineficácia desses testes é evidente, pois são organismos diferentes, não humanos. "O que é tóxico para um animal pode não ser para a gente, por isso a capacidade preditiva do modelo nem sempre é suficiente e satisfatória. Mas se utilizamos métodos inovadores reduzimos tempo e gastos financeiros, reavivamos o lado ético perante o sofrimento animal e obteremos dados de maior qualidade científica", explica.

Métodos inovadores
Por meio da Toxicologia moderna, várias substâncias tóxicas ao corpo humano podem ser verificadas por testes que não utilizem animais. Um dos testes do laboratório diz respeito à alergenicidade e busca compreender o efeito causado na pele humana a partir da interação com determinado produto. O objetivo é encontrar os denominados eventos-chave, que permitem saber se determinada interação pode desencadear algum sintoma físico ou não, como vermelhidão e coceira. "A partir deles, conseguimos entender a capacidade de uma substância em interagir com componentes da pele, por exemplo, com as proteínas, como sendo o primeiro evento-chave que irá culminar no efeito clínico que é a alergia", explica Marize.

O laboratório também realiza testes de toxicidade ocular, um deles por meio da engenharia de tecidos, na qual reconstrói-se in vitro o epitélio ocular para se testar a segurança de produtos cosméticos, como a tinta de rena – utilizada em tatuagens e sobrancelhas. Se esses produtos matarem as células da camada epitelial ou liberarem fatores inflamatórios, são considerados tóxicos aos seres humanos. O outro teste utiliza córneas de bois abatidos por frigoríficos localizados no entorno de Goiânia, que seriam descartadas como lixo pelas empresas. Elas são reutilizadas como uma ferramenta de entendimento do efeito de um produto sobre o olho: se houver a destruição das células da córnea, o produto pode ser classificado como nocivo, exigindo alertas de perigo no rótulo do produto ou até mesmo inviabilizando o seu consumo por humanos.

Outro modelo importante usado no LFTC utiliza a membrana vascularizada de ovos galados para avaliar se novos produtos, como cremes e rímeis, são tóxicos para os olhos. Quando estes produtos são colocados em contato com a membrana dos ovos, observa-se se há hemorragia, por exemplo. A partir disso, pode-se concluir que o produto é tóxico para os olhos. "A técnica está em processo de validação pelo Centro Brasileiro para Validação de Métodos Alternativos (BraCVAM), para sabermos o quanto essa técnica é capaz de acertar se uma substância é irritante ou não. Trata-se de um grande desafio, pois é a primeira técnica a ser validada no Brasil, e o LFTC é um dos quatro laboratórios brasileiros que participam desse estudo", explica Marize.

Prêmios
Em 2017, o LFTC foi premiado cinco vezes pelos estudos desenvolvidos para avaliar toxicidade sem a utilização de animais, como os de Renato Ávila e Artur Silva. Doutorando em Ciências da Saúde, Renato Ávila ganhou o Prêmio Lush Prize, iniciativa que apoia projetos viabilizadores do fim de pesquisas em animais. A pesquisa avalia os efeitos sensibilizadores da pele humana de substâncias e misturas da "vida real", incluindo formulações botânicas, cosméticas e agroquímicas. "O trabalho que ganhamos foi 100% conduzido em território goiano, na UFG, com financiamentos das agências brasileiras de pesquisa. É um prêmio que saiu do eixo Rio-São Paulo. Mostramos que somos competentes e tão competitivos quanto qualquer parte do mundo", comemorou Renato.

Artur Silva, mestrando em Ciências Farmacêuticas, também foi reconhecido no Prêmio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) de Métodos Alternativos à Experimentação Animal, pelo seu trabalho com modelo de córnea humana realizado inteiramente na UFG. O prêmio é uma iniciativa da empresa O Boticário e conta com colaboração institucional da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Segundo o pesquisador, o Brasil está revendo os protocolos de avaliação e classificação de irritantes oculares, visando se adequar aos padrões internacionais. "Dessa forma, o modelo criado se torna mais uma ferramenta do arsenal de métodos de avaliação toxicológica no país, favorecendo o suporte à inovação. Além disso, a não adequação aos protocolos internacionais torna-se uma barreira alfandegária aos produtos brasileiros", explicou.

Testes que deram errado

A famosa Aspirina, medicamento secular usado para dor, febre, inflamação e outros sintomas, se tivesse sido testada em animais, por exemplo, não teria sido aprovada para o consumo humano, pois é tóxica para animais. Por outro lado, o medicamento Talidomida ⎼ que foi considerado seguro em animais ⎼ na década de 1950, começou a ser comercializado e indicado para mulheres grávidas para aliviar os enjoos da gravidez. O trágico resultado foi que a Talidomina é tóxica para grávidas, e inúmeras crianças nasceram com má-formação. Como afirma Thomas Hartung, referência mundial da Toxicologia do Século XXI, "o homem não é um rato de 70 kg, menos ainda uma cultura de células".

O que você pode fazer para evitar o sofrimento animal?

Você pode verificar se determinado produto é ou não testado em animais, acessando o site do Projeto Esperança Animal (PEA), uma Entidade Ambiental que objetiva propiciar harmonia entre os seres humanos e o planeta. Nele você pode conferir, numa enorme lista, quais empresas testam e quais empresas não testam seus produtos em animais.

Você sabe quem sou eu?

"Sou o produto mais consumido no mundo. Eu sou um amor, pois crianças, adolescentes, adultos e idosos, todos me adoram. Mesmo sendo seguro para o organismo humano, tenho meu vilão interior, a telbromina, substância presente no fruto do cacau capaz de afetar o cérebro e o coração do seu animalzinho de estimação. Provavelmente eu nunca teria chegado ao mercado consumidor se tivesse sido testado primeiramente em animais, afinal, para eles eu sou tóxico, mas não para você que me lê agora e, provavelmente, me ama".

R: Eu sou o chocolate. Talvez você nunca teria me experimentado se eu tivesse sido testado primeiro em animais.

Fonte : Ascom/UFG

Categorias : pesquisa edição 93

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